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Tarifaço: setor produtivo pressiona governo por negociação, vê risco a empregos, mercados e pede cautela em retaliação

Publicado 16/07/2026 • 22:56 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Fiesp, Ciesp, Abimci e representantes do agro criticam a politização da disputa e defendem negociação técnica com Washington.
  • Entidades projetam queda nas exportações, perda de competitividade, pressão sobre empregos e dificuldade para substituir o mercado americano.
  • Governo iniciará os trâmites da Lei de Reciprocidade e retomará a disputa na OMC, enquanto empresas pedem cautela para evitar uma nova escalada.

Divulgação/CNI

O anúncio da tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos ao Brasil provocou uma reação coordenada do setor produtivo e ampliou a pressão do empresariado sobre o governo brasileiro. Entidades da indústria e do agronegócio cobram uma resposta técnica, pragmática e concentrada na negociação, sem transformar a disputa comercial em um embate político.

Pronunciamento de federações industriais, associações e confederações convergem no argumento de que a tarifa reduz a competitividade brasileira, ameaça contratos, investimentos, empregos e pode levar compradores americanos a substituir fornecedores do país.

Parte das entidades, porém, atribuiu o agravamento da crise a ruídos diplomáticos, discursos eleitorais e falta de pragmatismo na relação com Washington.

A nova tarifa entra em vigor em 22 de julho. Segundo o governo federal, cerca de 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos serão atingidas, o equivalente a US$ 7,4 bilhões considerando a pauta de 2024. Madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, cerâmicos, calçados e açúcar estão entre os setores mais expostos. 

Leia também: Críticas ao Pix são “desculpa” dos EUA para justificar tarifas contra o Brasil, diz Galípolo

Indústria critica politização e cobra negociação

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) fez uma das manifestações mais duras contra as tarifas. A entidade afirmou que a opção do governo brasileiro por “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington” prejudicou uma relação bilateral construída ao longo de mais de dois séculos.

Para a Fiesp, a retaliação poderia ter sido evitada por meio de uma condução técnica e pragmática. A federação defendeu a continuidade da chamada diplomacia empresarial para tentar reverter a tarifa ou ampliar a lista de exceções.

“O mercado norte-americano é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Esse novo ‘pedágio’ imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada pelas nossas empresas”, afirmou Paulo Skaf, presidente da Fiesp. 

O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) adotou linha semelhante. A entidade apontou “forte evidência de motivação política” na decisão americana, mas também pediu que o governo brasileiro evite respostas políticas e mantenha um tom “sereno, seguro e de bom senso”.

Segundo Rafael Cervone, presidente do Ciesp e primeiro vice-presidente da Fiesp, a radicalização do discurso e a associação do tema ao calendário eleitoral “não ajudam na construção de soluções técnicas e justas”.

A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) também cobrou uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, “dissociada dos componentes políticos” e focada na negociação diplomática.

O setor madeireiro está entre os mais atingidos e ainda tentava se recuperar das tarifas anteriores. Para a associação, o novo custo ameaça relações comerciais construídas ao longo de décadas, além de investimentos, produção e postos de trabalho.

No agronegócio, a cobrança também apareceu. Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC que a identidade dos presidentes ou integrantes dos governos não deveria interferir na relação comercial.

“Nós temos que sentar e negociar. Estados Unidos são nosso cliente. Não interessa quem é o presidente, quem é o secretário de Estado”, disse.

Empresas alertam para contratos, empregos e perda de mercados

Os efeitos projetados variam entre os setores, mas as estimativas mostram impactos concentrados em cadeias altamente dependentes dos Estados Unidos.

A Farsul estima perdas superiores a US$ 3,5 bilhões para cadeias exportadoras. Segundo a entidade, a tarifa incidirá sobre 38% dos produtos brasileiros enviados ao mercado americano, com impacto maior sobre madeira, fumo, couro, calçados, sebo bovino e mel.

Mesmo produtos com participação menor na pauta nacional podem sofrer forte abalo regional. No caso do mel, por exemplo, cerca de metade das exportações brasileiras tem os Estados Unidos como destino.

Em Santa Catarina, a Federação das Indústrias do estado (Fiesc) estima que a primeira rodada de tarifas já tenha impedido a geração de cerca de 7,6 mil empregos formais. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, as exportações catarinenses para os Estados Unidos recuaram 38,29%, de uma média mensal de US$ 141 milhões para US$ 87 milhões.

A Fiesc avalia que o novo ciclo tarifário pode consolidar uma retração próxima de 40% nas vendas ao mercado americano. O estado de Santa Catarina tem exposição superior à média nacional por causa do peso dos produtos manufaturados em sua pauta.

No Espírito Santo, a Federação das Indústrias (Findes) informou que 27,5% das exportações do estado foram destinadas aos Estados Unidos no primeiro semestre. As vendas ao mercado americano caíram 17,2% ante o mesmo período do ano anterior.

O setor calçadista também revisou suas projeções. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) passou a estimar queda de 7,1% nas exportações totais em 2026, ante uma retração de 3,6% projetada anteriormente.

Segundo a entidade, a tarifa amplia a diferença de preços entre o calçado brasileiro e o de concorrentes asiáticos, em um mercado americano que consome mais de 2 bilhões de pares por ano, mas produz internamente apenas cerca de 20 milhões.

Leia também: Tarifa de 25% reduz competitividade das exportações brasileiras

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Máquinas enfrentam dificuldade para substituir compradores

A indústria de máquinas e equipamentos projeta queda de 11% nas exportações em 2026. Os Estados Unidos são o principal destino externo do setor, com US$ 3,2 bilhões em compras de produtos brasileiros em 2025. No sentido inverso, as vendas americanas ao Brasil somaram aproximadamente US$ 4,8 bilhões. 

Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Patrícia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirmou que a diversificação de mercados é especialmente difícil para o setor.

Máquinas são bens de alto valor agregado, muitas vezes customizados e submetidos a processos longos de certificação e homologação. A relação com o comprador também costuma ser construída no médio e longo prazo.

“Não é factível, ou é muito mais difícil no nosso caso, fazer essa reorientação para outros mercados do que pode ser perdido com os Estados Unidos”, afirmou.

A Abimaq avalia que o Plano Brasil Soberano e linhas de financiamento podem ajudar, mas talvez não sejam suficientes. O setor defende crédito competitivo, instrumentos de apoio à exportação e medidas para reduzir resíduos tributários, como a ampliação do Reintegra.

A avaliação é semelhante à da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Kleber Pacheco de Castro, gerente de Política Econômica da entidade, afirmou que fundos constitucionais fortalecem empresas e ajudam a financiar máquinas, equipamentos e expansão de fábricas, mas não neutralizam o aumento das tarifas.

“Dificilmente um crédito mais barato vai conseguir compensar o tamanho do impacto que essa tarifa pode ter na indústria brasileira voltada para a exportação”, disse ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Exceções mostram resultado da mobilização empresarial

Apesar das críticas, entidades que conseguiram incluir produtos na lista de exceções apontaram que a mobilização técnica junto a empresas e associações americanas produziu resultados.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) informou que 63,5% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro aos Estados Unidos ficará fora da tarifa adicional. A lista de exceções foi ampliada para 2.126 linhas tarifárias e passou a incluir produtos como pescados, mel e café solúvel.

Ainda assim, madeira, arroz, uva, ovos e açúcar permanecem atingidos. Esses itens representaram cerca de US$ 4,6 bilhões em vendas ao mercado americano em 2025. 

A Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca) atribuiu a isenção do setor ao trabalho conjunto com o National Fisheries Institute e empresas importadoras dos Estados Unidos. A entidade mantém projeção de crescimento de aproximadamente 10% nas exportações em relação a 2025.

O suco de laranja também ficou fora da nova sobretaxa. Segundo a CitrusBR, os Estados Unidos responderam por 48% das exportações brasileiras do produto na safra 2025/2026, com receita de US$ 1,08 bilhão.

No segmento de rochas naturais, o quartzito foi preservado, mas granitos, mármores, ardósias, xistos e pedra-sabão seguem tarifados. Fabio Cruz, vice-presidente da Centrorochas, afirmou que os Estados Unidos concentram cerca de 70% das exportações brasileiras de produtos semiacabados do setor.

“A gente fica preocupado porque sinto que isso não acaba por aqui. Ainda tem muita água para passar debaixo da ponte”, afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Leia também: Tarifas e guerra devem manter juros elevados e volatilidade no segundo semestre

Reciprocidade preocupa empresas

O governo informou que iniciará imediatamente os trâmites previstos na Lei da Reciprocidade e retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). Também prometeu reforçar o Plano Brasil Soberano e reunir os setores atingidos para discutir apoio financeiro e diversificação de mercados. 

A possibilidade de retaliação, porém, é vista com cautela pelo setor produtivo.

Veronica Winter, coordenadora do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), afirmou que qualquer resposta precisa considerar os efeitos sobre empresas brasileiras que dependem de insumos importados dos Estados Unidos.

“Tem que ser muito bem avaliado quais produtos serão atingidos para que não haja um efeito reverso ao que buscamos, que é melhorar tanto as economias quanto essa relação bilateral”, disse ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) também defendeu que as divergências sejam tratadas por negociação, diálogo institucional e mecanismos internacionais. A entidade acrescentou que a crise reforça a necessidade de o Brasil avançar na agenda doméstica de competitividade.

Fiesp e Ciesp colocaram no centro dessa discussão a redução do chamado Custo Brasil, com juros menores, equilíbrio fiscal, segurança jurídica, reforma administrativa e melhoria da infraestrutura.

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