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Setor de criptomoedas investe mais de US$ 200 milhões nas eleições dos EUA para pressionar por regras favoráveis

Publicado 01/11/2026 • 14:43 | Atualizado há 50 minutos

KEY POINTS

  • Grupos ligados ao setor de criptomoedas formam o maior conjunto de comitês de ação política independentes (super PACs) dedicados a uma única causa na história dos Estados Unidos, segundo a organização Public Citizen.
  • A indústria de ativos digitais está investindo milhões de dólares nas eleições legislativas de 2026 para apoiar candidatos alinhados aos seus interesses, dois anos depois de gastar cerca de US$ 250 milhões nas eleições de 2024.
  • Uma das principais prioridades do setor é conseguir a aprovação de uma legislação abrangente para regulamentar o mercado de ativos digitais, após o projeto conhecido como Clarity Act ter sua tramitação interrompida no Senado.
Imagem do prédio do Congresso dos EUA.

Pexels

O setor de criptomoedas já destinou mais de US$ 200 milhões às eleições legislativas dos Estados Unidos, em uma tentativa de ampliar sua influência sobre as regras para ativos digitais no Congresso.

Grupos ligados ao setor de criptomoedas estão investindo milhões de dólares nas disputas pelo Congresso dos Estados Unidos. Juntos, eles formam o maior conjunto de comitês políticos independentes dedicados a uma única causa já registrado no país.

Segundo levantamento da Public Citizen, as organizações ligadas às criptomoedas lideram os gastos políticos de empresas nas eleições legislativas de 2026, superando setores como apostas on-line e construção de data centers. Ao todo, já destinaram mais de US$ 200 milhões ao atual ciclo eleitoral.

A indústria tenta repetir o resultado de 2024, quando comitês políticos independentes, conhecidos como super PACs, gastaram cerca de US$ 250 milhões para apoiar candidatos favoráveis às criptomoedas e ampliar sua influência no Congresso.

O Fairshake, um dos principais comitês políticos do setor, e seus grupos associados estão apoiando 33 candidatos à Câmara dos Representantes, sendo 19 republicanos e 14 democratas. Os parlamentares são considerados aliados importantes na defesa das prioridades da indústria.

O grupo concentra parte dos recursos em seis deputados que tentam a reeleição, destinando pelo menos US$ 1 milhão em apoio eleitoral a cada um deles.

Entre os republicanos estão Bryan Steil, de Wisconsin, que preside uma subcomissão de ativos digitais na Câmara, French Hill, do Arkansas, e Bill Huizenga, de Michigan. Os dois últimos ocupam, respectivamente, a presidência e a vice-presidência do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara.

Leia também: Trump volta atrás e retoma comícios cancelados a dois dias das eleições nos EUA

Do lado democrata, os deputados Janelle Bynum, do Oregon, Derek Tran, da Califórnia, e Steven Horsford, de Nevada, também recebem pelo menos US$ 1 milhão em apoio do Fairshake.

Coinbase impulsiona financiamento político do setor

A atuação eleitoral do Fairshake é financiada em grande parte por empresas de ativos digitais, como a corretora de criptomoedas Coinbase.

A companhia se consolidou como uma das maiores doadoras empresariais da política americana nos últimos anos. Segundo a organização OpenSecrets, a Coinbase destinou US$ 79 milhões às eleições federais de 2024. O levantamento inclui uma contribuição pessoal de US$ 1 milhão feita pelo CEO Brian Armstrong ao Fairshake, em 2023.

Em 2025, a Coinbase doou outros US$ 25 milhões ao comitê para financiar sua atuação nas eleições legislativas deste ano, segundo o próprio Fairshake.

“O objetivo final é trazer nosso sistema financeiro do século 20 para o século 21”, afirmou Ryan VanGrack, vice-presidente da Coinbase, em entrevista à CNBC.

“Em um momento em que o custo de vida é uma das principais preocupações dos eleitores americanos, precisamos encontrar maneiras de transferir dinheiro a um custo menor, investir com mais facilidade e realizar transações mais rapidamente. E isso, fundamentalmente, não deveria ser motivo de oposição nem para democratas nem para republicanos”, acrescentou.

Apesar do peso financeiro do setor, a indústria enfrentou resistência no Congresso ao tentar aprovar uma legislação considerada fundamental para o mercado de criptomoedas.

Em setembro, o Clarity Act, projeto bipartidário que estabelece regras para o funcionamento do mercado de ativos digitais, teve sua tramitação paralisada no Senado.

Os democratas argumentaram que o texto não oferecia garantias suficientes para impedir que autoridades de alto escalão do governo lucrassem com negócios envolvendo criptomoedas.

Custo de vida e corrupção ganham espaço entre eleitores

O impasse em torno das regras de ética ocorre em um momento de crescente preocupação dos americanos com a corrupção no governo.

Uma pesquisa Gallup, divulgada em setembro, mostrou que 89% dos adultos americanos consideram a corrupção governamental disseminada no país, o maior percentual já registrado pelo instituto.

A mudança nas prioridades dos eleitores também representa um obstáculo para os esforços do setor de criptomoedas no Congresso.

A pesquisa econômica nacional da CNBC, realizada em outubro, mostrou que apenas 20% dos entrevistados avaliam a situação econômica dos Estados Unidos como excelente ou boa, ante 27% em julho.

“A principal preocupação neste momento, de longe, é a crise do custo de vida”, afirmou o deputado democrata Steven Horsford, de Nevada, um dos três candidatos do partido que recebem mais de US$ 1 milhão em apoio do Fairshake.

Horsford apresentou, em maio, um projeto bipartidário para modernizar as regras tributárias federais aplicadas aos ativos digitais. Segundo ele, apesar das preocupações econômicas, as criptomoedas continuam presentes nas discussões de parte dos eleitores.

“O assunto aparece nas reuniões com eleitores e nos encontros comunitários que realizo, especialmente entre pequenos empresários interessados em utilizar ativos digitais e bitcoin”, afirmou.

“Eles estão sendo cada vez mais questionados pelos consumidores sobre a possibilidade de aceitar esses meios de pagamento por produtos e serviços”, acrescentou.

Eleições colocam influência das criptomoedas à prova

As eleições legislativas de novembro serão um teste para a capacidade do setor de criptomoedas de manter sua influência sobre o Congresso americano.

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Uma das principais disputas acompanhadas pela indústria é a eleição para o Senado em Ohio, entre o democrata Sherrod Brown, ex-senador e crítico de longa data das criptomoedas, e o republicano Jon Husted, que defende o setor e atualmente ocupa a cadeira.

Em 2024, o Fairshake gastou cerca de US$ 40 milhões para impedir a reeleição de Brown. Na época, o democrata presidia o Comitê Bancário do Senado, defendia uma regulamentação mais rigorosa das criptomoedas e havia dificultado o avanço de um projeto sobre o funcionamento do mercado de ativos digitais que já tinha sido aprovado pela Câmara.

Neste ciclo eleitoral, o comitê informou à CNBC que já gastou US$ 55 milhões em ações contra Brown.

Uma pesquisa do Instituto Marist, realizada entre 15 e 18 de outubro, mostrou Brown com vantagem de quatro pontos percentuais sobre Husted entre os eleitores que provavelmente comparecerão às urnas. A diferença está dentro da margem de erro de 4,5 pontos percentuais.

“Muitas dessas disputas serão extremamente apertadas”, afirmou Mason Lynaugh, diretor-executivo do Stand With Crypto, grupo de defesa das criptomoedas criado pela Coinbase em 2023.

Neste ciclo eleitoral, a organização declarou apoio a 45 candidatos, sendo 42 à Câmara dos Representantes e três ao Senado.

Segundo Lynaugh, um dos critérios utilizados para escolher os candidatos é o histórico de atuação legislativa de cada um.

“Queremos mostrar que, quando colocamos nosso programa em prática e mobilizamos milhares ou dezenas de milhares de apoiadores do Stand With Crypto nesses distritos, conseguimos garantir que os parlamentares sejam reconhecidos pela comunidade por seu apoio às criptomoedas”, afirmou.

Dinheiro bem gasto?

A Ripple, empresa de ativos digitais e infraestrutura financeira, destinou US$ 63,65 milhões a contribuições políticas federais no último ciclo eleitoral, segundo a OpenSecrets, e voltou a investir milhões de dólares neste ano. De acordo com o Fairshake, a companhia contribuiu com US$ 25 milhões em 2025.

Questionado pela CNBC se o setor havia obtido um bom retorno sobre seus investimentos políticos, Stu Alderoty, diretor jurídico da Ripple, respondeu que sim.

“Quando comparo a situação da indústria há dois anos com a de hoje, diria que o retorno foi muito bom”, afirmou.

Alderoty citou como exemplo o GENIUS Act, legislação que estabeleceu o primeiro marco regulatório federal para as stablecoins lastreadas no dólar, ativos digitais desenvolvidos para manter seu valor vinculado à moeda americana.

A lei foi sancionada pelo presidente Donald Trump em julho de 2025 e se tornou a primeira legislação federal dos Estados Unidos dedicada exclusivamente às criptomoedas.

O executivo também destacou que o setor passou a contar com regras mais claras estabelecidas pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) e pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC).

Alderoty mencionou ainda avanços junto ao Office of the Comptroller of the Currency (OCC), órgão responsável pela supervisão de bancos nacionais americanos.

Nesta semana, a Ripple recebeu aprovação definitiva do OCC para criar o Ripple National Trust Bank, uma instituição fiduciária nacional sujeita à supervisão federal.

Apesar desses avanços, as orientações emitidas pelos órgãos reguladores não substituem a necessidade de uma legislação aprovada pelo Congresso. E o prazo para aprovar novas regras para o setor pode estar se esgotando.

Andrew Cuomo, ex-governador de Nova York e atual integrante do conselho da corretora de criptomoedas OKX, afirmou à CNBC que será difícil aprovar novas leis caso haja uma mudança no controle do Congresso em janeiro.

“Teremos um Congresso democrata fiscalizando o governo Trump, com reguladores tomando decisões sob o escrutínio de um Congresso hostil. Essa não é uma situação favorável, porque o Legislativo estará em confronto com o governo”, avaliou.

Para o deputado Steven Horsford, de Nevada, é fundamental aproveitar o tempo que resta.

“Todos os envolvidos precisam continuar participando das negociações e defendendo a necessidade de uma legislação”, afirmou.

Se o Clarity Act não avançar até o fim do ano, o Congresso terá de recomeçar a elaboração de um projeto para regulamentar o mercado de ativos digitais.

Os comitês políticos ligados às criptomoedas esperam que os investimentos eleitorais continuem influenciando a composição do Congresso e os parlamentares que participarão da próxima tentativa de aprovar a legislação.

“Independentemente de quem seja eleito para o Congresso, continuaremos avançando em direção a regras mais claras para o setor”, afirmou Ryan VanGrack, vice-presidente da Coinbase e ex-assessor sênior da SEC.

“A dúvida é se conseguiremos concluir todo o processo, mas não há dúvida de que continuaremos avançando na definição de regras mais claras para as criptomoedas”, acrescentou.

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