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Sua equipe trabalha por propósito ou por medo?

Publicado 17/07/2026 • 09:12 | Atualizado há 8 horas

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O psiquiatra Dr. Daniel Sócrates mostra como diferenciar uma liderança que desenvolve pessoas de práticas de gestão que alimentam o medo, o estresse crônico e o adoecimento no trabalho.

A pressão faz parte da vida de quem ocupa cargos de liderança. Decisões estratégicas, metas ambiciosas, necessidade de responder rapidamente ao mercado e a responsabilidade sobre equipes inteiras tornam inevitável conviver com momentos de alta exigência. O problema não é a cobrança. O problema é quando ela deixa de ser uma ferramenta de gestão e passa a se tornar uma fonte permanente de sofrimento psicológico.

Como psiquiatra voltado exclusivamente para a saúde mental no ambiente de trabalho, tenho observado um aumento expressivo de executivos, gestores e profissionais em posições de liderança que chegam ao consultório convencidos de que "não estão dando conta". Na realidade, muitos deles não estão diante de um problema de desempenho, mas inseridos em ambientes organizacionais marcados por relações tóxicas, nas quais o estresse deixou de ser episódico para se tornar crônico.

É importante fazer uma distinção. Toda empresa precisa estabelecer metas, acompanhar indicadores, cobrar resultados e oferecer feedback. Isso faz parte de uma gestão saudável. Liderar significa, muitas vezes, tomar decisões difíceis e exigir comprometimento da equipe.

Uma cobrança legítima é clara, objetiva e baseada em critérios conhecidos. Ela vem acompanhada de recursos, autonomia, diálogo e reconhecimento. O profissional sabe o que precisa entregar, entende por que aquilo é importante e recebe condições para realizar seu trabalho.

Já a gestão tóxica funciona de maneira diferente. Ela utiliza a insegurança como ferramenta de comando. As metas mudam constantemente sem justificativa, as prioridades são contraditórias, o feedback aparece apenas para apontar falhas e o medo passa a ocupar o lugar da confiança.

Quando isso acontece, o colaborador deixa de trabalhar orientado por propósito e passa a trabalhar tentando evitar punições. O cérebro interpreta esse ambiente como uma situação contínua de ameaça.

O que acontece com o corpo e com o desempenho

Do ponto de vista da neurobiologia, permanecer em estado constante de alerta significa ativar repetidamente sistemas relacionados ao estresse. Há aumento da liberação de cortisol e adrenalina, alterações no sono, maior tensão muscular e prejuízo na capacidade de concentração, memória e tomada de decisão.

O paradoxo é que muitas empresas acreditam que pressionar mais gera melhores resultados. Na prática, ocorre justamente o contrário. Quando o medo se torna o principal combustível da produtividade, a criatividade diminui, a inovação desaparece e a capacidade de resolver problemas complexos fica comprometida.

Outro aspecto preocupante é que a gestão tóxica nem sempre é percebida imediatamente. Ela costuma se instalar de forma gradual, tornando comportamentos inadequados aparentemente normais.

Reuniões marcadas fora do expediente tornam-se rotina. Mensagens enviadas durante a madrugada passam a ser esperadas. Férias deixam de representar descanso porque o profissional permanece conectado o tempo inteiro. Erros pequenos são tratados como fracassos graves. A cultura do "sempre disponível" passa a ser confundida com comprometimento.

O resultado é uma equipe emocionalmente exausta.

Sinais de alerta que não devem ser normalizados

Alguns sinais merecem atenção tanto por parte dos colaboradores quanto das lideranças:

· sensação constante de estar "pisando em ovos";

· medo excessivo de errar;

· dificuldade para desligar do trabalho mesmo nos momentos de descanso;

· insônia ou sono não reparador;

· irritabilidade crescente;

· perda da motivação;

· dificuldade de concentração;

· aumento de sintomas físicos, como dores musculares, cefaleias, problemas gastrointestinais e palpitações;

· queda na produtividade, apesar do aumento do esforço.

Um dos maiores equívocos é interpretar esses sintomas como falta de resiliência. Em muitos casos, eles representam uma resposta fisiológica esperada diante de um ambiente psicologicamente inseguro.

Da mesma forma, nem toda liderança exigente é uma liderança tóxica. Existem gestores altamente rigorosos, mas que são respeitados porque oferecem previsibilidade, coerência e justiça. Eles cobram resultados, mas também desenvolvem pessoas. Corrigem sem humilhar. Discordam sem desqualificar. Reconhecem conquistas e criam espaço para que os profissionais possam aprender com os erros.

A diferença está na intenção e na forma como a autoridade é exercida. A liderança saudável produz crescimento. A liderança tóxica produz medo. Essa distinção é especialmente importante para executivos e profissionais de alta gestão, que frequentemente ocupam uma posição paradoxal: são pressionados por resultados enquanto precisam proteger a saúde emocional das equipes. O comportamento da liderança tem efeito multiplicador. Gestores emocionalmente regulados tendem a formar equipes mais seguras, colaborativas e produtivas. Já líderes que vivem sob pressão constante e reproduzem esse modelo acabam disseminando uma cultura de adoecimento.

Vale lembrar que organizações não adoecem apenas por excesso de trabalho. Elas adoecem pela ausência de segurança psicológica, pela comunicação baseada no medo, pela falta de reconhecimento e por relações interpessoais deterioradas.

Criar ambientes saudáveis não significa reduzir o nível de exigência. Significa construir uma cultura em que alto desempenho e saúde mental caminhem juntos.

As empresas mais competitivas do futuro provavelmente não serão aquelas que conseguirem extrair o máximo de seus profissionais por meio da pressão permanente. Serão aquelas capazes de criar ambientes em que as pessoas consigam sustentar alta performance sem comprometer a própria saúde.

Porque produtividade sustentável não nasce do medo. Ela nasce da confiança, da clareza e da qualidade das relações humanas dentro das organizações.

Dr. Daniel Sócrates - CRM 134.039 | RQE 28146

Médico psiquiatra especializado em saúde mental no ambiente corporativo e doutor pela UNIFESP.

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