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De Digimais a Ambipar, nova gestora de ex-Reag reúne fundos sob suspeita

Publicado 02/07/2026 • 21:30 | Atualizado há 57 minutos

KEY POINTS

  • Asarock Asset Management assumiu dezenas de fundos que antes estavam ligados à Reag, liquidada pelo Banco Central.
  • Fundos sob gestão da Asarock e administração da ID aparecem em disputas envolvendo suspeitas de fraude, sonegação e esvaziamento patrimonial.
  • Casos citados incluem o Digimais, do bispo Edir Macedo, a Ambipar e a falência da OAS.

Uma nova estrutura formada por ex-profissionais ligados à Reag passou a reunir, na Faria Lima, fundos citados em investigações e disputas judiciais envolvendo suspeitas de fraude, sonegação fiscal e esvaziamento patrimonial.

O principal nome desse grupo é a Asarock Asset Management, gestora que recebeu cerca de 50 fundos que antes estavam na Reag, liquidada pelo Banco Central. Em dezenas desses veículos, a administração fiduciária é feita pela ID CTVM, empresa ligada a Roberto Giancoli Filho, o Beto, e Rodrigo Balassiano, o Bala. As informações foram divulgadas pelo Estadão.

Os dois são alvos da Polícia Federal em investigação sobre supostas fraudes em fundos ligados ao banco Digimais, do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal.

A Asarock pertenceu anteriormente a Lélio Vieira Carneiro Junior, ex-cliente da Reag acusado pela União de sonegação fiscal com uso de fundos de investimento. Ele vendeu a gestora em setembro de 2025 a Gabriel Pupo Nogueira, apontado na reportagem como ex-diretor da Reag. A Asarock afirma que Pupo nunca exerceu cargo executivo ou estatutário na antiga gestora.

Além dos casos envolvendo Lélio e Digimais, fundos administrados ou geridos por empresas ligadas à ID aparecem em disputas relacionadas à Ambipar, que entrou em recuperação judicial com dívidas de R$ 10,5 bilhões, e à falência da OAS.

Leia também: Digimais: como um banco digital virou alvo de uma crise que pode custar bilhões ao FGC?

Fundos ligados a Lélio somam quase R$ 1 bilhão

Dois fundos mapeados pela União como ligados a Lélio Carneiro são geridos pela Asarock e administrados pela ID: o Fera 12 e o Rodoma 16. Juntos, eles têm patrimônio de R$ 988 milhões.

Segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), os fundos fazem parte de uma teia com mais de uma dezena de empresas e veículos de investimento ligados a Lélio. A União obteve na Justiça Federal o bloqueio dessa estrutura e de Lélio no valor de R$ 250 milhões.

Há ainda mais de R$ 1 bilhão em fundos atribuídos a Lélio em administradoras e gestoras ID, segundo a apuração.

Ao determinar o bloqueio, o juiz federal Fabiano Bley Franco afirmou que a estruturação de empresas e fundos indicava, em análise preliminar, ato “simulado e fraudulento” para burlar a legislação tributária.

O processo tramita na 16ª Vara Federal de Curitiba. Lélio e os fundos têm recorrido das decisões, mas os recursos foram rejeitados em três instâncias. A decisão mais recente contra um dos fundos hoje sob gestão da Asarock foi proferida pela ministra Regina Helena, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Digimais é investigado por uso de fundos

A Polícia Federal investiga a atuação da ID em fundos ligados ao Digimais. Segundo os investigadores, esses veículos teriam sido usados para maquiar prejuízos do banco.

O principal caso envolve direitos creditórios relacionados a uma indenização judicial obtida por herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, encampada pelo governo de Getúlio Vargas em 1940 no processo de criação da Vale do Rio Doce.

A Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou a União a indenizar acionistas e herdeiros em valores atualizados equivalentes a 7 mil ações da Vale. A ação judicial é dos anos 1990, e o fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber.

Não há polêmica sobre a condenação, que já transitou em julgado. A disputa, porém, está no valor a ser pago pela União, que costuma travar longas discussões judiciais sobre cálculos em processos bilionários.

De acordo com a PF, os recebíveis foram comprados por R$ 71 milhões por fundos ligados ao banco e à ID. Depois, foram vendidos a outros fundos, que reavaliaram os ativos para R$ 741 milhões.

Esses fundos tinham o Digimais como cotista. O banco vendeu a carteira de direitos creditórios pelo mesmo valor, R$ 741 milhões, à holding de Edir Macedo, seu próprio controlador. O valor é alvo de suspeita dos investigadores por possível superavaliação.

Em nota enviada ao Estadão, o Digimais afirmou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações. O banco também disse manter compromisso com transparência, conformidade regulatória e colaboração com os órgãos competentes.

Leia também: SÉRIE EXCLUSIVA — O escândalo Ambipar: o sumiço de R$ 4,7 bilhões do caixa e a suspeita de megafraude

Fundo da Ambipar entra no radar

Outro caso citado envolve a Ambipar. A empresa de investimentos em sustentabilidade entrou em recuperação judicial com dívidas de R$ 10,5 bilhões e passou a ser questionada por credores sobre a composição de seu caixa.

O caso também se conecta ao escândalo do Banco Master. A Ambipar teria usado fundos do banco para inflar seus balanços.

Segundo o Bradesco, mais da metade dos R$ 4,7 bilhões declarados pela Ambipar como caixa disponível estava alocada no FIDC Fênix, fundo que investe em direitos creditórios, como créditos a receber, empréstimos e recebíveis de ações judiciais.

O Fênix investia em créditos da Everest, empresa de participações pertencente a Tercio Borenghi, controlador da própria Ambipar.

Em manifestação no processo judicial, o Bradesco afirmou que era “chegada a hora de abrir a caixa preta da Ambipar”. O banco pediu que os credores tivessem acesso ao destino dado ao caixa da companhia, especialmente para verificar eventual saída de recursos via Everest e FIDC Fênix.

A Justiça ainda não decidiu sobre o pedido. Procurados pelo Estadão, Ambipar e Tercio não se manifestaram. A ID afirmou que o FIDC Fênix foi encerrado.

Papéis assinados por empresária na Itália

Documentos obtidos pelo Estadão mostram outro ponto da atuação da ID no FIDC Fênix. Assim como em outros fundos da gestora, papéis do fundo receberam assinatura de Antonella Giancolli, irmã de José Roberto Giancoli Filho.

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Antonella mora na Itália, é dona de uma agência de viagens e, segundo a apuração, não teria qualificação para administrar fundos.

Em depoimento prestado em uma disputa societária envolvendo a ID, ela afirmou que não administra de fato a empresa nem os fundos. “Tudo o que meu irmão pede para assinar, eu assino”, disse.

Antonella também aparece como proprietária de uma casa avaliada em R$ 7 milhões, com mais de 800 metros quadrados construídos, onde Beto Giancoli mora.

Questionada pelo jornal sobre o imóvel e sobre o papel de Antonella na empresa, a ID afirmou que não comenta assuntos pessoais. A empresa também disse que o cargo exercido por Antonella foi devidamente aprovado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pelo Banco Central.

Segundo a ID, Antonella não atua atualmente em nenhuma diretoria e é apenas acionista da holding Bekoach.

Fundo da OAS teve fraude reconhecida

Empresas com a marca ID também aparecem na administração e gestão do fundo Zegama, que gerou disputa no processo de falência da OAS.

O fundo tem como cotistas ex-dirigentes da própria empreiteira e adquiriu ativos do grupo, dividido entre as empresas Coesa e Metha.

Credores afirmaram que a operação, com a OAS nas duas pontas, era fraudulenta. A Justiça reconheceu fraude no uso dos fundos.

Em julgamento, o desembargador Grava Brazil afirmou que a relação entre ex-dirigentes da OAS e o fundo confirmou “promiscuidade societária”. Segundo o magistrado, houve transferência de empresas deficitárias para grupo ligado à própria OAS e direcionamento de ativos relevantes para a Metha.

A ID afirma que a Zegama é administrada pela ID Serviços Fiduciários, que, segundo a companhia, não faz parte do mesmo grupo.

O Estadão identificou, porém, que a empresa é dirigida por Beto Giancoli, tem como sócias outras empresas ID controladas por ele e por outro sócio, foi registrada no mesmo prédio das demais companhias e usa identidade visual semelhante.

Leia também: Bancos acusam Ambipar de priorizar credores externos em plano de recuperação e audiência nos EUA é adiada para julho

O que dizem as empresas

A ID CTVM afirma que atua há mais de oito anos como administradora fiduciária no mercado de capitais, sob supervisão da CVM, do Banco Central e da Anbima. A empresa diz conduzir suas atividades com rigor regulatório, governança, diligência e transparência.

A companhia também contesta a informação de que tenha sido fundada por Francisco Maximiano, o Max, lobista acusado de fraude na venda da vacina indiana Covaxin ao governo federal durante a pandemia. Segundo a ID, a administradora foi constituída pelo grupo BR Partners em 2012 e adquirida pela Bekoach em 2018.

A ID afirma que seus controladores atuais são Antonella Giancoli e Rodrigo Balassiano, ambos aprovados pelo Banco Central. Segundo a empresa, José Roberto Giancoli Filho é sócio minoritário e não exerce o controle da companhia.

A administradora também afirma que não cabe à instituição fiduciária definir como bancos e companhias abertas registram ativos em balanços, nem responder pela classificação contábil feita por terceiros.

Sobre os fundos ligados a Lélio Carneiro, a ID diz que não recebeu, até o momento, qualquer determinação judicial, administrativa ou regulatória para bloqueio de ativos ou execução em relação ao CPF dos fundos citados.

A empresa afirma ainda que é “inadmissível e irresponsável” qualquer comparação com a Reag ou outras empresas do mercado.

A Asarock também nega ser “herdeira” ou uma “nova Reag”. A gestora afirma que foi criada para oferecer uma alternativa independente aos investidores diante da crise da Reag.

Segundo a empresa, a migração dos fundos ocorreu por decisão dos próprios cotistas, dentro dos procedimentos regulatórios aplicáveis e com as aprovações necessárias de administradores fiduciários e demais instâncias competentes.

A Asarock diz ter governança, estrutura e controle societário próprios, com Gabriel Pupo como único acionista. A gestora afirma que Pupo nunca exerceu cargo executivo ou estatutário na Reag e construiu, ao longo de mais de 20 anos, uma carteira própria de clientes.

A companhia também afirma atuar exclusivamente como gestora de recursos e diz que sua relação com administradores fiduciários, incluindo empresas do grupo ID, é estritamente profissional. Segundo a Asarock, não há vínculo societário nem grupo econômico com a ID.

Lélio Vieira Carneiro Junior afirma que não fundou a Asarock. Segundo ele, a companhia foi adquirida em 2024, quando decidiu atuar no segmento de gestão de fundos, e vendida integralmente em setembro de 2025.

Ele diz não ter mais participação societária, função executiva ou influência sobre a gestão da Asarock.

Lélio afirma ainda que foi incluído pela União como suposto responsável solidário antes da conclusão da discussão administrativa. Segundo ele, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) afastou sua responsabilidade em primeira e segunda instâncias.

Ele também nega vínculo societário com as empresas que discutem os débitos tributários e afirma que não há bens bloqueados em seu nome relacionados ao processo. Segundo Lélio, nunca houve uso de fundos de investimento para sonegação fiscal.

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