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Governo precisa levar superávit a 2% do PIB até 2030 para recuperar confiança, diz Felipe Salto

Publicado 28/10/2026 • 19:00 | Atualizado há 36 minutos

KEY POINTS

  • Economista-chefe da Warren defende plano gradual para sair de déficit de 0,4% do PIB e alcançar superávit de 2% até 2029 ou 2030.
  • Salto avalia que reação dos mercados após o segundo turno também reflete desmontagem de posições tomadas depois da primeira votação.
  • Economista diz que governo deve aproveitar os primeiros seis meses do novo mandato para aprovar medidas fiscais no Congresso.

O quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa apresentar um plano fiscal gradual e crível, capaz de transformar o déficit primário atual em superávit e levar o resultado positivo a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2029 ou 2030. É o que avaliou Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Para Salto, o desequilíbrio das contas públicas exige correção, mas não na dimensão sugerida pela forte reação dos ativos brasileiros após o segundo turno.

“O problema fiscal não é tão grande quanto os movimentos da bolsa, do dólar e dos juros futuros sugerem”, afirmou.

Segundo o economista, parte da volatilidade representa uma reversão das posições construídas pelo mercado depois do primeiro turno, quando investidores passaram a associar o resultado eleitoral a uma maior possibilidade de ajuste fiscal.

Leia também: Novo governo Lula terá ‘problemas sérios’ sem ajuste fiscal de até 4% do PIB, diz economista Carlos Braga

“Agora, o que acontece depois do resultado do segundo turno é uma correção de preços dos principais ativos e um reposicionamento dos principais players”, disse.

Plano fiscal até 2030

Salto afirmou que o governo precisa sinalizar capacidade de gerar superávit já em 2027, mas defendeu que a consolidação das contas públicas seja feita de forma gradual.

A proposta mencionada pelo economista, elaborada em conjunto com Josué Pellegrini, parte de uma estimativa de déficit primário de 0,4% do PIB neste ano e prevê melhora progressiva até um superávit de aproximadamente 2% do PIB em 2029 ou 2030.

“Se esse plano for anunciado, aprovado no Congresso e bem aceito pelo mercado, isso já vai produzir ganhos no curtíssimo prazo”, afirmou.

Salto ponderou que um ajuste desse tipo pode não corresponder ao cenário idealizado por parte do mercado financeiro, mas considera possível conciliar responsabilidade fiscal e viabilidade política.

“Na política é sempre o caminho do meio. E na política brasileira mais ainda”, disse.

Governo precisa agir nos primeiros meses

Para o economista, Lula terá um desafio adicional diante de um Congresso mais à direita e com forte presença da oposição.

Ainda assim, Salto avalia que existe espaço para negociar medidas fiscais que possam ser apresentadas como agendas de Estado.

Ele citou o senador Rogério Marinho (PL-RN) como exemplo de integrante da direita com conhecimento do debate fiscal e com quem, em sua avaliação, poderia haver interlocução.

“O poder do Executivo, do chefe do Executivo, em início de mandato, é muito grande”, afirmou.

Segundo Salto, a janela mais favorável estará nos primeiros meses do novo governo.

“Com um plano bem colocado, bem desenhado, vendido adequadamente para a imprensa, para os políticos, para o mercado, para os empresários, você consegue aprovar, sim, medidas, principalmente nos seis primeiros meses”, disse.

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O economista também defendeu que o governo aproveite os dois últimos meses deste ano para preparar a transição fiscal e iniciar negociações com o Congresso ainda em sua atual composição.

Dívida está acima de emergentes

Salto afirmou que a dívida pública brasileira é elevada quando comparada à de outras economias emergentes.

Segundo os números citados por ele, a dívida bruta do governo geral está em 82,9% do PIB e, após ajustes metodológicos para comparação internacional, fica cerca de 20 pontos percentuais do PIB acima da média dos países emergentes e em desenvolvimento.

Além do nível elevado, o economista chamou atenção para a trajetória crescente da dívida.

Salto reconheceu o peso dos juros reais elevados, mas argumentou que a taxa de juros é mais consequência do desequilíbrio fiscal do que sua origem.

“A taxa de juros é mais uma consequência do que uma origem, uma causa do problema. Ela revela uma dificuldade, não só desse governo, dos outros anteriores também, pelo menos desde 2014, de conseguir gerar superávit”, afirmou.

Para ele, o governo precisa reduzir o ritmo real de expansão das despesas, que estimou atualmente em 5,5%.

Leia também: Economista analisa fuga de Flávio Bolsonaro e alerta sobre risco fiscal em 2027

“Se você não jogar uma carne para os leões, não fizer algum ajuste fiscal, anunciar um plano crível que reduz a taxa de crescimento do gasto, você não consegue coordenar as expectativas do mercado”, disse.

Salto vê Alckmin como opção para Fazenda

Sobre os nomes cotados para a equipe econômica do novo mandato, Salto afirmou considerar o vice-presidente Geraldo Alckmin o nome mais interessante entre os mencionados publicamente.

“Dos nomes que surgiram até agora, o mais interessante para esse desafio”, afirmou.

Segundo Salto, Alckmin reúne experiência em ajuste fiscal, credibilidade, confiança de Lula e capacidade de interlocução com o Congresso.

O economista também elogiou o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, a quem classificou como “um quadro muito bom” do PT, e não descartou a continuidade do atual ministro Dario Durigan, cuja atuação avaliou positivamente.

Sobre a possibilidade de integrar a equipe econômica, Salto disse não ter recebido convite ou sondagem.

“Estou muito bem aqui na Warren, gosto muito do trabalho aqui. Fico honrado de você citar meu nome”, afirmou.

Ele acrescentou que uma eventual proposta seria considerada caso acontecesse, mas ressaltou que, até agora, não houve contato.

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