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Tarifaço leva empresas a avaliar produção fora do Brasil e adaptação de fábricas para atender outros mercados

Publicado 17/07/2026 • 21:00 | Atualizado há 9 minutos

KEY POINTS

  • Empresas estudam reduzir produção, adaptar fábricas e transferir equipamentos para países vizinhos.
  • Fiep estima que 75% das exportações paranaenses aos Estados Unidos podem ser atingidas pela nova tarifa.
  • Madeira, máquinas, calçados e rochas naturais enfrentam dificuldade para substituir o mercado americano no curto prazo,

Foto: Arquivo Nacional

A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos começa a alterar decisões dentro das empresas brasileiras. Exportadores avaliam reduzir a produção, renegociar contratos, adaptar fábricas para atender outros mercados e, em casos mais extremos, transferir equipamentos e operações para países vizinhos.

O movimento é mais visível em setores com elevada dependência do mercado americano e pouca capacidade de redirecionar rapidamente os embarques. Madeira processada, máquinas, calçados e rochas naturais estão entre as cadeias mais expostas.

No Paraná, empresas já começaram a instalar unidades em outros países para preservar o acesso aos Estados Unidos sem a sobretaxa aplicada ao produto brasileiro, segundo João Arthur Mohr, superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

“Tem indústrias que já estão se instalando em países vizinhos para conseguir produzir lá, transferir os equipamentos aqui do Brasil e, por meio desse país, acessar o mercado americano sem a tarifação”, afirmou em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

A nova cobrança entra em vigor em 22 de julho. Além da queda potencial nas exportações, entidades empresariais alertam para efeitos sobre margens, contratos, empregos e investimentos.

Leia também: Tarifaço: EUA incluem documento sobre tarifa ao Brasil em lista de publicação do diário oficial americano

Empresas reavaliam onde e quanto produzir

A transferência de operações é uma das alternativas analisadas pelas companhias mais dependentes dos Estados Unidos. A medida, no entanto, envolve custos logísticos, tributários e operacionais e pode representar perda de produção e postos de trabalho no Brasil.

Outra possibilidade é adaptar as fábricas para vender produtos diferentes a novos destinos. No setor madeireiro, uma empresa que produz molduras para o mercado americano poderia passar a fabricar madeira serrada para a Europa.

Mas esses mercados já têm fornecedores estabelecidos, e a chegada de um volume adicional de produtos brasileiros pode aumentar a oferta e pressionar os preços.

As empresas também tentam negociar a divisão do custo da tarifa com importadores e consumidores americanos. Segundo Mohr, uma fabricante de móveis do Paraná recebeu de um cliente nos Estados Unidos a proposta de repartir o impacto entre a indústria brasileira, o importador e o comprador final.

A solução é mais difícil para produtos com menor diferenciação, como a madeira.

“Na madeira, é impossível. Vinte e cinco por cento é simplesmente impossível tanto para o importador absorver como para a indústria madeireira paranaense”, disse.

Sem espaço para repassar ou dividir o custo, as alternativas se restringem à redução de margens, perda do cliente ou reorganização da produção.

Paraná pode ter 75% das exportações atingidas

A Fiep estima que cerca de 75% das exportações paranaenses aos Estados Unidos podem ser alcançadas pelas novas tarifas. Para o Brasil, de maneira geral, a proporção calculada pela entidade é de aproximadamente 30%.

A diferença está relacionada ao peso da indústria de base florestal na pauta do estado. O Paraná exporta madeira serrada, compensados, pisos, portas e molduras utilizadas principalmente na construção de imóveis americanos.

“A balança comercial do Paraná terá um impacto de 75%. É muito maior do que o Brasil como um todo”, afirmou Mohr.

Apenas alguns tipos de pisos de madeira entraram na relação de exceções. Outros produtos passam a enfrentar a tarifa adicional, enquanto concorrentes de países como Chile, Canadá, Suécia, China e Malásia não estão sujeitos à mesma cobrança.

“Quando só o Brasil é taxado em 25% e o Chile não, o Canadá não, a Suécia não, a China não e a Malásia não, nós perdemos totalmente a competitividade”, disse.

Algumas indústrias paranaenses operam há cerca de quatro décadas no mercado americano e destinam praticamente toda a produção ao país. Sem compradores alternativos de escala semelhante, essas empresas podem ser obrigadas a reduzir a atividade.

“Nós temos um risco enorme de empregos nesse setor, porque essas indústrias estão focadas 100% na produção para os Estados Unidos e não têm outro mercado que a gente possa abrir para derivar”, afirmou.

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Exposição alcança outros polos industriais

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O Paraná não é o único estado com elevada exposição. Em Santa Catarina, cerca de 54,5% das exportações aos Estados Unidos permanecerão atingidas, segundo a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).

A pauta catarinense concentra produtos de madeira, móveis, máquinas e equipamentos elétricos. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, durante a rodada anterior de tarifas, as exportações do estado ao mercado americano caíram 38,29%.

A média mensal dos embarques recuou de US$ 141 milhões para US$ 87 milhões. A Fiesc estima que aproximadamente 7,6 mil empregos formais deixaram de ser gerados no período.

No Espírito Santo, quase 500 produtos comercializados pelo estado podem ser alcançados pela sobretaxa, segundo a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes).

Os Estados Unidos receberam 27% das exportações capixabas em 2025, o equivalente a US$ 2,8 bilhões. Rochas naturais e minério de ferro estão entre os produtos mais expostos.

No primeiro semestre de 2026, as vendas do Espírito Santo ao mercado americano já haviam recuado 17,2% na comparação anual.

O quartzito permaneceu entre as exceções, mas granitos, mármores, ardósias, xistos e pedra-sabão seguem sujeitos à tarifa. Os Estados Unidos concentram cerca de 70% das exportações brasileiras de produtos semiacabados de rochas naturais, segundo Fabio Cruz, vice-presidente da Centrorochas.

“O que vendemos para lá se torna insumo para a indústria americana. A maior parte da cadeia de valor está do lado americano”, afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Novos mercados exigem tempo e investimento

A dificuldade para substituir os Estados Unidos também alcança a indústria de máquinas e equipamentos.

Máquinas são frequentemente fabricadas sob encomenda, passam por certificações e homologações e exigem uma relação comercial construída ao longo de anos. Encontrar um comprador em outro país não significa apenas redirecionar a carga que seria embarcada aos Estados Unidos.

Patrícia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC que a reorientação é especialmente complexa para bens de alto valor agregado.

“Não é factível, ou é muito mais difícil no nosso caso, fazer essa reorientação para outros mercados do que pode ser perdido com os Estados Unidos”, disse.

A Abimaq projeta queda de 11% nas exportações do setor em 2026 diante do novo cenário tarifário. Em 2025, as vendas de máquinas e equipamentos brasileiros ao mercado americano somaram aproximadamente US$ 3,2 bilhões.

O setor calçadista também já revisou suas estimativas. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) passou a projetar retração de 7,1% nas exportações totais de 2026, ante queda de 3,6% calculada antes da nova tarifa.

Os Estados Unidos são o principal destino externo dos calçados brasileiros. A sobretaxa amplia a diferença de preços em relação a fornecedores asiáticos e compromete operações que começavam a ser retomadas após as barreiras anteriores.

Leia também: Consultoria avalia que 31% das exportações do Brasil aos EUA estarão sujeitas às novas tarifas

Perda de pedidos pode atingir investimentos e empregos

A primeira reação das empresas tende a ser a tentativa de preservar contratos e ampliar as exceções. Importadores e clientes americanos também participam das negociações em setores nos quais o produto brasileiro é utilizado como insumo ou não encontra substituto imediato.

Quando a negociação não avança, as companhias passam a considerar redução da produção, cancelamento de investimentos e mudança de localização das fábricas.

A diversificação dos destinos continua sendo tratada como estratégia necessária, mas não como solução imediata. O mercado americano combina escala, poder de compra e relações comerciais construídas ao longo de décadas.

Para os setores atingidos, o risco é que a perda de competitividade deixe de ser apenas uma redução temporária dos embarques e passe a provocar mudanças permanentes na estrutura produtiva brasileira.

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