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Inadimplência no crédito rural sobe quando juros altos coincidem com queda dos preços do agro, mostra Rabobank
Publicado 09/09/2026 • 10:00 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 09/09/2026 • 10:00 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
Inadimplência de pessoas físicas passa de 3% para mais de 7% ao ano entre 2024 e 2026, segundo o Rabobank Agência Brasil
A inadimplência do crédito rural voltou a subir no Brasil justamente no momento em que os preços de commodities agrícolas recuam e os juros seguem em patamar elevado, aponta um estudo divulgado nesta terça-feira (8) pela RaboResearch, braço de pesquisa do Rabobank. O levantamento, assinado pelos economistas Mauricio Une e Renan Alves, mede o impacto da política monetária sobre o financiamento do setor agropecuário e mostra que o efeito recai com maior força sobre pequenos produtores pessoa física.
Conforme o material, as taxas de juros do crédito rural acompanham de perto os ciclos de aperto da Selic, com transmissão mais evidente para pessoas físicas. Já a inadimplência responde a um conjunto mais amplo de fatores, entre eles a renda do setor agropecuário e o comportamento dos preços agrícolas ao longo do tempo.
Nos ciclos mais recentes de alta da Selic, entre 2021 e 2023 e entre 2024 e 2025, os juros do crédito rural para pessoas jurídicas se aproximaram ou superaram 14% ao ano, segundo os dados do Rabobank. Já as taxas cobradas de pessoas físicas permaneceram em nível mais baixo, ainda que em trajetória de alta.
Entre 2013 e 2014, um ciclo de aperto monetário conviveu com preços favoráveis de soja e milho e custos estáveis de fertilizantes, o que permitiu expansão do crédito rural sem piora relevante da inadimplência, mostra o estudo. Padrão semelhante ocorreu entre 2021 e 2022, quando o encarecimento dos insumos ligado à guerra entre Rússia e Ucrânia foi compensado por preços elevados de commodities, que sustentaram o caixa dos produtores.
| Indicador (a/a) | Maio de 2025 | Abril de 2026 | Maio de 2026 |
|---|---|---|---|
| Pessoa física | |||
| Concessão | -15,59% | 3,32% | -9,27% |
| Inadimplência | 2,96% | 7,16% | 7,51% |
| Juros | 11,57% | 10,43% | 10,32% |
| Pessoa jurídica | |||
| Concessão | -20,09% | 40,45% | 31,62% |
| Inadimplência | 0,40% | 0,67% | 0,80% |
| Juros | 15,37% | 12,38% | 13,21% |
Dados referentes ao saldo total da carteira de crédito rural. Fonte BCB, RaboResearch, Rabobank.
No ciclo mais recente, iniciado em 2024, a combinação passou a pesar contra o produtor. Enquanto os juros do crédito rural seguem em patamar alto, os preços de soja e milho recuaram dos picos anteriores e os custos de fertilizantes apenas começam a se normalizar, descreve o Rabobank.
Segundo a série histórica citada no estudo, a inadimplência de pessoas físicas no crédito rural passou de cerca de 3% ao ano em maio de 2025 para mais de 7% ao ano em maio de 2026. Já entre pessoas jurídicas, o indicador permanece próximo de zero, refletindo a menor exposição desse grupo às oscilações da Selic.
Leia também: Agro avança acima do PIB e enfrenta gargalos de infraestrutura para sustentar crescimento
| Horizonte (meses) | Juros PF | Inadimplência PF | Concessões PJ |
|---|---|---|---|
| 3 | 0,76 p.p.* | 0,08 p.p. | -0,10 p.p. |
| 6 | 0,25 p.p. | 0,11 p.p.* | 0,37 p.p.* |
| 9 | 0,07 p.p. | 0,11 p.p. | 0,21 p.p. |
| 12 | 0,73 p.p.*** | 0,11 p.p.* | 0,16 p.p. |
Legenda: * significância de 10 por cento, ** de 5 por cento, *** de 1 por cento. Fonte RaboResearch, Rabobank.
Para isolar o efeito direto da política monetária, os pesquisadores do Rabobank aplicaram um modelo estatístico que mede a resposta do crédito rural a choques inesperados na Selic em horizontes de três, seis, nove e doze meses. O resultado indica que a inadimplência de pessoas físicas aumenta cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e doze meses após um choque monetário, com significância estatística.
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Siga o Times | CNBCJá entre pessoas jurídicas, os choques produzem efeito mais visível sobre o volume de crédito liberado do que sobre a inadimplência. As concessões para esse grupo avançam 0,37 ponto percentual seis meses após o choque, sem evidência de piora relevante na taxa de calote, aponta o levantamento.
Essa diferença entre os dois grupos, segundo os autores do estudo, está ligada à participação elevada de linhas de crédito direcionadas e subsidiadas do Plano Safra na carteira de pessoas jurídicas. Essas linhas reduzem o repasse direto das oscilações da Selic para o custo final do crédito rural das empresas do setor.
Já entre pessoas físicas, a exposição a linhas de mercado é maior, o que amplia o efeito da política monetária tanto sobre os juros cobrados quanto sobre o risco de inadimplência ao longo do tempo, indica o Rabobank.

O volume de concessões de crédito rural também aparece como uma variável de forte oscilação no estudo. Depois de um crescimento acima de 60% na comparação anual entre 2021 e o início de 2022, puxado por pessoas físicas, o mercado passou por uma correção mais intensa em 2023.
Em 2024, o crescimento das concessões voltou a acelerar, dessa vez com liderança de pessoas jurídicas, também com picos acima de 60% na comparação anual antes de nova desaceleração no início de 2025. Já em 2026, os dados mais recentes apontam recomposição moderada do crescimento agregado, com desempenho distinto entre os dois grupos.
Para o Rabobank, a leitura conjunta dos dados sugere que a sensibilidade da inadimplência ao aperto monetário depende do momento do ciclo de commodities. Juros elevados, isoladamente, não geram piora relevante na qualidade do crédito quando os preços agrícolas sustentam a receita do produtor.
Por outro lado, em cenários de queda de receita como o atual, o mesmo nível de juros tende a amplificar tanto a inadimplência quanto o risco de crédito no setor rural, conclui o estudo assinado por Une e Alves.
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