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Preço do cacau cai 34% em um ano e mercado se pergunta por que os chocolates seguem tão caros

Publicado 26/07/2026 • 11:30 | Atualizado há 58 minutos

KEY POINTS

  • Cacau caiu 34% em um ano após bater quase US$ 12 mil a tonelada no fim de 2024.
  • Lindt, Barry Callebaut e Nestlé sentiram queda nas vendas com preços mais altos do chocolate.
  • Marketing de influenciadores e produtos virais como o chocolate estilo Dubai puxam a retomada.
Cacau

PxHere

A Câmara dos Deputados aprovou, na noite da terça-feira (17) um projeto de lei (PL) que define um porcentual mínimo de cacau nos chocolates.

O preço do cacau começa a recuar depois de uma disparada sem precedentes, mas isso ainda não significa chocolate mais barato nas prateleiras. As maiores fabricantes do mundo recorrem a produtos inspirados em redes sociais e outras estratégias para reconquistar consumidores.

Nos últimos dois anos, o cacau bateu marcas recordes, impulsionado por condições climáticas adversas e safras ruins que elevaram o custo do chocolate e esfriaram o consumo. Agora, porém, o cenário começa a mudar.

Os contratos futuros de cacau foram negociados pela última vez a US$ 5.327 por tonelada, queda de 34% em relação ao ano anterior. A commodity chegou a quase US$ 12 mil por tonelada no fim de 2024. Historicamente, ao longo das últimas duas décadas, o preço costumava oscilar entre US$ 2.000 e US$ 3.000.

Leia também: El Niño mantém mercado de cacau em alerta mesmo com previsão de superávit

Preço do cacau recua, mas resultados ainda sofrem

As suíças Barry Callebaut, Lindt e Nestlé apontaram o cacau em alta como fator de pressão sobre os resultados. Assim, a Lindt informou nesta segunda-feira que reajustes de preço de 11,8% em todo o grupo levaram a uma queda de 7,5% no volume de vendas de chocolate, com menos consumidores comprando o produto no primeiro semestre do ano.

Segundo o CEO do grupo, Adalbert Lechner, os preços recordes do cacau exigiram reajustes sem precedentes em todo o setor, enquanto incerteza geopolítica, inflação e sentimento fraco do consumidor pesaram sobre a demanda. Lechner acrescentou que a crise no Oriente Médio trouxe outro obstáculo, com queda no fluxo de turistas da Ásia e do Oriente Médio para a Europa.

Já a Barry Callebaut, maior fornecedora global de chocolate e cacau, informou que os consumidores compraram 4,4% menos chocolate no terceiro trimestre ante o mesmo período do ano anterior. Ainda assim, o volume total de vendas da companhia cresceu 5,7% no trimestre, resultado positivo pela primeira vez em mais de dois anos. As vendas globais de cacau da empresa também aceleraram 18%, em razão de uma correção de mercado no início do ano.

Por sua vez, a Nestlé informou que a alta nos preços do cacau e do café afetou o lucro operacional subjacente no primeiro semestre, com queda de 2,8%. O negócio de confeitaria representa 9,7% das vendas totais da companhia, que espera ganho de margem à medida que o cacau se acomoda.

El Niño e clima explicam a alta do cacau

A trajetória volátil do cacau decorre principalmente de safras ruins na África Ocidental, agravadas por padrões climáticos ligados ao El Niño e às mudanças climáticas, que restringiram a oferta.

O El Niño é um fenômeno climático marcado por temperaturas acima da média no oceano Pacífico, que ocorre a cada dois a sete anos. A disparada do cacau em 2024 esteve associada a um El Niño forte, que trouxe clima mais seco, quente e chuvas irregulares na África Ocidental, segundo análise de Tanya Lander, pesquisadora do programa sobre o futuro da alimentação da Oxford Martin School.

Assim, não é surpresa que o clima do El Niño esteja ligado às safras ruins na Costa do Marfim e em Gana, países que respondem por 60% a 70% da produção mundial de grãos de cacau, segundo Lander.

As mudanças climáticas e o aumento das temperaturas também desempenham papel na crise, com 2024 registrado como o ano mais quente da história. Uma onda de calor recente na Europa também pode esfriar o interesse do consumidor por chocolate, segundo analistas do UBS em nota sobre a Lindt no início de julho.

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Ondas de calor e temperaturas mais altas em mercados centrais da Lindt na Europa podem afetar a demanda por chocolate. Os analistas do UBS observaram queda nas vendas europeias, exceto no Leste Europeu, nas quatro semanas encerradas em 14 de junho.

Por outro lado, a Barry Callebaut informou que, embora um El Niño forte já esteja confirmado para 2026 e 2027, criando risco para a oferta, um excedente relevante na safra 2025-2026 funciona como amortecedor, resultando em cenário bem diferente do período 2023-2024.

Os analistas do UBS esperam que a Lindt tenha protegido preços favoráveis de cacau para 2027, movimento que pode reduzir custos em até 500 milhões de francos suíços.

As tarifas recíprocas do presidente americano Donald Trump também tiveram impacto breve, mas relevante, causando picos de preço e interrupções na cadeia de suprimentos. Mais recentemente, o conflito no Oriente Médio afetou o negócio de varejo de viagem da Lindt em escala global, com redução no fluxo de turistas.

Chocolate premium aposta em redes sociais

Com a expectativa de recuperação do cacau, as chocolateiras buscam reconquistar seu público principal renovando formatos de produtos premium e acompanhando de perto tendências em redes sociais entre os jovens.

A Lindt lançou sua barra de chocolate estilo Dubai em dezembro de 2024, buscando capitalizar em cima de uma tendência viral nas redes sociais. Redes globais como Walmart, Trader Joe’s, Shake Shack e Harrods também passaram a vender o produto.

Segundo Lechner, a companhia planeja expandir sua presença em redes sociais para criar uma jornada contínua entre inspiração, descoberta e compra. Ele afirmou que o sucesso do lançamento do chocolate estilo Dubai mostrou o poder crescente das redes sociais na construção de reconhecimento, engajamento e demanda pelas marcas do grupo, e que a estratégia ajuda a alcançar novos públicos e fortalecer a relevância entre consumidores mais jovens.

O CEO da Nestlé, Philipp Navratil, reforçou a mesma leitura em teleconferência com analistas nesta quinta-feira, ao afirmar que a companhia vai investir mais em marketing de influenciadores, com mudanças na forma como a marca se comunica. Segundo ele, a estratégia será mais digital, mais social, mais orgânica e mais divertida, buscando se conectar com a forma como os consumidores mais jovens se relacionam com o mundo.

Tanto a Barry Callebaut quanto a Lindt concentram esforços no interesse por produtos premium para o restante do ano, mas apostam em criatividade na forma de oferecer os produtos em vez de simplesmente elevar preços.

Segundo Lechner, ampliar a arquitetura de preços permite atrair novos consumidores, aumentar a frequência de compra e criar mais pontos de contato com a marca Lindt, sem comprometer o posicionamento premium. Ele destacou que a companhia reduziu seletivamente preços em mercados como Alemanha e Suíça, principalmente no período de Natal, para sustentar a demanda na temporada mais importante do ano. Barry Callebaut e Nestlé, por sua vez, não mencionaram redução de preços.

Em vez disso, a Barry Callebaut também aposta no segmento premium, expandindo seu negócio Gourmet, voltado a chefs e padeiros, além de ampliar produtos especiais de chocolate de linha superior.

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