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Raphael Coraccini

Raphael Coraccini: com Banco Central, STF e eleição, mercado tenta precificar clímax do House of Cards brasileiro 

Publicado 03/09/2026 • 17:59 | Atualizado há 14 minutos

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

Banco Master, Supremo Tribunal Federal, Congresso, eleição presidencial, juros, Banco Central e uma disputa cada vez mais acirrada pelo poder. Se alguém apresentasse esse roteiro como uma nova temporada de uma série política, provavelmente pareceria exagerado. No Brasil, porém, é o noticiário.

O país chega a mais um final de temporada de House of Cards — só que desta vez a ficção ficou para trás. A série da Netflix, lançada em 2013 e que retratava os jogos de poder de Washington, tornou-se uma referência para explicar a política brasileira durante a crise do governo Dilma Rousseff.

Agora, o Brasil chega a outra reta final de temporada, com um dos roteiros mais movimentados dos últimos anos. No centro da trama está o caso Banco Master e a teia de relações que as investigações vêm revelando em torno de Daniel Vorcaro, ex-dono da instituição. E, apesar de todo o tumulto, os mercados parecem ignorar boa parte da crise.

A Bolsa voltou à casa dos 185 mil pontos, revertendo a queda das semanas anteriores e tentando chegar aos 200 mil. No câmbio, o movimento é ainda mais curioso: o real se valoriza mesmo enquanto o DXY aponta fortalecimento do dólar ante outras moedas. Ou seja, o dólar pode estar sustentando sua força no mundo, mas perde valor diante do real.

É um comportamento que contraria, ao menos por enquanto, uma das máximas do mercado: a de que o capital procura estabilidade. O Brasil vive uma crescente instabilidade política e institucional, com investigações envolvendo figuras relevantes da República, mas os ativos não parecem precificar esse risco na mesma proporção.

O núcleo Master é talvez o mais próximo de uma trama de House of Cards. As investigações trouxeram à tona relações de Vorcaro com personagens importantes da República e levantaram suspeitas sobre o uso dessas conexões para influenciar autoridades e o andamento das apurações. Entre os nomes que aparecem nesse enredo estão os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, André Mendonça e Dias Toffoli.

Toffoli foi um dos primeiros ministros do Supremo a aparecer de maneira mais evidente nas revelações sobre Vorcaro. O caso levou a sua saída da relatoria e à redistribuição para Mendonça. Mais recentemente, mensagens e documentos analisados pela Polícia Federal acrescentaram novos elementos à relação entre Vorcaro e Moraes. Já Mendonça aparece não apenas por conduzir o caso no Supremo, mas também por contatos com o ex-banqueiro que vieram à tona durante as investigações.

Há outro núcleo importante no Congresso Nacional. Vorcaro tem relações umbilicais com a oposição. E a mais recente revelação envolve Nikolas Ferreira, um dos principais líderes da oposição na Câmara. Áudios e mensagens vazados indicam uma relação entre o deputado e Vorcaro, incluindo possível uso de aeronaves do banqueiro, em mais um capítulo que ajuda a dimensionar o alcance de suas conexões em Brasília.

Flávio encosta em Lula

O enredo ganhou ainda um núcleo eleitoral. Flávio Bolsonaro, principal desafiante de Luiz Inácio Lula da Silva, começa a encostar no presidente. Pesquisas de intenção de voto já mostram os dois em empate técnico num eventual segundo turno.

Para a Faria Lima, isso recoloca no centro da discussão a chamada “alternância de poder” — o eufemismo usado pelo mercado para uma eventual derrota de Lula. Durante boa parte do governo, esse cenário parecia distante. Agora, volta a entrar na conta dos investidores e a influenciar as expectativas para os ativos brasileiros.

Juros escorchantes e crises empresariais 

Mas a eleição é apenas uma das histórias paralelas dessa temporada. Há também a crise dos juros e do crédito. O Brasil convive com uma política monetária restritiva que começa a deixar marcas cada vez mais visíveis na economia real: recuperações judiciais, dificuldades de refinanciamento e aumento do custo da dívida.

O varejo é um dos exemplos. A Casas Bahia, que recorreu à recuperação judicial, ilustra o problema de empresas que precisam conviver por longos períodos com crédito caro. O mesmo raciocínio começa a preocupar o mercado imobiliário, com representantes do setor de fundos alertando para os efeitos dos juros elevados sobre empreendimentos e fundos de tijolo e de papel.

E há um personagem ainda pouco explorado nessa história: o executivo. A crise levanta uma pergunta incômoda sobre a preparação das grandes empresas para um mundo de juros mais altos. Era evidente que o dinheiro barato não duraria para sempre. Ainda assim, muitas companhias chegaram à mudança de ciclo excessivamente alavancadas. O contraste fica maior quando se observa a remuneração de determinados executivos enquanto as empresas enfrentavam deterioração financeira.

Galípolo: bom moço ou antogonista?

Outro núcleo é o Banco Central. Gabriel Galípolo chegou à presidência da instituição depois de ter sido secretário-executivo de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda. A expectativa de que sua proximidade com o governo representasse uma ponte entre a política econômica e o BC deu lugar a uma situação curiosa: Galípolo conduz uma política de juros que agrada ao mercado, mas desagrada à base do próprio governo.

O economista vindo da PUC de São Paulo  e identificado com o campo progressista assumiu uma postura considerada dura na condução da política monetária. Para o mercado, isso reforça a independência do BC. Para o governo, significa conviver com juros elevados que pressionam o crédito, o investimento, as empresas e, consequentemente, a popularidade.

O efeito chega também à indústria. A reindustrialização era uma das grandes promessas econômicas do governo Lula 3, mas ainda não produziu uma trajetória de crescimento capaz de transformar a promessa em realidade. O capital caro e a demanda incerta continuam dificultando o investimento produtivo.

É nesse ponto que os diferentes núcleos da série se encontram. A política afeta a economia; a economia afeta a popularidade; a popularidade altera a eleição; a eleição muda as expectativas do mercado; os juros afetam as empresas; e as empresas afetam emprego e investimento.

É a velha engrenagem de House of Cards, só que com Supremo Tribunal Federal, Banco Central, Congresso, Faria Lima e corporações brasileiras no centro da trama.

Setembro está apenas começando. E, se esta é mesmo a reta final da temporada, ainda há tempo para novos personagens aparecerem, alianças mudarem de lado e alguma reviravolta alterar completamente o roteiro.

No Brasil, afinal, a série nunca termina exatamente quando parece que vai terminar. Aguardamos o próximo plot twist.

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