CNBC

CNBCQualcomm lança chip Android desenvolvido para IA em meio à escassez de memória que afeta o mercado de smartphones

UP MarKet Danni Rudz

Relógios de ministros do STF somam R$ 1,28 milhão e colocam marcas deluxo em uma exposição que elas não escolheram

Publicado 18/09/2026 • 19:34 | Atualizado há 4 horas

Foto de Danni Rudz

Danni Rudz

Danni Rudz é comunicadora, criadora de conteúdo, consultora de diversidade corporal e vivências raciais, palestrante, educadora e especialista em moda inclusiva.  Comentarista especialista no Times Brasil - Licenciado CNBC falando ao vivo de Mercado de Luxo e Lifestyle, todas as 6ª feiras. Membro Forbes BLK.

Patek Philippe e Rolex aparecem nos pulsos de integrantes da Corte e abrem uma discussão sobre status, códigos da alta relojoaria e até onde uma marca consegue controlar a própria imagem

Em meio à enorme exposição recente do Supremo Tribunal Federal, um detalhe começou a dividir espaço com as imagens do plenário: os relógios usados pelos ministros.

Um levantamento do portal Coisa de Bilionário, identificou a partir de fotografias públicas relógios de alta relojoaria atribuídos a cinco integrantes da Corte. Somadas, as avaliações chegam a aproximadamente R$ 1,28 milhão.

Os valores são estimativas de mercado. Em alta relojoaria, referência, material, ano de fabricação, estado de conservação, documentação e disponibilidade podem alterar bastante a cotação de uma peça. O levantamento também não informa quanto cada ministro pagou, quando os relógios foram adquiridos ou de que forma chegaram aos atuais proprietários. Não há, na apuração, indicação de irregularidade relacionada à aquisição das peças.

Ainda assim, os números chamam atenção.

Alexandre de Moraes

Relógio: Patek Philippe Nautilus
Valor estimado: R$ 720 mil

É o relógio de maior valor identificado no levantamento. Criado em 1976, o Nautilus completa 50 anos em 2026 e é um dos modelos mais emblemáticos da Patek Philippe. Sua caixa, inspirada em uma vigia de navio, e a pulseira
integrada ajudaram a criar uma estética que se tornou imediatamente reconhecível entre colecionadores.

A Patek Philippe foi fundada em Genebra em 1839 e construiu sua reputação sobre produção limitada, acabamento artesanal e domínio das grandes complicações mecânicas. É uma marca que não precisa ter o mesmo reconhecimento popular de outras gigantes do luxo. Na alta relojoaria, seus códigos são conhecidos por quem acompanha esse mercado.

Gilmar Mendes

Relógio: Rolex Sky-Dweller
Valor estimado: R$ 342 mil

O Sky-Dweller foi lançado em 2012 e está entre os modelos mais complexos da Rolex. Criado para viajantes, permite acompanhar dois fusos horários simultaneamente e possui calendário anual, capaz de diferenciar automaticamente os meses de 30 e 31 dias.

Luiz Fux

Relógio: Rolex Datejust 41
Valor estimado: R$ 94 mil

O Datejust nasceu em 1945 e se tornou uma das linhas mais tradicionais da Rolex. Na versão Datejust 41, o número corresponde ao diâmetro de 41 milímetros da caixa. Dentro da própria coleção existem variações importantes de valor de acordo com material, pulseira, luneta, mostrador, referência e ano de fabricação.

Cristiano Zanin

Relógio: modelo semelhante a um Rolex Datejust
Valor estimado: R$ 67 mil

Neste caso, a identificação não é conclusiva. O levantamento aponta uma peça semelhante a um Rolex Datejust, por isso é importante não atribuir uma referência específica ao relógio apenas a partir das imagens disponíveis.

Edson Fachin

Relógio: Patek Philippe ultrafino
Valor estimado: R$ 60 mil

É a menor avaliação entre as cinco peças identificadas, mas traz uma característica bastante valorizada pela alta relojoaria.
Produzir movimentos muito finos exige acomodar componentes mecânicos em espaços extremamente reduzidos. Nesse caso, parte da sofisticação está justamente naquilo que quase não aparece.

Somados, os cinco relógios chegam a aproximadamente R$ 1,28 milhão em valores estimados de mercado.

Outro dado ajuda a dimensionar esses números. O subsídio mensal de um ministro do STF é de R$ 46.366,19. Apenas como comparação entre valores atuais, os R$ 720 mil estimados para o Nautilus equivalem a cerca de 15,5 meses desse subsídio. A conta não permite concluir quanto foi pago pelo relógio, nem quando ou como ele foi adquirido, mas chama a
atenção.

Quando o objeto também comunica posição

Existe uma dimensão de comportamento importante nessa história. No Brasil, bens de consumo também participam da maneira como sucesso, posição e pertencimento são comunicados socialmente. Em uma sociedade em que muitas vezes ter
funciona como um passaporte para ser, determinados objetos ganham um significado que ultrapassa sua função.

Isso não significa atribuir intenção a quem usa esses relógios. Não sabemos por que cada ministro escolheu determinada peça. A questão aqui está também no olhar de quem observa. Porque um relógio pode comunicar. E alguns comunicam muito. Um Patek Philippe Nautilus pode representar engenharia, design, tradição e colecionismo. Ao mesmo tempo, seu reconhecimento dentro de determinados círculos faz com que também funcione como marcador de acesso e pertencimento.

É justamente aí que a alta relojoaria se diferencia de formas mais evidentes de demonstração de luxo.

O símbolo não precisa ser compreendido por todos. Às vezes, parte de seu valor social está justamente em ser reconhecido pelas pessoas que conhecem aquele código.

Nesse sentido, Patek Philippe e Rolex ocupam lugares interessantes nessa história.

Rolex tem reconhecimento global muito mais amplo. A coroa, determinadas pulseiras, lunetas e formatos de caixa se tornaram elementos visuais conhecidos muito além do universo dos colecionadores. A Patek Philippe opera de maneira diferente. É uma das casas mais importantes da alta relojoaria, mas seu reconhecimento é muito mais concentrado entre consumidores e conhecedores desse mercado.

Usar um objeto que poucos reconhecem também pode ser uma forma de status. É uma lógica antiga do luxo: pertencer a um grupo que conhece aquilo que não precisa ser explicado.

Quando um desses objetos aparece no pulso de alguém que já ocupa uma posição de enorme poder institucional, duas formas de reconhecimento passam a conviver na mesma imagem. Existe o status conferido pelo cargo e existe o status atribuído ao objeto por quem reconhece seu significado.

É essa combinação que ajuda a entender por que um relógio relativamente pequeno consegue despertar tanta curiosidade quando aparece em uma fotografia do plenário.

O luxo não precisa mais de um logotipo enorme para ser reconhecido Nos últimos anos, o mercado passou a falar muito em quiet luxury, mas a alta relojoaria trabalha há décadas com códigos de reconhecimento que não dependem necessariamente de
logotipos evidentes.

O Nautilus é um ótimo exemplo.

A forma da caixa, a integração com a pulseira e suas proporções já são suficientes para que alguém familiarizado com relojoaria reconheça o modelo.

A Rolex construiu outro tipo de linguagem. Desde o início do século passado, consolidou elementos que atravessaram gerações de produtos e fizeram com que muitos de seus relógios fossem identificados antes mesmo de ser possível ler o nome da marca no mostrador.

Isso também mudou a maneira como o luxo aparece nas imagens.

Uma bolsa pode ocupar boa parte de uma fotografia. Um relógio ocupa poucos centímetros do pulso. Ainda assim, uma imagem em alta definição é suficiente para que comunidades de colecionadores, perfis especializados e veículos identifiquem uma referência e comecem a procurar sua cotação.

Foi exatamente esse mecanismo que colocou os relógios dos ministros no noticiário.

E aqui aparece uma questão de negócio particularmente interessante: o que acontece quando toda essa capacidade de reconhecimento coloca uma marca dentro de uma conversa que ela não escolheu?

Até onde uma marca consegue controlar a própria imagem?

Poucas indústrias trabalham imagem com o nível de controle encontrado no luxo. Uma maison decide quem protagoniza suas campanhas, quem são seus embaixadores, em quais ambientes aparece, como seus produtos são apresentados e quais associações deseja construir.

Em determinadas marcas e categorias, o próprio acesso a produtos muito disputados também pode envolver disponibilidade restrita, histórico de relacionamento e critérios comerciais.

Ou seja, existe muito controle antes da compra.

O desafio começa quando o produto passa a circular.

No caso de um relógio, isso é particularmente complexo porque estamos falando de um objeto concebido para atravessar décadas e, em muitos casos, gerações.

Ele pode ser comprado originalmente em uma boutique, mas depois pode ser presenteado, herdado ou negociado no mercado secundário. Pode mudar de país, de contexto e de proprietário sem qualquer participação da fabricante.

É por isso que seria impreciso dizer simplesmente que uma marca de luxo “não escolhe quem usa seus produtos”. Algumas conseguem exercer diferentes níveis de controle sobre distribuição e acesso. O que nenhuma fabricante consegue controlar integralmente é todos os contextos públicos em que uma peça poderá aparecer ao longo de sua existência.

Esse é o ponto central no caso dos relógios identificados nos ministros do STF.

Não há, no levantamento, indicação de relação comercial entre Rolex ou Patek Philippe e os ministros citados.

Portanto, ver um Rolex ou um Patek Philippe no pulso de uma autoridade não significa que aquela maison tenha escolhido essa pessoa como representante, tampouco significa apoio, parceria ou endosso institucional.

E também não sabemos como as duas empresas avaliam especificamente essa exposição.

Sem manifestação das marcas, não é possível afirmar que considerem a associação positiva, negativa ou sequer relevante para suas estratégias.

Mas existe uma diferença fundamental entre ser visto e escolher ser associado.

Uma campanha é uma associação escolhida. Um embaixador é uma associação escolhida.

Uma parceria é uma associação escolhida.

Um relógio que aparece no pulso de seu proprietário durante uma transmissão pública pertence a outra categoria.

A marca está visível, mas não necessariamente está falando.

Nem toda exposição não planejada é necessariamente ruim

O fato de uma marca não ter escolhido determinada exposição também não significa, automaticamente, que ela seja negativa.

Existe aqui uma contradição interessante. Rolex e Patek Philippe aparecem sem qualquer ação das fabricantes, mas seus relógios estão nos pulsos de pessoas que ocupam algumas das posições institucionais mais altas do país.

E isso importa especialmente em uma sociedade em que o consumo pode funcionar como marcador de sucesso e pertencimento.

Para quem olha aquele relógio como símbolo de chegada, acesso ou posição, vê-lo no pulso de alguém que já ocupa um lugar de poder pode reforçar parte do imaginário que cerca o próprio objeto.

Nesse sentido, uma exposição não planejada pode até trabalhar a favor de alguns dos mecanismos que constroem desejo no luxo. Não porque a marca tenha escolhido aquela pessoa ou aquele contexto, mas porque o produto continua sendo visto associado a códigos de poder, acesso e pertencimento.

Isso não significa que Rolex ou Patek Philippe desejem ou aprovem essa exposição, muito menos que ela produza necessariamente resultado comercial. Não temos elementos para fazer nenhuma dessas afirmações.

Mas há uma particularidade importante: uma associação que não foi construída pela marca ainda pode reproduzir códigos de status que ela levou décadas para consolidar.

E talvez esteja justamente aí uma das grandes ambiguidades da exposição involuntária no luxo. A marca perde o controle sobre o contexto, mas o produto pode continuar comunicando exatamente alguns dos significados que o tornaram desejado.

O paradoxo da alta relojoaria

Quanto mais forte uma maison se torna, mais facilmente seus códigos são reconhecidos. E quanto mais reconhecível é um produto, maior a possibilidade de ele comunicar a marca mesmo quando ela não participa daquela comunicação.

É uma consequência da própria força que Rolex e Patek Philippe construíram.

Durante décadas, essas empresas investiram para transformar determinados relógios em objetos reconhecíveis e desejados. O resultado é que hoje uma caixa, uma pulseira ou uma luneta podem ser suficientes para colocar o nome da fabricante em uma conversa pública.

No caso do STF, as câmeras estavam direcionadas aos ministros.

Os relógios ocupavam apenas alguns centímetros da imagem.

Ainda assim, foram reconhecidos, tiveram suas referências investigadas, receberam cotações de mercado e chegaram ao noticiário.

É uma demonstração bastante particular do poder de um código de luxo: a marca consegue construir o significado de um objeto durante décadas. Depois que esse objeto entra no mundo, já não consegue determinar todas as histórias das quais ele fará parte.

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Danni Rudz