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Planejar não basta: a liderança precisa sustentar a complexidade
Publicado 29/06/2026 • 12:00 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 29/06/2026 • 12:00 | Atualizado há 3 horas
Durante muito tempo, as organizações acreditaram que transformar fosse, sobretudo, uma questão de planejamento. Bastava desenhar uma boa estratégia, definir metas, criar indicadores, distribuir responsabilidades e acompanhar a execução. Esse modelo funcionou em ambientes mais estáveis e previsíveis, mas tornou-se insuficiente para o mundo atual.
Hoje, o problema central das empresas não é a falta de planos — eles existem em abundância: programas de eficiência, projetos digitais, agendas de crescimento, comitês, cronogramas, OKRs e apresentações impecáveis. O verdadeiro problema está em outro lugar: na distância entre compreender a mudança e sustentar, na prática, tudo aquilo que ela exige.
Essa distância é uma das zonas mais perigosas da vida organizacional contemporânea: a liderança entende a estratégia, mas nem sempre a encarna; concorda na reunião, mas hesita na execução; defende colaboração, mas continua operando em silos; fala em inovação, mas pune o erro. É nesse ponto que muitas transformações fracassam — não por falta de inteligência ou metodologia, mas por falta de maturidade emocional, grupal e sistêmica para sustentar aquilo que a razão já compreendeu. A próxima fronteira da liderança não será apenas estratégica: será também cognitiva, emocional e coletiva.
Um plano pode ser tecnicamente correto e, ainda assim, fracassar: impecável na lógica racional, mas inviável no campo humano; capaz de definir prioridades claras, mas incapaz de prever medos não nomeados, rivalidades entre áreas, disputas de poder e pactos de não agressão.
Toda transformação tem duas dimensões. A primeira é visível: metas, processos, indicadores, governança, fóruns decisórios. A segunda é invisível: ansiedades, resistências, alianças informais, medo de exposição, rivalidades históricas, ressentimentos acumulados. As organizações costumam gerenciar bem a primeira — criam painéis, rituais, relatórios. A segunda, porém, quase sempre fica sem linguagem, e aquilo que fica sem linguagem não desaparece: passa a agir pelas sombras.
Pensar de forma complexa é abandonar a ilusão de que todo problema organizacional tem uma causa simples, um culpado claro e uma solução imediata. Sistemas humanos são atravessados por interdependências e efeitos não previstos: uma decisão no comercial afeta a operação; um corte de custo aparentemente racional pode destruir capacidade futura; uma liderança centralizadora pode parecer eficiente no curto prazo, mas impedir o amadurecimento do time. O pensamento complexo exige que o líder enxergue relações,
não apenas eventos; padrões, não apenas sintomas — mas complexidade não pode ser apenas contemplação, precisa gerar ação. O líder complexo não é aquele que apenas interpreta melhor; é aquele que intervém melhor.
É nesse território que entra a arquitetura psicodinâmica da vida organizacional: a leitura das forças racionais, emocionais, grupais e inconscientes que sustentam — ou sabotam — a execução. Toda empresa tem uma arquitetura formal, desenhada em organogramas e metas, mas também possui uma arquitetura invisível, composta por vínculos, medos, pactos, defesas e histórias não elaboradas. Ignorar essa segunda arquitetura é um erro estratégico, porque a execução não acontece apenas no PowerPoint — ela acontece dentro de sistemas humanos atravessados por poder, desejo, medo e pertencimento.
Uma empresa pode aprovar um plano agressivo de crescimento, criar indicadores impecáveis e, ainda assim, travar: o comercial promete além da capacidade operacional, a operação se protege culpando o mercado, o financeiro se transforma no guardião do medo, o comitê executivo evita o conflito. Todos conhecem o plano, mas ninguém quer tocar nas tensões que ele revelou. Nesse caso, o problema não é técnico — é sistêmico. O plano parece racional; o sistema que deveria executá-lo está emocionalmente dividido.
A liderança madura aprende a ler os sintomas da organização — atrasos, retrabalho, silêncio nas reuniões, concordância artificial — não como falhas individuais isoladas, mas como mensagens do sistema. Uma equipe apática pode estar se protegendo de mudanças percebidas como ameaçadoras; uma área resistente pode estar defendendo uma identidade construída ao longo de anos. Interpretar o invisível, porém, é apenas o primeiro movimento. O segundo é intervir: se há medo de exposição, criar rituais seguros de fala; se há silos, redesenhar fóruns de decisão; se há pactos silenciosos, nomear tensões com cuidado e firmeza.
Olhar apenas para o passado não basta. O feedback é necessário, mas limitado: mostra o que aconteceu, onde houve falha — mas, sozinho, pode aprisionar a organização em uma lógica de correção retrospectiva. O verdadeiro desenvolvimento da liderança precisa avançar para o feedforward: a capacidade de transformar reflexão em ação futura, convertendo erros e tensões em novos comportamentos de gestão. Transformar não é apenas entender o que deu errado — é sair da pergunta “por que isso aconteceu?” e entrar em outra, mais comprometida: “que nova prática precisa nascer a partir disso?”
O desenvolvimento de lideranças também precisa mudar. O líder não desenvolve pensamento complexo ouvindo uma palestra sobre complexidade; desenvolve essa capacidade quando aplica conceitos a dilemas reais, confronta pontos cegos e transforma aprendizado em ação. Por isso, os programas mais potentes estão migrando de treinamentos tradicionais para laboratórios de aprendizagem aplicada, onde o líder
trabalha sobre situações concretas: uma decisão ambígua, um conflito evitado, uma coalizão que precisa ser construída.
Nenhuma transformação avança sem conversas difíceis. Muitos líderes foram treinados para preservar a harmonia e evitar tensão, mas há uma diferença profunda entre harmonia e maturidade: a primeira evita o conflito; a segunda o transforma em aprendizagem. Organizações adultas não são aquelas onde todos concordam — são aquelas onde divergências podem aparecer sem destruir vínculos, onde o erro pode ser examinado sem humilhação. Quando uma empresa evita conversas difíceis, não elimina conflitos, apenas os desloca: eles reaparecem em atrasos, ironias, passividade e decisões que nunca se consolidam. Desenvolver liderança hoje é desenvolver coragem relacional — nomear o que acontece, discordar com respeito, escutar sem se defender.
Outro desafio é mobilizar pessoas sobre as quais não se tem autoridade direta. As organizações estão mais matriciais e interdependentes: a execução depende menos da hierarquia e mais da influência, da confiança e da construção de sentido compartilhado. Em ambientes complexos, ninguém transforma sozinho — é preciso mapear redes de poder formal e informal, antecipar resistências e construir coalizões. Influenciar, no sentido maduro, não é manipular; é ajudar o sistema a ver aquilo que, isolado, ele não conseguiria ver.
Toda transformação começa por uma convergência intelectual: as pessoas entendem a direção e reconhecem a necessidade. Mas isso ainda é pouco. A mudança real exige convergência visceral — compromisso emocional com a execução, disposição para sustentar o desconforto e coragem para revisar padrões. A convergência intelectual diz “eu entendi”; a convergência visceral diz “eu estou implicado”. A primeira produz concordância; a segunda produz movimento.
A liderança que o mundo exige não é apenas mais rápida — é mais reflexiva; não é apenas orientada a dados — é mais capaz de interpretar aquilo que os dados não mostram; não é apenas mais digital — é mais humana no sentido profundo, capaz de lidar com medo, desejo, poder e pertencimento. No passado, bastava planejar, controlar e cobrar. Hoje, líderes precisam sustentar paradoxos, mobilizar sem autoridade formal e transformar tensão em aprendizagem — e, acima de tudo, converter aprendizagem em futuro, usando o feedback como matéria-prima, não como prisão.
Isso não é subjetividade excessiva. É pragmatismo avançado: toda organização que ignora sua dimensão invisível acaba sendo governada por ela. A era dos planos perfeitos está terminando. A próxima vantagem competitiva não estará apenas em quem planeja melhor, mas em quem consegue sustentar, emocional e coletivamente, a complexidade que todo grande plano desperta.
Leia outras colunas de Joaquim Santini.
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