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China aposta no longo prazo e trata Trump como passageiro nas negociações, avalia pesquisadora da USP
Publicado 14/05/2026 • 14:20 | Atualizado há 4 semanas
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Publicado 14/05/2026 • 14:20 | Atualizado há 4 semanas
KEY POINTS
A recepção calorosa organizada pela China para Donald Trump durante o encontro com Xi Jinping em Pequim reflete uma estratégia diplomática calculada, avalia Kelly Ferreira, coordenadora do curso de Relações Internacionais da PUC-Campinas e pesquisadora do NUPRI Ásia da USP.
Em entrevista ao Real Time, jornal do Times Brasil — licenciado exclusivo da CNBC — nesta quinta-feira (14), ela afirmou que Pequim adotou um protocolo de alto prestígio por entender o perfil do presidente americano. “Trump foi recebido com toda a pompa, do jeito que ele gosta, porque Pequim sabe que ele tende a ser mais maleável quando é bajulado”, disse, ao comentar o encontro realizado na quarta-feira (13), em meio às tensões envolvendo a guerra entre Irã e Estados Unidos e às disputas comerciais entre Washington e Pequim.
Segundo Kelly Ferreira, a China passou a enxergar Trump como um interlocutor mais previsível na área comercial justamente por ele não ter trajetória política tradicional. “Pequim torcia por Trump porque ele é empresário e não um político de carreira, o que teoricamente facilitaria negociações”, afirmou.
Ela pondera, porém, que a imprevisibilidade do presidente americano provocou rearranjos importantes na Ásia. “Trump trouxe a imprevisibilidade, e isso forçou movimentos inesperados na região, como a aproximação entre China, Coreia e Japão para garantir estabilidade comercial”, destacou.
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Para a especialista, a principal diferença entre os dois líderes está na forma como cada governo lida com o tempo político e diplomático.
Enquanto Trump atua sob a pressão de um mandato limitado, Xi Jinping conduz um projeto geopolítico de longo prazo. “A estratégia de Pequim é baseada no fato de que Trump vai passar, enquanto o projeto chinês é pensado para décadas”, afirmou.
Kelly Ferreira acrescenta que a China busca manter os Estados Unidos afastados de sua área de influência e evitar escaladas desnecessárias em temas sensíveis, como tarifas e disputas tecnológicas. “Pequim conduz a política externa com calma estratégica e muitas vezes nem responde às provocações americanas”, disse.
Ela também observa que a tática de negociação de Trump já é conhecida por chineses e russos. “Trump costuma lançar uma proposta absurda para depois negociar algo menos absurdo, mas China e Rússia não caem nesse jogo”, afirmou.
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A presença de quase 20 grandes executivos americanos na comitiva reforçou o caráter econômico da visita, avalia a pesquisadora.
Entre os empresários estavam nomes ligados a gigantes da tecnologia e da indústria, como Tim Cook, Elon Musk e Jensen Huang. “Isso sinaliza que o objetivo de Trump nesta visita é muito mais econômico do que político”, disse.
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Segundo ela, as tarifas e retaliações comerciais dos últimos anos afetaram diretamente empresas americanas dependentes do mercado chinês, especialmente nos setores de tecnologia, semicondutores e veículos elétricos. “Ao levar esses empresários, Trump tenta sinalizar que os Estados Unidos querem vender e a China quer comprar, então é preciso negociar”, explicou.
Sobre a expectativa de que Xi Jinping pudesse pressionar o Irã em meio às tensões no Oriente Médio, Kelly Ferreira avalia que parte da comunidade internacional superestima a influência chinesa sobre Teerã.
“Xi Jinping pode até atuar como mediador entre EUA e Irã, mas não faria nada que colocasse o Irã como perdedor”, afirmou.
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Para ela, o Irã ocupa posição estratégica essencial para os interesses chineses, sobretudo em energia e geopolítica. “Pequim não arriscaria perder um aliado tão importante”, disse.
Em relação a Taiwan, a pesquisadora acredita que o encontro deve apenas preservar o equilíbrio diplomático atual. “O cenário mais factível é a manutenção do status quo: tudo certo, nada resolvido”, avaliou.
Segundo ela, Pequim deve reiterar o princípio de “Uma Só China”, enquanto os Estados Unidos tendem a evitar ampliar o apoio militar explícito à ilha para não agravar tensões.
Para Kelly Ferreira, o resultado mais concreto da reunião pode surgir justamente na área comercial, com ajustes pontuais em tarifas e exportações estratégicas. “Minha aposta é a manutenção ou ajuste em algumas tarifas de exportação de produtos específicos da China ou dos EUA”, afirmou.
A presença do grupo de empresários americanos ao lado de Trump reforça, segundo ela, a expectativa de avanços limitados, porém pragmáticos, em setores prioritários para as duas potências.
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