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SPFW N61: a moda brasileira sabe criar. Mas sabe fazer negócios?

Publicado 01/11/2026 • 20:30 | Atualizado há 1 hora

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Danni Rudz

Danni Rudz é comunicadora, criadora de conteúdo, consultora de diversidade corporal e vivências raciais, palestrante, educadora e especialista em moda inclusiva.  Comentarista especialista no Times Brasil - Licenciado CNBC falando ao vivo de Mercado de Luxo e Lifestyle, todas as 6ª feiras. Membro Forbes BLK.

Foto: Divulgação

Entre a força do artesanato, a valorização da diversidade e um novo acordo comercial de longo prazo, a São Paulo Fashion Week mostra a potência criativa do Brasil — e expõe uma discussão que a indústria ainda precisa enfrentar.

Cobrir a 61ª edição da São Paulo Fashion Week foi acompanhar uma temporada em que a moda brasileira reafirmou sua capacidade de contar histórias, traduzir identidades e transformar referências culturais em linguagem estética. Mas, para quem observa a moda também pela perspectiva dos negócios, o que aconteceu dentro e fora das passarelas merece uma análise mais ampla.

A SPFW N61, realizada entre 13 e 18 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, apresentou coleções marcadas pelo trabalho manual, pela memória afetiva, pela diversidade e pela valorização de técnicas artesanais. Ao mesmo tempo, encerrou sua programação com um anúncio que pode representar uma mudança importante na estrutura comercial do evento: a venda dos direitos de nome, os chamados naming rights, para a Mantecorp Skincare.

São duas notícias que, à primeira vista, parecem pertencer a universos diferentes. Uma fala de criação; a outra, de investimento. Na realidade, elas deveriam fazer parte da mesma conversa.

Quando a passarela discute o tempo, a identidade e o valor do feito à mão

Entre os desfiles que marcaram esta edição, o Apartamento 03 apresentou uma das reflexões mais interessantes sobre a relação entre moda e envelhecimento.

Com a coleção Atempo, Luiz Claudio Silva colocou a passagem do tempo no centro da narrativa. A presença de mulheres maduras, modelos negras e pessoas trans, incluindo Claudia Liz, Marcelle Bittar, Pathy Dejesus e Erika Hilton, ampliou o debate sobre quem ocupa a passarela e quais corpos são reconhecidos como protagonistas da moda.

A coleção também traduziu esse conceito na construção das peças. Rendas, paetês e tules foram combinados a partir de materiais já existentes no acervo da marca, enquanto referências ao kintsugi, técnica japonesa de reparação de cerâmicas com ouro, reforçaram a ideia de que marcas, transformações e imperfeições podem carregar beleza e valor.

É uma discussão especialmente relevante em uma indústria que historicamente associou desejo à juventude. O envelhecimento não representa o desaparecimento do consumidor de moda. Representa a transformação de suas necessidades, referências e formas de consumir.

A Foz, de Antônio Castro, percorreu outro caminho, igualmente conectado à identidade brasileira. Em Expresso Maravilha, o estilista transformou lembranças do lar nordestino em uma coleção construída a partir de referências a colchas, cortinas, mosquiteiros e capas de sofá.

O patchwork, o macramê e as intervenções manuais ganharam protagonismo em composições que aproximaram a memória doméstica da alfaiataria. Mais do que uma referência regional, o desfile apresentou o trabalho artesanal como linguagem contemporânea.

Já a Ammi, comandada por Amanda Felizberto, estreou na SPFW com Forma Viva, coleção inspirada em elementos da natureza, como corais, ondas e folhas. O crochê, desenvolvido por uma rede de aproximadamente 300 artesãs, deu forma a peças de construção elaborada, enquanto a apresentação de uma linha de calçados bordados à mão sinalizou a ampliação do universo de produtos da marca.

Esse é um aspecto que merece atenção. Quando o trabalho artesanal envolve centenas de profissionais, ele deixa de ser apenas uma característica estética e passa a exigir estrutura de produção, planejamento, organização da cadeia de fornecedores e capacidade de crescimento.

A Dendezeiro levou à passarela referências do hip-hop, do jeans e do streetwear baiano, reforçando a presença da cultura urbana como expressão de identidade. A participação da cantora Normani ampliou a visibilidade de uma marca que dialoga com uma geração interessada em moda, música e pertencimento.

Amir Slama, por sua vez, revisitou elementos que ajudaram a construir sua trajetória na moda praia brasileira. Cores intensas, pedrarias, babados e sensualidade reafirmaram a identidade de uma marca que participa há décadas da construção do repertório nacional de moda balneário.

São propostas diferentes, mas que revelam uma característica comum: a moda brasileira tem repertório próprio. Não precisa buscar legitimidade apenas na reprodução de referências internacionais.

O desafio está em transformar esse repertório em marcas economicamente consistentes.

Mantecorp SPFW: quando a moda passa a integrar uma estratégia de negócios

No encerramento da temporada, veio o anúncio de uma negociação que ultrapassa o universo das passarelas.

A Mantecorp Skincare, marca de dermocosméticos da Hypera Pharma, adquiriu os naming rights da São Paulo Fashion Week por sete anos. A partir de 2027, o evento passará a se chamar Mantecorp SPFW, em um acordo com vigência até 2034.

É importante compreender o significado dessa operação. A Mantecorp não comprou a São Paulo Fashion Week. Adquiriu o direito de associar seu nome à identidade comercial do evento, que permanece sob a gestão da IMM. Os valores da negociação não foram divulgados.

Para a Mantecorp, o movimento representa uma expansão estratégica para além dos ambientes tradicionalmente associados à dermatologia.

A marca já vinha construindo presença na moda, com participação no Rio Fashion Week e ativações nos bastidores de desfiles. Na SPFW N61, atuou como apresentadora oficial, desenvolveu experiências de relacionamento e experimentação de produtos e apresentou uma nova versão do Episol Color FPS 70.

Com o novo contrato, deixa de ser apenas uma marca presente no evento para se tornar parte de sua identidade pública.

E essa diferença é significativa.

A moda oferece à Mantecorp um ambiente de construção de desejo, imagem, influência cultural e relacionamento com consumidores. Para uma empresa de dermocosméticos, significa ampliar a conversa sobre cuidados com a pele e associá-los também à expressão pessoal, ao comportamento e ao estilo de vida.

Para a SPFW, o contrato representa previsibilidade comercial e a possibilidade de planejar iniciativas de longo prazo. Em vez de depender exclusivamente de negociações pontuais a cada temporada, a organização passa a contar com uma parceria plurianual capaz de sustentar novos projetos e experiências.

A dimensão econômica do evento ajuda a compreender o interesse das empresas. Segundo estimativa apresentada por Paulo Borges em 2025 e divulgada pelo Times Brasil, a SPFW movimenta aproximadamente R$ 1,5 bilhão por edição em atividades relacionadas à indústria, aos serviços, à produção e ao turismo. Esse número representa impacto econômico estimado, não faturamento da organização.

Do lado da Hypera, a capacidade de investimento também chama atenção. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou receita líquida de R$ 2,34 bilhões e despesas de marketing de R$ 410,9 milhões. Esses valores dizem respeito ao grupo como um todo, não ao contrato com a SPFW.

A operação também resgata uma conexão histórica. A plataforma que deu origem à São Paulo Fashion Week nasceu nos anos 1990 como Phytoervas Fashion, ligada ao setor de cosméticos. Três décadas depois, a beleza volta a ocupar um lugar central na identidade comercial do evento, agora por meio de um acordo de longo prazo.

A associação faz sentido para os dois negócios. A Mantecorp ganha presença cultural e continuidade de exposição. A SPFW amplia sua capacidade de planejamento e fortalece seu modelo de financiamento.

O anúncio evidencia algo que muitas marcas de moda ainda precisam incorporar: criatividade e posicionamento precisam caminhar com estratégia comercial.

O que falta à moda brasileira?

Durante minha cobertura, em uma entrevista nos bastidores, recebi uma pergunta que considero uma das mais importantes desta temporada:

“O que falta à moda brasileira?”

Minha resposta foi direta: falta visão de negócio. Falta compreender que uma marca de moda precisa ser administrada como uma empresa. E falta investimento.

Não se trata de questionar a capacidade criativa dos nossos estilistas. A SPFW demonstra justamente o contrário. Temos profissionais talentosos, identidade cultural, domínio de técnicas, capacidade de inovação e histórias que merecem alcançar outros mercados.

Mas uma boa coleção não é, por si só, um modelo de negócio.

Uma marca precisa conhecer seus custos, estabelecer margens, organizar sua produção, planejar distribuição, compreender seu consumidor, desenvolver canais de venda, administrar estoques e construir estratégias de crescimento.

Precisa saber quanto custa criar uma peça, quanto custa produzi-la, por quanto deve vendê-la e qual resultado financeiro aquela operação efetivamente entrega.

Também precisa construir uma identidade comercial reconhecível, desenvolver relacionamento com clientes e investidores e compreender que comunicação não substitui gestão.

Existe uma diferença importante entre criar uma marca admirada e construir uma empresa sustentável. O reconhecimento nas passarelas pode abrir portas, mas não garante rentabilidade, continuidade ou capacidade de expansão.

O investimento é fundamental, mas capital sem gestão também pode ser desperdiçado. Antes de buscar recursos, muitas marcas precisam organizar seus processos, profissionalizar suas operações e desenvolver um planejamento que permita transformar investimento em crescimento.

Isso exige competências que vão além da direção criativa: gestão financeira, planejamento estratégico, desenvolvimento comercial, operações, marketing, distribuição e construção de parcerias.

E aqui existe uma oportunidade profissional que considero enorme.

A moda brasileira precisa abrir espaço para gestores capazes de transformar marcas criativas em empresas estruturadas, competitivas e financeiramente saudáveis.

Profissionais de administração, estratégia, finanças, marketing e desenvolvimento de negócios têm um campo de atuação que ainda pode ser muito mais explorado dentro desse mercado.

Não estou defendendo que o criador deixe de criar. Pelo contrário. Uma estrutura empresarial competente pode permitir que o talento criativo se desenvolva com mais liberdade, sem que o estilista precise concentrar sozinho todas as responsabilidades de uma operação.

A criatividade é o que diferencia uma marca. A gestão é o que pode permitir que ela sobreviva, cresça e alcance novos mercados.

E talvez a notícia mais importante desta edição esteja justamente fora da passarela.

Ao negociar seus naming rights até 2034, a São Paulo Fashion Week demonstra que compreendeu a importância de construir relações comerciais de longo prazo, atrair investimento e pensar sua própria sustentabilidade econômica.

O evento já entendeu que, para crescer, precisa tratar sua plataforma como um negócio.

Será que as marcas brasileiras também vão entender?

Porque talento nós temos. Criatividade também. O que não podemos continuar fazendo é tratar gestão, investimento e planejamento como assuntos secundários.

A porta está escancarada para profissionais capazes de profissionalizar marcas de moda e transformá-las em negócios de verdade.

Afinal, não basta criar uma coleção extraordinária. É preciso construir uma empresa capaz de sustentá-la.

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