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“Ninguém vai frear a IA”, diz professor da FGV sobre corrida entre EUA e China

Publicado 21/09/2026 • 17:27 | Atualizado há 1 dia

KEY POINTS

  • Criação de uma força-tarefa de IA nos Estados Unidos reforça caráter estratégico da tecnologia na disputa econômica e geopolítica com a China.
  • Álvaro Massad Martins avalia que empresas continuarão desenvolvendo inteligência artificial apesar dos alertas públicos sobre segurança e riscos.
  • Professor afirma que Brasil não competirá diretamente com EUA e China, mas pode reter talentos e ampliar ganhos de produtividade com a tecnologia.

A corrida pelo desenvolvimento da inteligência artificial não será interrompida por alertas de empresas, executivos ou governos sobre os riscos da tecnologia, afirmou Álvaro Massad Martins, diretor executivo da IT by Insight e professor da FGV. Em entrevista nesta segunda-feira (21) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele avaliou que a iniciativa do presidente americano, Donald Trump, de criar uma “AI Force” expõe a dimensão econômica, geopolítica e estratégica que a IA passou a ocupar.

O risco é muito grande, mas ninguém vai frear, ninguém vai começar essa conversa. É um jogo diplomático, político”, afirmou Martins. Para ele, discursos de executivos de grandes empresas defendendo uma desaceleração precisam ser vistos com cautela, já que as próprias companhias seguem investindo no avanço dos modelos.

IA entra no centro da disputa geopolítica

Martins comparou a criação da estrutura dedicada à inteligência artificial com a Space Force, estabelecida pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump. Na avaliação do professor, há uma lógica semelhante: Washington busca evitar a perda de espaço em uma tecnologia considerada estratégica diante do avanço de outras potências, especialmente da China.

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A iniciativa americana, segundo ele, envolve três dimensões principais: a disputa pela hegemonia tecnológica, o impacto econômico da IA e o embate em torno da regulamentação. Nesse cenário, a sinalização de Trump seria de que as empresas americanas terão espaço para continuar inovando sem um movimento de restrição comparável ao observado na Europa.

A grande mensagem que ele manda principalmente para o mercado é: ‘Nós não vamos frear a inovação, nós vamos para a frente’”, disse Martins. Para o professor, essa orientação tem implicações comerciais, de investimentos e também para a soberania dos Estados Unidos.

Impacto econômico pode ir muito além dos softwares

Ao analisar a afirmação de Trump de que a inteligência artificial poderia representar até 25% do Produto Interno Bruto (PIB) americano, Martins disse considerar a dimensão econômica apontada pelo presidente plausível, argumentando que os efeitos da tecnologia não estão restritos aos modelos de linguagem ou às aplicações acessadas diretamente pelos usuários.

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A gente tem que pensar não só no software”, afirmou. Segundo ele, é necessário considerar toda a infraestrutura associada à IA e os ganhos de produtividade que podem surgir em diferentes atividades. Manufatura, saúde e defesa estão entre os setores citados pelo professor como exemplos desse impacto transversal.

Martins também acredita que a escolha do chamado “czar da IA” poderá indicar qual dimensão receberá maior peso no governo Trump. Um nome relacionado à segurança nacional poderia reforçar a disputa geopolítica com a China, enquanto alguém mais próximo do mercado sinalizaria prioridade ao fortalecimento das big techs americanas.

Eu apostaria que será uma pessoa mais voltada para o lado mesmo de mercado”, disse. Martins ressaltou, porém, que não dispõe de informações concretas sobre candidatos e que sua avaliação é uma aposta baseada na aproximação observada entre Trump, as empresas de tecnologia e o capital durante seu segundo governo.

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Acordo entre EUA e China é considerado improvável

Questionado sobre a possibilidade de Washington e Pequim estabelecerem um entendimento para lidar conjuntamente com incidentes de segurança relacionados à IA, Martins demonstrou forte ceticismo diante da intensidade da competição tecnológica entre as duas potências.

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A chance de acordo é zero. É zero porque é uma competição feroz”, afirmou. Para ele, Estados Unidos, China e União Europeia estão construindo suas próprias capacidades tecnológicas e de infraestrutura como parte de uma disputa que ultrapassa o terreno estritamente comercial.

Nesse contexto, a capacidade de desenvolver inteligência artificial tornou-se um componente de poder econômico e estratégico, segundo o professor. A aposta de Trump, acrescentou, é estimular a indústria americana e transmitir ao mercado uma mensagem de que a inovação não será contida por novas barreiras regulatórias.

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Riscos existem, mas cenário não é de “apocalipse”

Apesar de considerar reais os riscos associados à tecnologia, especialmente na área de segurança cibernética, Martins rejeitou a ideia de que a inteligência artificial esteja próxima de alcançar um estágio capaz de representar inevitavelmente uma ameaça existencial à humanidade.

A IA ainda não é tudo isso. Nós estamos ainda […] na infância da IA generativa. Essa infância ainda não chegou na adolescência”, afirmou. Segundo ele, empresas começam a obter resultados concretos em redução de custos, produtividade e qualidade, mas ainda existe grande distância até um cenário de sistemas superiores aos humanos e capazes de tomar decisões de maneira plenamente autônoma.

Isso não elimina a necessidade de proteção. Martins destacou que modelos podem ampliar riscos cibernéticos e que as empresas precisarão reforçar seus mecanismos de defesa, inclusive recorrendo à própria inteligência artificial para combater novas ameaças.

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Para o professor, alertas de pesquisadores, funcionários e ativistas também cumprem uma função importante ao pressionar governos e empresas a observar os efeitos adversos da tecnologia, ainda que isso não resulte na paralisação do desenvolvimento.

Ter a voz contraditória, ter aquela pessoa que levanta essa bola é super relevante e importante”, afirmou. Ao mesmo tempo, Martins disse não considerar produtivo adotar previsões apocalípticas sobre a IA, defendendo que pessoas e empresas se preparem para utilizar a tecnologia.

Brasil precisa buscar espaço na corrida da IA

Para o Brasil, Martins não vê condições de disputar diretamente a liderança tecnológica com Estados Unidos e China, mas considera possível construir uma estratégia para reter profissionais qualificados e permitir que empresas brasileiras participem dos ganhos proporcionados pela IA.

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A gente não vai competir com esses caras. Nós não vamos competir com a China, com os Estados Unidos, mas a gente pode pelo menos reter mais cérebro”, afirmou. Para ele, o País também pode criar condições para que companhias brasileiras obtenham ganhos de produtividade com a adoção da tecnologia.

Na avaliação de Martins, a inteligência artificial já se tornou estratégica para governos, empresas, defesa e para a atividade profissional de cada cidadão. Em vez de concentrar esforços apenas no temor diante das transformações, o professor defendeu maior letramento tecnológico e preparação para incorporar as novas ferramentas às atividades cotidianas.

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