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Inteligência artificial virou obsessão do Brasil corporativo; mas o país real não aparece em dado nenhum
Publicado 02/04/2026 • 14:00 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 02/04/2026 • 14:00 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
Imagem gerada pela Inteligência Artificial ImaGen3
Brasil estuda inteligência artificial em ritmo acelerado, mas dados excluem trabalhadores informais e autônomos do país
Os dez cursos mais procurados no Brasil na plataforma da Coursera são todos sobre inteligência artificial. Inglês sumiu do top 10. Finanças, também. Excel, nem sinal. No México e no Peru, a lista ainda divide espaço com idiomas e planilhas. Aqui, virou monoteísmo digital.
Tem uma certa graça nisso, o país que historicamente lamentou não falar inglês, que sempre colocou educação financeira como prioridade adiada para o ano que vem, decidiu de uma vez que o assunto agora é outro. Se tem uma coisa que o brasileiro faz com entusiasmo genuíno, é embarcar numa ideia nova antes de entender direito o que ela significa.
Fui conversar com Anthony Salcito, vice-presidente global da Coursera, em sua última passagem pela América Latina, no finalzinho de março. Ele veio de Seattle com números debaixo do braço e aquela disposição característica de executivo americano que acredita genuinamente no que vende. Do lado dele, Dorota Zawistowska, diretora regional para a América Latina. Os dois trouxeram o Job Skills Report 2026 da empresa, listada na Bolsa de Nova York.
Os números que vieram na bagagem impressionaram. Matrículas em cursos de IA generativa cresceram 617% no mercado corporativo brasileiro. Pensamento crítico subiu 289%. Gestão de mudanças, 244%. Leia a matéria completa aqui.
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Um aumento de 617% soa como uma virada. E talvez seja. Mas a Coursera não divulga os números absolutos por país, em nenhum relatório, em nenhum documento arquivado na SEC americana. Crescimento percentual sem base conhecida é um dado real com alcance limitado. Se você sai de dez matrículas para setenta e duas, o crescimento percentual é enorme. O fenômeno, talvez não.
Pesquisei os filings regulatórios. Em 2023, foram 570 mil matrículas em IA generativa no mundo inteiro. Em 2024, 3,3 milhões globalmente. A fatia brasileira nunca aparece. Quando um número é pequeno demais para constar nos documentos de uma empresa de capital aberto, é porque ele pode ser pequeno demais.
Isso não invalida o dado. Invalida o entusiasmo irrestrito com ele.
Quando perguntei ao Salcito sobre a diferença entre matrícula e resultado concreto no mercado de trabalho, ele foi honesto na medida certa. Disse que crescimento é sinal, não fim. Resposta correta. É também a resposta que qualquer executivo bem preparado daria naquele contexto.
O relatório mede funcionários de empresas, servidores públicos e universitários. O Brasil informal, que é a maioria da força de trabalho do país, não aparece em linha nenhuma da pesquisa.
Perguntei sobre isso. Salcito falou em indivíduos que investem em si mesmos, em pessoas físicas e pequenas empresas. A resposta existe. A evidência nos dados, ainda não.
Zawistowska trouxe o detalhe que ficou mais tempo comigo depois da conversa. As universidades brasileiras são o maior desafio da Coursera no país. O custo por hora-crédito no ensino superior daqui é tão baixo que o modelo de negócio da plataforma não se encaixa.
E as faculdades brasileiras, detalhe curioso, não querem aprender com outras faculdades brasileiras. Preferem o certificado americano ou europeu, traduzido para o português.
Isso diz algo sobre como o país enxerga o próprio conhecimento, mas essa é uma coluna sobre I.A.
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Um dado no relatório que não apareceu em nenhum press release foi que Pensamento crítico foi a habilidade que mais cresceu entre quem estuda inteligência artificial. Alta de 185% entre alunos de IA generativa, 168% entre os de dados.
Vale ler de novo, quanto mais as pessoas aprendem a usar I.A., mais procuram aprender a questionar o que ela produz. É a resposta natural de quem percebe que a ferramenta erra, alucina, e precisa de alguém com julgamento capaz de supervisionar o resultado.
A Anthropic, empresa criadora do Claude, publicou um estudo citado no próprio relatório da Coursera apontando que metade das interações com IA envolve automação pura. A outra metade é colaboração entre humano e máquina. A tecnologia que pretende substituiri o trabalhador, por ora está aumentando a demanda por quem sabe pensar.
O Brasil estudou tudo isso em 2025 com uma intensidade que não tem paralelo na América Latina. Matrículas não mentem sobre intenção. O que ainda falta saber é quantos desses estudantes vão conseguir usar o que aprenderam, e se o país vai criar as condições para que isso aconteça fora do mercado formal que a Coursera consegue medir.
Por enquanto, o dado mais honesto do relatório é aquele que está faltando. O Brasil que a Coursera mede é real, mas o Brasil que ela não consegue medir é muito maior.
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