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Nobel de Economia diz que França pode ter se tornado “grande demais para ser salva”

Publicado 09/10/2026 • 10:00 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • A França segue uma “trajetória fiscal insustentável” e pode ter se tornado “grande demais para ser salva” pelo Banco Central Europeu (BCE), escreveu o economista Paul Krugman nesta semana.
  • O ex-presidente do BCE Jean-Claude Trichet disse à CNBC que os políticos franceses precisam chegar a um acordo para recuperar a credibilidade do país junto aos mercados, etapa necessária caso seja preciso recorrer à ajuda do banco central.
  • O primeiro-ministro Sébastien Lecornu tenta aprovar um orçamento controverso para 2027, enquanto protestos estudantis abalam o país.
França

Foto: Unsplash

A França enfrenta uma possível crise da dívida e pode ter se tornado “grande demais para ser salva” pelo Banco Central Europeu (BCE).

A França enfrenta uma possível crise da dívida e pode ter se tornado “grande demais para ser salva” pelo Banco Central Europeu (BCE), segundo o economista vencedor do Prêmio Nobel Paul Krugman.

Os protestos estudantis contra o subfinanciamento da educação continuam a abalar a França, enquanto o primeiro-ministro Sébastien Lecornu enfrenta dificuldades para aprovar um orçamento controverso para 2027, que busca implementar um ajuste fiscal de dezenas de bilhões de dólares.

Em uma publicação em seu blog no Substack, na quinta-feira, Krugman afirmou que a França segue uma “trajetória fiscal insustentável”, com o aumento dos juros da dívida pública agravando a situação. O país também apresenta uma elevada relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB), em meio a grandes déficits orçamentários.

Um dos principais problemas, argumentou o economista, é a incapacidade do país de enfrentar a questão da idade relativamente baixa de aposentadoria, em um contexto de envelhecimento da população.

Leia também: Protestos estudantis tomam a França enquanto Le Pen, favorita da direita radical à Presidência, promete ajuste fiscal

“A dependência da França em relação ao euro significa que é muito fácil imaginar como essa perda de confiança poderia se transformar em uma crise grave. (…) Vimos esse filme entre 2009 e 2012, primeiro na Grécia e, depois, em Portugal, na Espanha e na Itália”, escreveu Krugman, em referência à crise da dívida soberana que levou o BCE a realizar uma ampla intervenção.

“Primeiro, os investidores deixam de comprar títulos de um país da zona do euro, levantando o risco de que o governo seja forçado a dar calote porque simplesmente não tem dinheiro para pagar os juros e o principal de sua dívida. O temor de calote leva, então, a uma fuga ainda maior de capital, o que aumenta o medo de inadimplência e as taxas de juros, aprofundando esse círculo vicioso.”

A conhecida declaração de 2012 do então presidente do BCE, Mario Draghi, de que a instituição faria “tudo o que fosse necessário” para evitar calotes de países foi aceita, em grande parte, porque as nações do sul da Europa implementaram “cortes massivos de gastos”, observou Krugman.

Um eventual resgate da França seria “extremamente caro” para o BCE e provocaria disputas políticas enquanto o país continuasse se afastando “ainda mais da responsabilidade fiscal”, acrescentou o economista.

“A França pode ter cruzado a linha entre ser grande demais para quebrar e grande demais para ser salva. Em resumo, é muito fácil descrever um cenário realmente grave para uma crise francesa, que seria extremamente divisiva dentro da Europa”, escreveu.

Governo francês precisa apresentar uma solução confiável

Em entrevista à CNBC nesta sexta-feira, o ex-presidente do BCE Jean-Claude Trichet defendeu que os políticos cheguem a um acordo para reduzir o déficit da segunda maior economia da União Europeia (UE).

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Trichet, que comandou o BCE entre 2004 e 2011, afirmou que a responsabilidade agora está com o governo e o Parlamento franceses.

“A bola está com o governo e o Parlamento franceses, e eles têm um trabalho difícil pela frente”, disse.

“É claro que, se houver desestabilização, os instrumentos disponíveis são numerosos e já provaram ser muito eficazes no passado. E, naturalmente, conheci um período assim durante meu próprio mandato”, afirmou o ex-presidente do BCE ao programa Squawk Box Europe, da CNBC. Trichet também foi presidente do Banco da França.

Entre os instrumentos disponíveis estão o Mecanismo Europeu de Estabilidade e, em uma situação mais extrema, o Instrumento de Proteção da Transmissão (TPI, na sigla em inglês) do BCE. A medida, finalizada em 2022 e ainda não utilizada, foi criada para garantir a estabilidade dos mercados em períodos de fragmentação na zona do euro.

Leia também: Bolsas da Europa fecham sem direção única com pressão política sobre França e Espanha

Uma intervenção exigiria que o governo francês procurasse o BCE para solicitar ajuda, algo que, segundo Trichet, o próprio governo afirma atualmente não ser necessário.

“Minha recomendação a todas as correntes políticas da França – e vocês sabem que a situação é complexa em termos de preparação política para a eleição presidencial – é que eu pediria a todas elas que agissem com responsabilidade nessas circunstâncias”, afirmou.

“Todas as correntes políticas, sejam quais forem, precisam entender que chegou a hora de provar que a França, como participante dos mercados, é responsável.”

“Peço a elas, naturalmente, que sejam o mais eficazes possível em suas discussões e demonstrem que conseguem apresentar algo que seja confiável. Essa, evidentemente, é uma das condições para ativar o TPI”, disse.

Trichet afirmou que sua experiência durante a crise da dívida soberana mostrou que “primeiro, é preciso ajudar a si mesmo, porque não podemos vencer se vocês próprios não conseguirem convencer os participantes do mercado, os investidores e os poupadores de que são confiáveis”.

“É claro que também é preciso convencer o próprio país de que ele está seguindo na direção certa. Isso nem precisa ser dito. Essa é, pelo que entendo, a convicção do presidente do Banco da França e do governo francês”, acrescentou.

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