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CNBCEmpresas de IA deixam de focar em modelos maiores e passam para sistemas mais baratos e inteligentes

Vida nas organizações Joaquim Santini

A nova desigualdade não será entre quem usa IA e quem não usa 

Publicado 11/07/2026 • 11:30 | Atualizado há 2 horas

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Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

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À medida que o acesso à inteligência artificial se dissemina, a vantagem deixa de estar na ferramenta. Estará na capacidade humana de orientar, questionar e transformar algoritmos em melhores decisões. 

Durante os últimos anos, repetimos que o mercado de trabalho se dividiria entre quem sabe usar inteligência artificial e quem ficaria para trás. Essa previsão está ficando ultrapassada antes mesmo de se confirmar. 

Em pouco tempo, recorrer à IA será tão habitual quanto abrir uma planilha ou consultar um mecanismo de busca. As ferramentas estarão incorporadas aos sistemas empresariais e aos próprios processos de trabalho. A simples utilização deixará de representar vantagem competitiva. 

A nova desigualdade será outra. De um lado estarão os profissionais que usarão a IA apenas para produzir mais rapidamente. Do outro, aqueles que aprenderão a combinar experiência, imaginação e julgamento humano com a velocidade, a memória e o poder de processamento dos algoritmos. Os primeiros ganharão eficiência. Os segundos ampliarão sua capacidade de compreender problemas complexos, formular hipóteses e decidir melhor.

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A verdadeira divisão não será entre humanos e máquinas, mas entre quem aprende a construir uma inteligência assistida e quem se limita a operar uma ferramenta. O futuro pertence à equação humano mais algoritmo — não a nenhum dos dois isoladamente. 

Ampliação, não substituição

O debate sobre o futuro do trabalho ainda está dominado pela lógica da substituição. Perguntamos quais profissões desaparecerão e quantas tarefas serão automatizadas. São questões legítimas, mas insuficientes. 

A pergunta mais relevante é outra: o que as pessoas passam a ser capazes de fazer quando trabalham com uma inteligência computacional que complementa suas próprias capacidades? 

Um executivo pode confrontar dezenas de cenários antes de decidir. Um médico pode cruzar mais variáveis clínicas antes de formular uma hipótese. Em nenhum dos dois casos o algoritmo precisa eliminar o profissional — ele amplia seu campo de visão e sua capacidade de experimentar antes de agir. 

O Work Trend Index 2026, da Microsoft, descreve o surgimento de uma lógica que é a passagem da automação para a ampliação cognitiva, ou seja, à medida que os agentes assumem partes da execução, as pessoas ganham mais espaço para definir objetivos, orientar o trabalho, interpretar resultados e responder pelas decisões. A questão deixa de ser quanto trabalho uma máquina consegue realizar e passa a ser quanto da capacidade humana ela consegue expandir. 

O operador e o profissional aumentado 

O operador pede uma resposta e aceita a primeira solução. O profissional aumentado usa o algoritmo para testar premissas, confrontar perspectivas e perguntar o que pode ter sido ignorado — inclusive em suas próprias convicções. 

Essa diferença não nasce da habilidade técnica de operar a ferramenta, mas da qualidade da relação que o profissional estabelece com ela. O ponto decisivo não é saber comandar o algoritmo, e sim preservar aquilo que nenhuma máquina pode assumir em seu lugar: a capacidade de atribuir sentido, compreender o contexto e responder pelas consequências de uma escolha. 

Um algoritmo pode gerar cem alternativas estratégicas em segundos, mas não conhece os pactos informais entre líderes de uma organização, os conflitos de poder ou os efeitos humanos de uma decisão. Um executivo, por outro lado, pode conhecer profundamente sua empresa, mas não consegue processar sozinho todo o volume de dados necessário para entender o mercado. Separados, humano e algoritmo têm limitações distintas. Combinados conscientemente, produzem uma inteligência que nenhum dos dois alcançaria isoladamente. 

O profissional aumentado não transfere seu pensamento para a máquina. Usa a máquina para pensar mais longe.

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Está surgindo, a partir dessa diferença, uma nova elite cognitiva — não formada por quem tem mais diplomas ou domina mais ferramentas, mas por quem sabe organizar essa colaboração: definir o problema antes de pedir a solução, fornecer contexto, questionar conclusões e transformar informação em discernimento. Alguns profissionais produzirão mais, mas permanecerão dependentes da máquina para explicar o que fizeram. Outros usarão a tecnologia para assumir problemas mais complexos e elevar a qualidade de sua contribuição. Essa será a nova desigualdade cognitiva: a distância entre quem apenas recebe respostas e quem constrói conhecimento com elas. 

Distribuir ferramentas não é transformar o trabalho 

Boa parte das organizações ainda trata a implantação da IA como um projeto tecnológico: compra licenças, oferece treinamento de comandos e mede quantos funcionários acessaram os sistemas. É necessário, mas está longe de ser suficiente. O erro mais profundo é inserir algoritmos em processos antigos e imaginar que isso representa transformação — automatizar um processo ruim não cria inteligência, apenas permite que a organização erre mais depressa. 

Dar uma ferramenta poderosa a alguém não o torna automaticamente mais inteligente. A tecnologia amplifica capacidades, mas também pode amplificar superficialidade e decisões ruins: um algoritmo produz em segundos uma argumentação aparentemente consistente, o que não significa que suas premissas estejam corretas. A fluência da resposta não pode ser confundida com a qualidade do raciocínio — e a responsabilidade pela decisão não pode ser terceirizada. Nenhum líder deveria justificar uma escolha dizendo apenas que "o sistema recomendou". Quanto mais poderosa a tecnologia, maior precisa ser o julgamento humano que a dirige. 

O desafio, portanto, não é apenas ensinar pessoas a usar ferramentas. É desenvolver a capacidade de orquestrar inteligências: decidir o que deve ser feito pelo humano, o que pode ser delegado ao algoritmo e como os dois colaboram para produzir um resultado superior. 

A inteligência do futuro será híbrida 

Não precisamos escolher entre inteligência humana e inteligência artificial — essa é uma falsa oposição. A inteligência humana oferece contexto vivido, intenção e discernimento moral. A inteligência artificial oferece velocidade, memória e capacidade de encontrar padrões em volumes de informação que nenhum ser humano processaria sozinho. A potência está na combinação. 

À medida que os algoritmos se tornam mais acessíveis, a vantagem dependerá menos da ferramenta e mais da qualidade do humano que a orienta, questiona e transforma suas respostas em decisões. O profissional mais valioso não será aquele que resistir à inteligência artificial, nem aquele que entregar a ela toda a responsabilidade de pensar. Será aquele que souber utilizá-la como extensão de sua capacidade de compreender, criar e agir — sem renunciar à autoria das próprias decisões. 

A nova desigualdade não será entre quem usa IA e quem não usa. Será entre quem apenas opera algoritmos e quem constrói, com eles, uma inteligência maior do que a sua própria. 

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