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Liquidante do Banco Master recorre à Justiça dos EUA para recuperar imóveis de R$ 843 milhões ligados a Vorcaro

Publicado 09/10/2026 • 13:24 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Liquidante do Banco Master pede à Justiça dos EUA a recuperação de três imóveis de luxo avaliados em R$ 843 milhões e ligados a Daniel Vorcaro.
  • Ação aponta que recursos do banco teriam passado por fundos e empresas no Brasil, nas Bahamas e nas Ilhas Cayman para financiar as aquisições.
  • Processo solicita o bloqueio da venda dos imóveis e a devolução de valores milionários caso a Justiça americana não determine a transferência das propriedades.

O responsável pela liquidação do Banco Master, a EFB Regimes Especiais de Empresas, entrou com uma ação na Justiça dos Estados Unidos para tentar recuperar três imóveis de luxo associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As propriedades, localizadas em Miami, na Flórida, e Aspen, no Colorado, foram adquiridas por mais de US$ 168 milhões, aproximadamente R$ 843 milhões.

O processo foi apresentado na quarta-feira (07) ao Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida. Segundo o liquidante, os imóveis teriam sido comprados com dinheiro desviado do Banco Master, por meio de uma estrutura financeira que envolvia fundos de investimento e empresas registradas em diferentes países.

A ação não tem Vorcaro como réu direto. O pedido é direcionado à Clear River Properties e à Goldbeach Properties, empresas constituídas no estado americano de Delaware que aparecem formalmente como proprietárias dos bens.

Imóveis foram comprados por mais de US$ 168 milhões

De acordo com os documentos apresentados à Justiça americana, a Clear River adquiriu uma residência na Owl Creek Ranch Road, em Aspen, por US$ 77 milhões, em abril de 2024.

Já a Goldbeach realizou duas operações em Miami. A primeira ocorreu em janeiro de 2025, quando comprou uma propriedade à beira da baía, na South Palm Road, por US$ 85,2 milhões. No mês seguinte, a empresa pagou outros US$ 6,9 milhões por um imóvel situado do outro lado da mesma rua.

Segundo a Folha de S. Paulo, os advogados do liquidante afirmam que as três aquisições foram realizadas sem financiamento bancário, com pagamento integral dos valores. A petição também sustenta que Vorcaro utilizava as residências para fins particulares. No caso da propriedade de Aspen, ele teria assinado inicialmente o contrato de compra em seu próprio nome, em março de 2024, antes de transferi-lo à Clear River.

Posteriormente, teriam sido firmados contratos de aluguel com duração de dez anos e opção de compra, garantindo ao ex-banqueiro o uso exclusivo dos imóveis. O liquidante afirma não ter encontrado registros de pagamento desses aluguéis.

Leia também: Caso Master: mensagens de Vorcaro revelam negócios com filha de Otto Alencar e aliado de Jaques Wagner, ex-ministro de Lula

Recursos teriam passado por fundos nas Bahamas e Ilhas Cayman

A investigação apresentada no processo descreve um caminho de movimentações financeiras que começaria no Banco Master e passaria por instituições e empresas no Brasil, nas Bahamas e nas Ilhas Cayman. Uma das principais estruturas identificadas é o Mosaic Short Duration Fund, constituído nas Bahamas em 2020.

Segundo a documentação, o fundo teria recebido mais de US$ 430 milhões entre fevereiro de 2023 e outubro de 2025.

Parte do dinheiro teria passado inicialmente pelo Liquidity Strategies Fund e pelo OGP LatAm Investment, ambos sediados nas Bahamas, antes de seguir para a Entre Investments and Arbitrage, também registrada no arquipélago.

O OGP e a Entre Investments são apontados como empresas ligadas ao empresário Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro. Outra rota descrita na ação envolvia a Entre Investimentos e Participações, empresa brasileira associada ao empresário.

O processo menciona ainda fundos ligados a Benjamin Botelho de Almeida, proprietário da Sefer Investimentos. Entre eles estão o Jaguar Multimarket Fund, das Ilhas Cayman, e o Phoenix Multimarket Fund, das Bahamas. Por essas estruturas teriam circulado US$ 17 milhões em fevereiro de 2024.

A partir do Phoenix, os recursos teriam chegado à Mosaic Group por meio de um contrato de empréstimo de até US$ 350 milhões. A empresa aparece na documentação como antiga controladora formal da Clear River e da Goldbeach.

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Liquidante questiona contrato de empréstimo

Um dos pontos contestados pela EFB é o contrato firmado em 9 de abril de 2024 entre o fundo das Bahamas e a Mosaic Group, dois dias antes da aquisição do imóvel em Aspen. Segundo a documentação, o Mosaic Short Duration Fund recebeu US$ 76 milhões na data da assinatura do acordo.

O liquidante considera que o empréstimo pode ter sido utilizado para justificar formalmente a transferência de recursos. Entre os argumentos apresentados está a previsão de que os pagamentos só começariam em abril de 2031, sete anos depois da contratação.

O contrato também estabelecia juros anuais de 4%, mas não previa sua cobrança durante o período mencionado. A petição afirma, ainda, que determinadas obrigações contratuais foram descumpridas, sem que fossem adotadas medidas de cobrança.

Outro repasse identificado ocorreu em dezembro de 2024, quando o fundo transferiu US$ 29,3 milhões. Seis dias depois, US$ 25 milhões saíram de uma conta da Mosaic no Bank of New York Mellon em direção à Global America Title Services, empresa responsável pelos procedimentos de conclusão de uma das transações imobiliárias.

Empresas e estrutura patrimonial são investigadas

A ação também descreve a participação de executivos ligados à Mosaic Financial, gestora sediada nas Bahamas que teria intermediado parte das movimentações. Entre os nomes mencionados estão Brad Jensen, apresentado como presidente da companhia, e Lori Webb, identificada como diretora.

Conforme o processo, as empresas responsáveis pelos imóveis foram constituídas por representantes da Kodiak Trust Company, por solicitação de Jensen. A Kodiak passou a administrar a Fortress Legacy Trust, uma estrutura patrimonial associada à família Vorcaro.

Em fevereiro de 2024, Webb teria solicitado à Kodiak a substituição do nome de Vorcaro nos registros de duas companhias das Bahamas ligadas às propriedades. Em seu lugar, deveria aparecer a Fortress. Na avaliação do liquidante, a alteração teria servido para dificultar a identificação do ex-banqueiro como beneficiário dos negócios.

O processo cita também um executivo da Accuvest Global Advisors, empresa apontada como vinculada à Mosaic. Ele teria disponibilizado a Vorcaro um cartão de crédito em seu próprio nome, utilizado em despesas que ultrapassaram US$ 100 mil em um único mês.

Transferências continuaram após a liquidação do banco

As movimentações financeiras descritas na ação não teriam sido interrompidas com a liquidação do Banco Master, determinada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Entre dezembro daquele ano e março de 2026, uma conta da Mosaic no Bank of New York Mellon teria enviado US$ 37,5 milhões à Clear River e à Goldbeach.

Duas dessas transferências, de US$ 5,5 milhões cada, ocorreram em 11 e 23 de março de 2026, depois da segunda prisão de Daniel Vorcaro, registrada no dia 4 daquele mês. Considerando os valores utilizados nas aquisições, reformas e demais despesas, o liquidante identificou aproximadamente US$ 107 milhões transferidos à Clear River e US$ 120,5 milhões à Goldbeach.

Justiça americana decidirá sobre destino dos imóveis

Com base nos documentos reunidos, a EFB solicita que o tribunal reconheça as três propriedades como integrantes do patrimônio do Banco Master em liquidação. Como alternativa à recuperação dos imóveis, pede que a Clear River seja condenada a restituir pelo menos US$ 77 milhões e a Goldbeach, outros US$ 92,5 milhões.

O liquidante também requer medidas para impedir a venda ou transferência dos bens durante a tramitação da ação, além da nomeação de um administrador judicial responsável por acompanhar a situação das propriedades.

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