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IATA: Guerra no Oriente Médio corta pela metade o lucro das companhias aéreas do mundo

Publicado 07/06/2026 • 10:55 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Lucro líquido da aviação global cai de US$ 45 bilhões em 2025 para US$ 23 bilhões em 2026 com guerra no Oriente Médio e alta do querosene.
  • Companhias aéreas do Oriente Médio acumulam prejuízo de US$ 4,3 bilhões em 2026 após lucrarem US$ 7,2 bilhões em 2025.
  • Querosene de aviação sobe 70% em 2026 e representa 31,4% dos custos operacionais totais das companhias aéreas.
IATA aviação

A guerra no Oriente Médio e o encarecimento do combustível de aviação reduziram à metade a lucratividade do setor aéreo global em 2026. A projeção consta do relatório financeiro divulgado neste domingo (7) pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) durante evento no Rio de Janeiro.

O lucro líquido combinado das companhias aéreas deve fechar o ano em US$ 23 bilhões, pouco mais da metade dos US$ 45 bilhões estimados para 2025 e bem abaixo dos US$ 41 bilhões que o setor projetava para 2026 antes do conflito. A margem líquida encolheu de 4,2% para 2,0%.

🔍 IATA (International Air Transport Association) Associação Internacional de Transporte Aéreo, organização que representa cerca de 320 companhias aéreas, responsáveis por aproximadamente 83% do tráfego aéreo mundial. Divulga periodicamente projeções financeiras e estatísticas do setor de aviação civil global.

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Lucratividade da aviação por região — estimativa 2025 vs. projeção 2026  ·  Fonte: IATA (junho de 2026)

Região Lucro 2025 Lucro 2026 Margem 2025 Margem 2026 Lucro/passageiro 2026
EUA
América do Norte
US$ 12,4 bi US$ 9,4 bi 3,5% 2,5% US$ 8,10
Europa
Europa
US$ 13,0 bi US$ 9,6 bi 4,5% 3,1% US$ 7,50
Ásia-Pacífico
Ásia-Pacífico
US$ 9,8 bi US$ 6,6 bi 3,5% 2,1% US$ 3,40
Brasil
América Latina
US$ 1,9 bi US$ 1,2 bi 3,8% 2,1% US$ 3,50
África do Sul
África
US$ 300 mi US$ 100 mi 1,6% 0,2% US$ 0,40
Emirados Árabes
Oriente Médio
US$ 7,2 bi – US$ 4,3 bi 9,4% – 6,1% – US$ 21,40

Elaboração: Allan Ravagnani — Times Brasil | Licenciado Exclusivo CNBC  ·  (f) projeção  ·  (e) estimativa

Querosene consome as margens

O combustível é o maior vilão das contas do setor. O preço do querosene de aviação deve atingir uma média de US$ 152 por barril em 2026, alta de quase 70% sobre os US$ 90 por barril de 2025. O petróleo Brent, referência internacional, deve fechar o ano com média de US$ 95 por barril, 37% acima de 2025.

Com isso, os gastos com combustível saltam de US$ 252 bilhões em 2025 para US$ 350 bilhões em 2026, um aumento de quase 40%. A participação do querosene nos custos operacionais totais cresce de 25,4% para 31,4%.

As companhias aéreas hedgearam cerca de um terço do consumo esperado para o ano, o que suaviza a volatilidade de curto prazo mas não elimina a exposição a preços sustentados em patamares elevados. Willie Walsh, diretor-geral da IATA, foi direto ao comentar o impacto por passageiro.

“O lucro líquido por passageiro deve cair para US$ 4,50, metade do que foi no ano passado. Isso não compra nem um cachorro-quente na maioria dos estádios da Copa do Mundo da FIFA e não deixa muito espaço se outros custos ou impostos começarem a subir”, disse Walsh.

🔍 Hedge de combustível Estratégia financeira usada pelas companhias aéreas para travar antecipadamente o preço do querosene por meio de contratos de derivativos. Protege contra altas bruscas no curto prazo, mas não elimina o impacto de aumentos prolongados e não cobre variações no prêmio entre o petróleo bruto e o querosene refinado.

Receitas crescem, mas custos crescem mais, aponta IATA

A receita total do setor deve atingir US$ 1,165 trilhão em 2026, alta de 9,4% sobre 2025. As passagens aéreas respondem por US$ 839 bilhões, com crescimento de 9,2%, impulsionado por tarifas mais altas enquanto as companhias tentam repassar parte do custo do combustível.

O problema é que as despesas operacionais crescem ainda mais rápido, 13%, chegando a US$ 1,117 trilhão. A taxa de ocupação das aeronaves deve atingir 84%, novo recorde histórico. O número de passageiros deve chegar a 5,1 bilhões, alta de 2,4% sobre 2025.

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Oriente Médio afunda no vermelho

A região que concentra o epicentro da guerra acumula o pior desempenho. As companhias aéreas do Oriente Médio devem registrar prejuízo líquido de US$ 4,3 bilhões em 2026, revertendo o lucro de US$ 7,2 bilhões do ano anterior. A margem líquida despencou de 9,4% positivo para 6,1% negativo.

O fechamento quase total do espaço aéreo no início do conflito, os cancelamentos de voos, as disruções operacionais e a perda de passageiros em trânsito pressionam os custos enquanto derrubam a receita. A recuperação, segundo a IATA, deve vir primeiro pela via de preços do que pelo retorno de volumes.

🔍 Crack spread Diferença de preço entre o petróleo bruto e os derivativos refinados, como o querosene de aviação. Quando as refinarias do Golfo Pérsico operam com restrições, esse prêmio tende a subir, encarecendo o combustível acima do que o preço do petróleo bruto sozinho justificaria. Em 2026, o crack spread atingiu US$ 57 por barril, nível histórico.

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Europa sofre com dependência do Golfo

As companhias europeias devem registrar lucro líquido de US$ 9,6 bilhões em 2026, queda de 26% sobre os US$ 13 bilhões de 2025. A margem recua de 4,5% para 3,1%, afirmou a IATA.

A Europa depende fortemente das importações de combustível do Golfo Pérsico. O hedge pré-crise cobre 70% das necessidades de querosene, o que amortece o impacto no curto prazo, mas à medida que os contratos vencem, os preços mais altos vão se incorporando aos custos.

O continente capturou parte do tráfego que antes circulava pelos hubs do Oriente Médio, especialmente nas rotas entre Europa e Ásia. Mesmo assim, o ambiente macroeconômico mais fraco, com crescimento lento e energia cara, compromete o poder de compra das famílias e tende a conter a demanda.

América do Norte resiste, mas sente o custo

As companhias norte-americanas devem fechar 2026 com lucro de US$ 9,4 bilhões, contra US$ 12,4 bilhões em 2025. A margem cai de 3,5% para 2,5%.

O setor nos Estados Unidos e Canadá abandonou em grande parte a prática de hedge de combustível, o que significa que o aumento do custo do querosene se transmite de forma mais direta e rápida para os resultados. As companhias de rede, com maior diversificação de rotas e classes de serviço, estão mais bem posicionadas do que as de baixo custo para enfrentar o ciclo.

Ásia-Pacífico ajusta rotas

A região deve registrar lucro de US$ 6,6 bilhões em 2026, queda de 33% sobre os US$ 9,8 bilhões de 2025. A dependência de importações de petróleo do Golfo expõe as refinarias da região a pressões específicas, com risco de escassez de querosene e preços regionais ainda mais altos.

Algumas companhias asiáticas se beneficiaram do desvio de rotas entre Europa e Ásia, capturando passageiros e carga que antes transitavam pelos hubs do Oriente Médio. A depreciação de moedas locais frente ao dólar, porém, amplifica o custo do combustível e da dívida denominada em moeda americana.

América Latina e África no limite

A América Latina deve fechar 2026 com lucro de US$ 1,2 bilhão, contra US$ 1,9 bilhão em 2025. A região opera com menor flexibilidade de balanço e custos de financiamento mais altos, o que limita a capacidade de absorver choques. A demanda na região é mais sensível à renda e ao preço, e a depreciação cambial amplifica o custo do combustível importado.

Na África, o lucro deve cair de US$ 300 milhões para US$ 100 milhões em 2026. As companhias hub do continente capturam parte do tráfego desviado do Oriente Médio, mas a estrutura de custos mais frágil e a infraestrutura limitada restringem o aproveitamento dessa oportunidade.

Frota envelhecida e atrasos na entrega

A escassez de aeronaves novas segue como risco estrutural. O acumulado de pedidos não entregues chegou a 18.100 unidades em maio de 2026, ante 17.000 em 2024, o equivalente a mais de 50% da frota ativa mundial. A falta de renovação paralisou os ganhos de eficiência no consumo de combustível em 2024 e 2025 pela primeira vez na história do setor.

As companhias respondem estendendo a vida útil das aeronaves existentes, aumentando a utilização diária e operando com taxas de ocupação mais altas. O custo de manutenção da frota mais velha sobe. As taxas de leasing de aeronaves atingiram níveis recordes.

Passageiro ainda voa e ainda está satisfeito

Apesar dos preços mais altos, pesquisa da IATA com 6.500 viajantes em 15 países, realizada em abril, aponta que 97% dos entrevistados se disseram satisfeitos com a última experiência de voo. Outros 41% planejam viajar mais nos próximos 12 meses do que nos 12 anteriores.

A tarifa média de ida e volta, incluindo serviços adicionais, deve ficar em US$ 462 em 2026, valor 26,3% abaixo do praticado em 2016 em termos reais. O setor acumula décadas de queda no custo real da passagem para o consumidor.

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