Binance estima impacto de aproximadamente US$ 6,3 bilhões, suspendeu temporariamente os saques e prometeu absorver integralmente as perdas.
Bitcoin chegou a cair cerca de 5%, enquanto US$ 1,6 bilhão em posições futuras foram liquidadas em 24 horas.
Inteligência artificial tornou golpes contra funcionários mais sofisticados.
O maior ataque hacker já registrado no mercado de criptomoedas derrubou preços, provocou uma onda de liquidações e aumentou a aversão ao risco nesta sexta-feira (30). A invasão à Binance teve impacto estimado em US$ 6,3 bilhões e atingiu a maior corretora de criptoativos do mundo.
O bitcoin chegou a cair cerca de 5%, para a região de US$ 77 mil. No mercado de derivativos, mais de US$ 1,6 bilhão em contratos futuros foram liquidados em 24 horas, dos quais aproximadamente US$ 1,35 bilhão eram posições que apostavam na valorização dos criptoativos.
A Binance confirmou que carteiras quentes foram comprometidas na noite de quinta-feira (29).
Ataque espalha aversão ao risco
No mercado de cripto, a pressão não ficou restrita ao bitcoin. O ether também recuou, enquanto ações de empresas ligadas ao mercado de ativos digitais, como Coinbase e Strategy, caíram nos Estados Unidos.
A reação mais forte apareceu entre os investidores alavancados. As liquidações de US$ 1,6 bilhão mostram que a queda dos preços obrigou plataformas a encerrar automaticamente posições que já não tinham garantias suficientes.
Esse mecanismo pode aumentar a pressão vendedora. Quando uma posição comprada é liquidada, novas ordens de venda entram no mercado e podem aprofundar uma queda que já estava em curso.
Analistas também passaram a acompanhar o impacto da suspensão dos saques sobre a liquidez. Uma paralisação prolongada em uma corretora do tamanho da Binance pode reduzir o volume de recursos disponível para negociação, aumentar a diferença entre preços de compra e venda e limitar o uso de alavancagem.
Por que o bitcoin não caiu mais?
A reação relativamente contida do bitcoin diante de um roubo de mais de US$ 6 bilhões também chamou a atenção.
Um dos motivos é a diferença entre uma invasão à infraestrutura de uma corretora e uma falha na rede da própria criptomoeda.
Até o momento, a Binance afirma não ter encontrado evidências de vazamento das chaves privadas de suas carteiras. A investigação inicial apontou o comprometimento do computador de um engenheiro de DevOps, que teria permitido acesso a sistemas internos e o envio de ordens de saque não autorizadas. A companhia informou posteriormente que identificou outros pontos de invasão e mantém a investigação em andamento.
Isso significa que, pelas informações disponíveis até agora, o ataque não representa uma quebra da criptografia do bitcoin ou das blockchains utilizadas nas transações.
Binance separa US$ 6,34 bilhões para cobrir perdas
A Binance informou nesta sexta-feira que separou mais de US$ 6,34 bilhões em recursos próprios para enfrentar o prejuízo.
Desse total, aproximadamente US$ 5 bilhões já estavam nos mesmos tipos de ativos atingidos pelo ataque, o equivalente a cerca de 80% do valor afetado. A empresa afirmou que está comprando os ativos restantes no mercado e em operações de balcão.
A corretora prometeu que o prejuízo ficará com a companhia, e não com os clientes. Os recursos virão do fundo de proteção aos usuários, o SAFU, e do caixa próprio.
Cerca de US$ 3 bilhões dos ativos relacionados ao ataque já foram congelados com a colaboração de emissores, empresas de inteligência em blockchain, autoridades e outras companhias do setor.
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O bloqueio impede a movimentação de parte desses recursos, mas não significa que eles já tenham sido recuperados. A devolução dos valores pode depender de investigações e procedimentos legais e levar meses ou anos.
Os saques continuam temporariamente suspensos enquanto a Binance realiza verificações e reforça sua infraestrutura. Os depósitos e demais serviços não afetados seguem funcionando.
No Brasil, a empresa afirmou que os recursos dos clientes permanecem seguros e são mantidos em carteiras frias, desconectadas da internet, além de seguir as regras de segregação de ativos estabelecidas pelo Banco Central.
IA torna ataques mais sofisticados
Rodrigo Batista, CEO da Digitra e do Token DGTA, avalia que o avanço da inteligência artificial tornou mais sofisticadas as estratégias usadas por criminosos para atingir funcionários de corretoras e instituições financeiras.
“A gente está vendo muitos ataques de hackers acontecendo com plataformas como a Binance e várias plataformas financeiras e eu acredito que isso deve continuar acontecendo pelo menos pelo próximo ano”, afirmou em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Um dos principais riscos está na chamada engenharia social.
Em vez de tentar romper diretamente a criptografia de uma blockchain, os criminosos buscam convencer funcionários a instalar programas, abrir arquivos ou entregar acessos que permitam a entrada nos sistemas da empresa.
Ferramentas de inteligência artificial ampliaram a capacidade de criar falsas propostas de emprego, entrevistas, reuniões e abordagens comerciais aparentemente legítimas.
Segundo ele, esse tipo de fraude já existia antes da popularização da IA, mas ficou mais sofisticado.
Para Batista, o avanço dessas ferramentas obrigará as empresas do setor a reforçar seus protocolos.
“A Binance, como todas as instituições, vai ter que rever os sistemas de segurança à luz do que a IA está permitindo agora”, afirmou.
Binance consegue absorver o prejuízo?
O tamanho do ataque também colocou a situação financeira da Binance no radar do mercado.
Batista acredita que a corretora tem capacidade para cumprir a promessa de absorver as perdas.
“Acredito, sim. A Binance tem uma estrutura financeira muito robusta”, afirmou.
Segundo o executivo, a geração de caixa da companhia e a existência de reservas destinadas a situações envolvendo perdas de clientes dão à Binance capacidade para enfrentar o episódio.
“Ela é uma geradora de caixa bem significativa desde a fundação. Então, acredito que eles tenham esses recursos”, disse.
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