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Enquanto Neuralink, de Elon Musk, aposta em implantes, chinesa BrainCo aposta que o futuro da tecnologia cerebral será vestível

Publicado 11/07/2026 • 18:47 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Empresas de todo o mundo, especialmente dos Estados Unidos e da China, disputam a liderança no desenvolvimento de interfaces cérebro-computador.
  • Investidores e executivos do setor afirmam que o mercado voltado ao aprimoramento das capacidades humanas ainda está a muitos anos de distância.
  • A China intensifica os investimentos em neurotecnologia, com apoio de políticas públicas, parcerias com hospitais e iniciativas de comercialização.
Neuralink, startup de tecnologia cerebral de Elon Musk.

Canva Images.

Neuralink, startup de tecnologia cerebral de Elon Musk.

A Neuralink, empresa de Elon Musk que desenvolve implantes cerebrais para ajudar pessoas com deficiências, tornou-se a principal referência quando o assunto são as chamadas interfaces cérebro-computador (BCI). No entanto, outras empresas acreditam que a tecnologia neural voltada ao grande público não exigirá a abertura do crânio.

As BCIs funcionam processando sinais cerebrais e convertendo-os em comandos, permitindo que dispositivos externos sejam controlados apenas pelo pensamento.

Embora o volume de investimentos no setor ainda seja muito inferior ao destinado à inteligência artificial, o interesse cresce à medida que empresas alcançam novos marcos, como permitir que pessoas com doenças degenerativas — entre elas a esclerose lateral amiotrófica (ELA) — consigam digitar ou jogar videogame utilizando apenas sinais do cérebro.

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A inteligência artificial vem acelerando esse desenvolvimento ao ampliar a capacidade de processamento desses sinais. No futuro, alguns especialistas imaginam um salto ainda maior: utilizar a mente para controlar ou interagir diretamente com sistemas de I.A e robôs.

Essa corrida tecnológica também amplia a rivalidade entre Estados Unidos e China. O governo chinês incluiu as interfaces cérebro-computador entre as “indústrias estratégicas do futuro” em seu mais recente Plano Quinquenal. Recentemente, reguladores aprovaram aquele que autoridades chinesas classificam como o primeiro dispositivo minimamente invasivo de BCI do mundo autorizado para uso comercial, desenvolvido pela Neuracle Medical Technology para ajudar pacientes a recuperar parte dos movimentos das mãos após lesões na medula espinhal.

Enquanto empresas chinesas como StairMed e NeuroXess avançam no desenvolvimento de implantes cerebrais, o segmento não invasivo também ganha força. Nos Estados Unidos, a Merge Labs — apoiada por Sam Altman — e, na China, a Gestala, apostam em tecnologias baseadas em ultrassom.

Entre essas empresas está a BrainCo, considerada uma das chamadas “seis pequenas dragões” do polo tecnológico de Hangzhou. A startup fabrica próteses e dispositivos vestíveis baseados em tecnologia de interface cérebro-computador.

Segundo Rui Ma, fundadora da plataforma de pesquisa e mídia Tech Buzz China, as aplicações atuais já comprovadas podem transformar significativamente a qualidade de vida de pacientes com deficiências graves. No entanto, ela acredita que o verdadeiro potencial comercial está no uso da tecnologia para ampliar as capacidades humanas.

“Não acredito que alguém esteja sequer perto de alcançar isso. O aprimoramento humano ainda pertence ao campo da ficção científica”, afirmou.

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Um roteiro para a tecnologia cerebral

Fundada em 2015 a partir do Harvard Innovation Labs, a BrainCo decidiu concentrar seus esforços exclusivamente em soluções não invasivas.

Em entrevista à CNBC, a sócia e vice-presidente sênior da empresa, Nyx He, afirmou que implantes e dispositivos externos seguem caminhos distintos para resolver problemas diferentes. Segundo ela, determinadas condições médicas exigem intervenções diretamente no cérebro, mas a BrainCo acredita que muitos outros casos — especialmente aqueles em que medicamentos não apresentam bons resultados — podem ser tratados por métodos não invasivos, mais acessíveis, menos arriscados e mais facilmente aceitos pelos pacientes.

As mãos biônicas desenvolvidas pela empresa, aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, captam sinais elétricos neurais e musculares de amputados e os convertem em movimentos dos dedos.

Já entre os dispositivos vestíveis está um equipamento para auxiliar o sono que, segundo a BrainCo, utiliza pulsos elétricos de baixa intensidade para estimular substâncias químicas do cérebro relacionadas ao alívio do estresse.

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A empresa levantou 2 bilhões de yuans (cerca de US$ 280 milhões) em uma rodada de investimentos liderada pelos fundos IDG Capital e Walden International, empresa de venture capital fundada pelo atual CEO da Intel, Lip-Bu Tan.

Segundo Nyx He, o maior desafio das tecnologias não invasivas está justamente em captar e interpretar sinais cerebrais, que são extremamente fracos e sujeitos a interferências quando medidos do lado de fora do crânio. Para superar essa limitação, a BrainCo desenvolveu sensores de eletrodos secos e algoritmos de inteligência artificial capazes de decodificar esses sinais.

A estratégia da empresa prevê três etapas: inicialmente atender pacientes que mais necessitam da tecnologia, como amputados cobertos por planos de saúde; depois expandir para tratamentos de transtornos como TDAH e depressão; e, por fim, chegar ao mercado de eletrônicos de consumo.

No futuro, a BrainCo pretende licenciar sua plataforma de interface cérebro-computador para outras empresas que desenvolvem produtos do setor, atividade que a executiva acredita que se tornará a principal fonte de receita da companhia.

A estratégia está alinhada à visão do governo chinês. Em artigo publicado pela imprensa estatal nesta semana, um pesquisador da Academia Chinesa de Ciências especializado em BCIs não invasivas defendeu uma trajetória semelhante: começar pelas aplicações médicas, avançar para áreas como direção autônoma e manufatura inteligente e, posteriormente, alcançar produtos voltados ao consumidor.

Da ficção científica ao mercado

Os investidores ainda divergem sobre qual abordagem tecnológica será vencedora. No entanto, há consenso de que o sucesso dependerá da capacidade das empresas de desenvolver produtos capazes de oferecer benefícios concretos pelos quais consumidores estejam dispostos a pagar.

Há quem defenda que apenas os implantes cerebrais serão capazes de atingir esse objetivo.

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“Os métodos não invasivos são como tentar capturar a luz de galáxias distantes”, afirmou Alex Zhavoronkov, CEO da empresa de biotecnologia Insilico Medicine.

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Outros enxergam potencial justamente nas tecnologias sem implantes.

Thomas Tsao, cofundador da gestora Gobi Partners, investidora da Gestala, acredita que abordagens baseadas em ultrassom oferecem uma visão mais ampla do cérebro sem os riscos de uma cirurgia.

Segundo ele, o aumento dos investimentos pode levar o setor a um ponto de inflexão, embora ainda seja impossível estimar o tamanho desse mercado, já que muitas das futuras aplicações sequer podem ser imaginadas hoje.

Em relatório publicado em 8 de julho, o banco Jefferies afirmou que implantes invasivos e tecnologias baseadas em ultrassom representam atualmente as fronteiras mais promissoras do setor. A instituição observa que os sistemas não invasivos tradicionais ainda enfrentam limitações na captura e interpretação dos sinais cerebrais, mas destaca que os sensores proprietários, os algoritmos de IA e o histórico de comercialização da BrainCo colocam a empresa em posição de vantagem.

Especialistas afirmam que não existe uma solução única: a melhor tecnologia dependerá da finalidade, seja registrar ou estimular atividades cerebrais, atender pacientes ou consumidores, ser utilizada de forma contínua ou temporária, atuar em regiões superficiais ou profundas do cérebro e do nível de intervenção que os usuários estão dispostos a aceitar.

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O modelo do Vale do Silício versus o modelo chinês

Se, nos Estados Unidos, o desenvolvimento da neurotecnologia conta com o apoio financeiro de bilionários, na China o principal patrocinador é o governo central.

Em Pequim, sete ministérios divulgaram, em agosto do ano passado, um plano conjunto para impulsionar a indústria de interfaces cérebro-computador, estabelecendo como meta alcançar avanços tecnológicos relevantes até 2027.

Já em junho deste ano, a província chinesa de Anhui lançou um plano de ação para acelerar pesquisas, produção e industrialização da tecnologia.

Segundo Rui Ma, da Tech Buzz China, muitas startups chinesas, pressionadas por investidores ligados ao Estado ou mais avessos ao risco, acabam priorizando a geração de receitas por meio da venda de equipamentos ou produtos voltados ao consumidor. Nos Estados Unidos, por outro lado, investidores costumam apostar em projetos mais ambiciosos, com potencial de transformar completamente o mercado.

Por enquanto, o mercado chinês de interfaces cérebro-computador cresce principalmente nas tecnologias não invasivas voltadas à reabilitação, segmento que enfrenta menos barreiras regulatórias e clínicas, de acordo com o Jefferies.

“A China incorporou as interfaces cérebro-computador ao centro de sua política industrial”, afirmou Paul Triolo, sócio da consultoria DGA-Albright Stonebridge Group. “Pequim pensa não apenas em uma tecnologia revolucionária, mas em toda a cadeia produtiva.”

Segundo ele, o foco do país também é mais amplo, abrangendo desde reabilitação de pacientes vítimas de AVC até próteses inteligentes e sistemas de avaliação cognitiva.

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Essa coordenação também envolve hospitais e universidades. Em Xangai, startups do setor trabalham em parceria com o Hospital Huashan, ampliando o acesso a pacientes e neurocirurgiões. Além disso, as autoridades de saúde da China criaram, no ano passado, uma categoria específica de cobertura de seguro para interfaces cérebro-computador, medida que especialistas acreditam poder acelerar a adoção da tecnologia.

Assim como aconteceu anteriormente com a inteligência artificial e os semicondutores, as interfaces cérebro-computador — especialmente por envolverem dados extremamente sensíveis e questões de privacidade — podem se tornar um novo foco de tensões geopolíticas à medida que amadurecem. As aplicações voltadas ao aprimoramento das capacidades humanas também levantam debates éticos.

Nyx He afirmou que a BrainCo não coleta dados dos usuários. Segundo ela, todas as informações permanecem armazenadas nos próprios dispositivos, não são enviadas para a nuvem e são apagadas após cada utilização. Em aparelhos destinados ao treinamento da concentração, por exemplo, as pontuações também ficam armazenadas apenas localmente.

Questionada sobre as tensões entre China e Estados Unidos, a executiva minimizou o aspecto político.

“O objetivo da empresa é levar soluções para quem precisa delas, esteja essa pessoa na China ou nos Estados Unidos”, afirmou. “Não acho que isso deva parar nas fronteiras.”

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