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Reaproximação EUA-China acende alerta para soja e carne brasileiras

Publicado 15/05/2026 • 21:14 | Atualizado há 50 minutos

KEY POINTS

  • Brasil exportou 85,4 milhões de toneladas de soja para a China em 2025, maior volume em quatro anos e equivalente a 79% dos embarques brasileiros do grão.
  • Compromisso chinês de comprar ao menos 25 milhões de toneladas anuais de soja dos EUA entre 2026 e 2028 voltou ao centro da agenda com a visita de Trump à China.
  • Na carne bovina, Pequim impôs tarifa de 55% sobre volumes acima da cota; Abiec projeta queda de 10% nas exportações brasileiras em 2026.
Grãos de soja sendo descarregados de colheitadeira em campo agrícola, com máquina agrícola em operação sob céu aberto.

Freepik

O Brasil encerrou 2025 com o maior volume de soja exportada para a China em quatro anos: 85,4 milhões de toneladas do grão, equivalentes a 79% de tudo que o país embarcou no ano. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) compilados pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Esse era o pico de uma trajetória construída ao longo da guerra comercial entre Estados Unidos e China, quando Pequim vetou compras de agricultores americanos e passou a depender cada vez mais do Brasil. Agora, com a reaproximação entre as duas potências, esse espaço deve voltar a ser centro de disputa.

O compromisso chinês de comprar ao menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano entre 2026 e 2028 — costurado entre os países em novembro do ano passado — voltou ao centro da agenda durante a visita do presidente Donald Trump à China nesta semana.

O movimento já vinha se desenhando nos quatro primeiros meses deste ano, quando a demanda chinesa por soja americana já aparecia acima dos níveis de 2025 e da média dos últimos cinco anos, de acordo com dados da American Farm Bureau Federation (AFBF) consultados pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

A dimensão do que está em jogo para o Brasil fica mais clara quando olhamos os números da guerra comercial. De janeiro a agosto de 2025, as exportações americanas de soja para a China despencaram para 218 milhões de bushels, queda de 78% em relação aos 985 milhões embarcados no mesmo período do ano anterior, segundo a AFBF.

Foi nesse vácuo que o Brasil avançou. Em 2022, antes do aumento das tensões, a China respondia por 68% das exportações brasileiras de soja em grão. Em 2025, essa fatia havia saltado para 79%, de acordo com os dados da Abiove. Agora, com os EUA tentando recuperar espaço em Pequim, o mercado que o Brasil ocupou nos últimos anos volta ao centro da disputa.

“O governo americano busca expandir o comércio bilateral e retomar vendas de soja e carne, setores que apoiam o presidente”, avaliou Marcus Vinícius Freitas, professor de Relações Internacionais e especialista em China, em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Para ele, Trump chega à mesa de negociação enfraquecido por questões internas e pelo conflito no Irã, e precisa de resultados comerciais concretos antes das eleições legislativas americanas. “Trump entendeu a mensagem de estabilidade e relembrou que foi o último presidente americano a visitar a China, há nove anos. Agora o governo americano busca expandir o comércio bilateral”, disse.

Na carne bovina, o risco já está se materializando, antes de qualquer efeito da reaproximação dos dois países. Em 2025, a China comprou cerca de 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, respondendo por 48% do total exportado pelo Brasil e US$ 8,90 bilhões em receita, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Em 2026, porém, Pequim impôs salvaguardas com tarifa de 55% sobre volumes acima da cota; para o Brasil, o limite estabelecido é de cerca de 1,1 milhão de toneladas — aproximadamente 35% abaixo do volume negociado no ano anterior.

Ao comentar a medida, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, disse que “não há mercado que substitua a China”. A entidade projeta queda de 10% nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026.

O risco para o Brasil não é perder a China de uma vez, nem ser substituído integralmente pelos Estados Unidos. O ponto é que, depois de anos se beneficiando da distância entre Washington e Pequim, o agro brasileiro passa a lidar com uma China mais disposta a diversificar fornecedores e a usar seu peso de compra para negociar preços, cotas e concessões. Na soja, isso aparece no compromisso de recompor parte das compras americanas. Na carne, nas salvaguardas que limitam o avanço brasileiro no maior mercado do mundo. O espaço conquistado pelo Brasil continua grande, mas pode deixar de ser tão confortável.

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