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Mensagens indicam que herdeiro da Unigel bancou réveillon de Marcola, fiel escudeiro de Lula

Publicado 26/09/2026 • 10:30 | Atualizado há 11 minutos

KEY POINTS

  • Mensagens extraídas pela PF indicam que Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, teve uma hospedagem de R$ 32,7 mil em Paraty bancada por Leo Slezynger, herdeiro da Unigel.
  • As tratativas sobre a viagem ocorreram no mesmo período em que Roberta Luchsinger articulava interesses da Unigel junto ao governo e à Petrobras, inclusive com pedidos para que Marcola tratasse do tema com o ministro Alexandre Silveira.
  • A defesa de Marcola afirma que a hospedagem integrava um empréstimo pessoal de Roberta Luchsinger, posteriormente quitado, e nega que ele tenha atuado em favor de interesses privados.

Reprodução/Redes sociais

Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola e então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teve uma hospedagem de réveillon em Paraty (RJ) custeada por Leo Slezynger, herdeiro da fabricante de fertilizantes Unigel.

A estadia, no valor de R$ 32,7 mil, foi articulada pela lobista Roberta Luchsinger no fim de 2023. No mesmo período, segundo os diálogos, ela mantinha contatos com Marcola, com Slezynger e com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em meio às discussões sobre um contrato entre a Unigel e a Petrobras.

As conversas, obtidas pela jornalista Malu Gaspar, do Globo, estão em material extraído pela PF do celular de Roberta e incorporado a um inquérito sigiloso envolvendo Lulinha, sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A defesa de Marcola afirma que os valores referentes à hospedagem integravam um empréstimo pessoal concedido por Roberta, posteriormente quitado. A defesa também nega que ele tenha atuado em favor de interesses privados enquanto ocupava o cargo no Palácio do Planalto.

Leia também: Lulinha, lobista e Marcola são suspeitos de atuar em favor da Unigel em negociação com a Petrobras

Reserva foi discutida durante pedidos relacionados à Unigel

As mensagens mostram que, em novembro de 2023, Roberta e Marcola conversaram sobre opções de hospedagem no Centro Histórico de Paraty. Durante a troca de mensagens, a lobista também mencionou demandas relacionadas a Leo Slezynger.

Em 10 de novembro, ela escreveu: “Indo pra Paraty. Veja o hotel que tô olhando também. Queria uma boa notícia pra Léo [Slezynger] rsrsrs pelo menos um café e esperança”.

Marcola respondeu: “Que maravilha. Inveja de você”.

Na sequência, Roberta afirmou que “Fábio” talvez estivesse em Paraty durante o Ano Novo. O contexto das conversas sugere uma possível referência a Lulinha, embora a mensagem não mencione o sobrenome.

Parte do pagamento da hospedagem foi feita inicialmente por Roberta. Segundo as conversas, ela desembolsou R$ 13.650 como entrada e, depois, recebeu valores referentes ao restante da estadia.

Em 27 de novembro, ao tratar do assunto com um então diretor da Unigel, Roberta afirmou:

“Paguei a entrada e agora tem o restante. Convida ele para conhecer a reserva, ir na sua casa. Marcola é a figura mais importante, tá. Vamos precisar dele por muito tempo”.

Posteriormente, Slezynger encaminhou um comprovante de pagamento de cerca de R$ 19 mil para a RL Consultoria e Intermediações, empresa de Roberta, completando o valor atribuído à hospedagem.

Mensagens citam reunião com ministro de Minas e Energia

Na mesma sequência de conversas sobre a viagem, Roberta pediu que Marcola falasse com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. “Se você puder depois dar um toque no ministro Alexandre”, escreveu.

Marcola respondeu que já tinha uma reunião marcada com o ministro antes de um encontro entre Silveira e Lula:

“Eu tenho hoje uma reunião com o Alexandre às 14h30. Já combinei com ele, pois o pr [presidente da República] fala com ele às 15h.

Roberta então acrescentou: “Pede ele pra falar da Unigel”.

Contrato enfrentava resistência na Petrobras

A movimentação ocorreu enquanto a Unigel buscava viabilizar um contrato de tolling com a Petrobras. Pelo modelo, a estatal forneceria gás natural para unidades da empresa e receberia fertilizantes como contrapartida.

O objetivo declarado da operação era manter em funcionamento fábricas localizadas na Bahia e em Sergipe. As unidades haviam sido arrendadas à iniciativa privada durante o governo Jair Bolsonaro.

Segundo o material investigado, havia resistência ao negócio dentro da Petrobras devido às condições econômicas do acordo e à possibilidade de perdas para a companhia.

O contrato acabou sendo assinado em 29 de dezembro de 2023, pouco antes do período de Réveillon em Paraty.

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A Polícia Federal apura se houve tráfico de influência na articulação em torno do acordo.

Lobista demonstrou preocupação com forma de pagamento

Os diálogos mostram que Roberta discutiu maneiras de quitar a hospedagem sem vincular diretamente o pagamento a Slezynger.

Em um áudio enviado a Marcola, ela afirmou: “Deixa eu te falar, no cartão é ruim porque aí vai ficar vinculado o cartão do Leo e com o cartão meu lá com você e a hospedagem. É melhor fazer depósito, boleto, Pix, alguma coisa assim, entendeu? Eu pedi ao Daniel, nosso agente, para ver se ele [paga] pela agência dele. Ele está olhando lá”.

Na mesma mensagem, a lobista sugeriu que a secretária de Marcola entrasse em contato diretamente com o hotel para viabilizar outra forma de cobrança.

Marcola respondeu: “Vou ver de outro jeito aqui. Vou ver como será. Te aviso já”.

Mais tarde, informou que o estabelecimento exigia um sinal correspondente à metade da estadia e que havia lançado a despesa em seu próprio cartão para assegurar a reserva.

Roberta então perguntou como poderia repassar o valor: “Você quer que eu faça como então? Eu mando lá no hotel ou eu mando pra você? Me fala aí como você quer que a gente faça. Me avisa aí para eu poder fazer e tirar já logo isso das suas costas. Você quer que eu te entregue isso aí? Me fala”.

Marcola respondeu que tratariam do assunto posteriormente.

Em outro áudio, Roberta citou a reação que Slezynger poderia ter caso soubesse que o então chefe de gabinete havia bancado parte da despesa:

“Ô Marcola, não, então beleza. É só porque… Deus me livre se o Leo souber que você gastou qualquer centavo nisso daí ele me mata. Aí a gente vê”.

Ela também se ofereceu para deixar um cartão cadastrado para os gastos da família durante a permanência no hotel.

Oferta de carro blindado

As mensagens registram ainda uma oferta de veículo para Marcola durante a viagem.

“Carro você fica com um meu. Blindado, mais seguro. Só não tenho cadeirinha rsrss”, escreveu Roberta, em referência à filha de Marcola. Os diálogos não esclarecem se o automóvel pertencia à própria lobista ou se seria providenciado por terceiros.

Conversas atribuem atuação política ao grupo

Outros diálogos reunidos na investigação mostram Roberta atribuindo a integrantes do governo influência sobre as negociações da Unigel. Em uma mensagem enviada a Leo Slezynger, ela escreveu:

“É o gabinete [presidencial] trabalhando pra vocês praticamente”.

Em outra conversa, afirmou: “Só estão assinando esse tolling porque houve intervenção direta do presidente”.

Lula nega ter discutido qualquer demanda relacionada ao contrato e afirma que não tratou do tema com Roberta, Lulinha ou Marcola. Em janeiro de 2024, após a assinatura do acordo, Roberta também comentou com Lulinha a atuação de Marcola nas articulações.

Depois de receber de Lulinha a imagem de uma conversa em que Slezynger buscava uma reunião com Lula, ela escreveu:

“[Leo está] Super agradecido [com] a sua atuação. Ele sabe que isso só aconteceria se fosse realmente interesse do papis. Jaques e Rui tentaram capitalizar para eles… Mas nosso Marcolinha foi mais ligeiro”.

Além do contrato com a Petrobras, as conversas mencionavam o interesse da Unigel em buscar financiamento junto ao BNDES para projetos de expansão.

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