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Raphael Coraccini

Apostas significam uma pandemia 2.0 para a já sofrida educação no Brasil

Publicado 29/09/2026 • 20:35 | Atualizado há 2 horas

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

Bets

Agência Brasil

As bets aparecem como uma pandemia 2.0 no que diz respeito ao impacto no futuro dos jovens brasileiros. Se durante as ondas de coronavírus muitas crianças e adolescentes ficaram sem lazer e viram seu desempenho escolar cair, agora, com as bets, essa geração teve que postergar a entrada em cursos superiores porque estavam enroladas com bets.

Quase 34% dos jovens em 2025 deixaram de entrar na faculdade por conta do comprometimento da renda com casas de aposta. Os dados são do estudo “O Impacto das Bets na Educação Superior – Onda 2”, feito pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES) em parceria com a Educa Insights.

Outros estudos mostraram ainda como a ludopatia (vício em jogos) atingiu o orçamento de toda a família, começando por itens que não são considerados de primeira necessidade, o que inclui lazer e educação. Depois, até mesmo os itens básicos passaram a ser deixados de lado por quem teve problemas decorrentes do vício em jogos.

Ainda segundo a AMBES, 34,4%, disseram que precisariam interromper os gastos com apostas para conseguir iniciar um curso superior no primeiro semestre de 2026. O prazo já esgotou, mas, agora, se o Congresso ou a Justiça não derrubarem a decisão do governo federal, existe a possibilidade de uma aceleração no número de matrículas em faculdades já para o período letivo do primeiro semestre de 2027.

Pandemia 2.0 na educação

O fechamento durante a pandemia obrigou que as aulas presenciais fossem suspensas e substituídas por aulas online. Acontece que, por falta de acesso a bons equipamentos, internet e até espaço em casa, um a cada cinco alunos da rede pública ficou sem aula por pelo menos boa parte da pandemia. Os dados foram apresentados em 2021 pelo Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).

Por conta disso, os jovens em idade escolar sofrem até hoje o impacto da crise sanitária. O IBGE avalia que, ainda hoje, a defasagem nos estudos atinge 3,9% dos estudantes do ensino fundamental, entre 6 e 14 anos. Isso representa 1 milhão de estudantes e cerca de 250 mil crianças e adolescentes a mais em defasagem escolar do que o visto antes da pandemia, em 2019. Os dados, divulgados em junho de 2026, são da Pnad Contínua.

Com a chegada das bets, o acesso a celulares e internet significou o exato oposto da pandemia. Quem tinha acesso, teve mais chances de se dar mal por conta da facilidade — na palma da mão — de jogar (e, via de regra, perder)z

Esses 34% de jovens sem conseguir acessar o ensino superior pelo comprometimento do orçamento com apostas configura um desdobramento da tragédia educacional brasileira, que sobrepõe os já tradicionais problemas à defasagem educacional causada pela pandemia. Então, como se os problemas fosse poucos, apareceram as casas de aposta como mais uma frente de ataque à educação no Brasil.

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