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Conflito no Oriente Médio

Guerra no Oriente Médio testa as ambições do Golfo de se tornar um polo de I.A.

Publicado 24/05/2026 • 11:03 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Catar disputavam espaço para se posicionar no centro do boom global da inteligência artificial, utilizando sua vasta riqueza soberana para expandir capacidade computacional.
  • A aposta do Golfo na IA foi construída sobre estabilidade e energia barata — algo que agora está sendo colocado à prova diante da possibilidade de uma guerra prolongada entre Estados Unidos, Israel e Irã.
  • O aumento do risco geopolítico na região pode afetar projetos ligados à inteligência artificial, disseram analistas à CNBC.

Oracle/Divulgação

A ambição dos países do Golfo de se tornarem um centro global de inteligência artificial está sendo colocada à prova, à medida que a possibilidade de um conflito prolongado no Oriente Médio levanta dúvidas sobre segurança energética, resiliência da infraestrutura e confiança dos investidores.

Antes do início da guerra, em fevereiro, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar disputavam espaço para se posicionar no centro do boom da IA, aproveitando a abundância de energia barata e a localização estratégica para incentivar hyperscalers a expandirem grandes redes de data centers na região.

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Mas dois data centers da Amazon nos Emirados Árabes Unidos foram alvo de ataques logo no início da guerra e, quase três meses depois, o petróleo segue em torno de US$ 100 por barril, enquanto o Estreito de Ormuz continua fechado.

Embora investidores e empresas envolvidos em infraestrutura de IA no Oriente Médio tenham dito à CNBC que seguem otimistas em relação ao futuro do setor na região, analistas afirmam que o aumento do risco geopolítico pode afetar projetos ligados à inteligência artificial. Decisões de investimento em alguns projetos de data centers na região foram suspensas ou estão demorando mais para avançar devido à continuidade do conflito.

“O conflito em andamento no Oriente Médio está colocando a infraestrutura de IA literalmente na linha de frente de uma forma que, há um ou dois anos, pareceria fora da realidade”, afirmou Trisha Ray, diretora associada e pesquisadora residente do Geotech Center, do Atlantic Council, à CNBC, em entrevista a Dan Murphy no dia 15 de maio.

A guerra “marcou uma mudança”, acrescentou ela. Antes, a gestão de riscos era focada em “ameaças cibernéticas e interrupções digitais, não em ameaças cinéticas. E isso mudou com os ataques de drones”, disse Ray.

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A aposta na IA

Nos anos anteriores à guerra, os países do Golfo transformaram a tecnologia avançada em um dos pilares centrais de seus planos de diversificação econômica, com veículos de investimento apoiados por fundos soberanos e estratégias nacionais de IA.

No centro dessa estratégia está a energia. O acesso da região do Golfo a abundantes hidrocarbonetos, capacidade de geração em larga escala e eletricidade relativamente barata tornou a área um destino atraente para data centers de alto consumo energético, que sustentam a infraestrutura de IA e computação em nuvem.

Os Emirados Árabes Unidos apoiaram grandes iniciativas por meio da plataforma de investimentos em IA MGX e da empresa local G42, considerada a “campeã” nacional de IA. Ambas foram fundadas pela Mubadala, investidora de Abu Dhabi com US$ 385 bilhões em ativos.

A Arábia Saudita pretende investir dezenas de bilhões de dólares em IA e infraestrutura de dados como parte da Vision 2030, por meio da HUMAIN, apoiada pelo Public Investment Fund (PIF), fundo soberano do reino que administra quase US$ 1 trilhão.

O Catar também vem investindo pesadamente em inteligência artificial e criou a empresa nacional Qai, subsidiária ligada ao Qatar Investment Authority, fundo soberano com quase US$ 600 bilhões em ativos, em parceria com a Brookfield.

Nesse contexto, empresas como Cisco, Oracle, Amazon Web Services (AWS), Microsoft e Google ampliaram investimentos em projetos e data centers na região ao lado de parceiros locais.

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Mas o conflito regional vem levando empresas responsáveis por projetos de IA a repensarem investimentos.

O CEO da Pure Data Center Group, Gary Wojtaszek — empresa controlada pela Oaktree — afirmou à CNBC em abril que a companhia suspendeu temporariamente decisões de investimento no Oriente Médio, embora siga com “planejamento e discussões” sobre projetos.

Os prazos também estão ficando mais longos. As decisões de investimento “estão levando mais tempo devido à natureza dos riscos associados a estar em uma região que enfrenta ameaças sérias”, afirmou Mark Richards, sócio do escritório de advocacia BCLP, que assessora grandes projetos de data centers, inclusive no Oriente Médio.

Segundo ele, riscos que não faziam parte da tese original de investimento agora estão sendo incorporados ao processo de avaliação.

Choque energético

Mercados do Golfo, como os Emirados Árabes Unidos, historicamente ofereciam preços relativamente baixos de energia para uso industrial, em torno de US$ 0,11 por kWh, contra US$ 0,25 a US$ 0,40 ou mais em partes da Europa.

Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, os mercados globais de energia foram abalados, e o fechamento do Estreito de Ormuz evoluiu para o que a Agência Internacional de Energia classificou como a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história.

O Brent disparou mais de 55%, saindo de cerca de US$ 72 por barril para quase US$ 120 no pico registrado nos últimos três meses.

Mesmo em países ricos em energia, a oferta barata já não é garantida. Nos Emirados Árabes Unidos, os preços do gás para consumidores subiram 30% em abril após mais de um mês de petróleo em patamares elevados.

Para o Golfo, as implicações estão se tornando estruturais. Mercados de energia mais apertados e o aumento da volatilidade pressionam governos a repassarem custos, especialmente para grandes consumidores industriais, como data centers.

Ativos estratégicos

Assim como os ativos energéticos da região, os data centers estão se tornando estrategicamente tão importantes quanto oleodutos.

Os ataques a data centers da AWS nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein no início da guerra foram inéditos e evidenciaram a vulnerabilidade de ativos que seguem sendo prioridade para governos do Golfo.

Trisha Ray, do Atlantic Council, acrescentou que os data centers precisarão ser “fisicamente reforçados”, podendo até mesmo ser construídos no subsolo. Ela também afirmou que empresas deveriam considerar “diversificar” a localização dessas estruturas fora dos países do Golfo, já que “a infraestrutura de data centers que os Emirados Árabes Unidos precisam para atingir suas ambições globais e regionais não necessariamente precisa estar localizada apenas nos Emirados”.

Questionada sobre uma possível suspensão de investimentos na região, a Amazon direcionou a CNBC a comentários feitos no início de abril pelo CEO Matt Garman, segundo os quais o entusiasmo da empresa “em investir no longo prazo na região continua tão forte quanto sempre foi”. Google e Microsoft se recusaram a comentar. Cisco e Oracle não responderam aos pedidos de posicionamento.

E agora?

Os principais players de IA da região insistem que a guerra não afetará suas ambições.

Um porta-voz da G42 afirmou à CNBC que “a direção da empresa permanece inalterada” e que sua “convicção apenas se fortaleceu”.

Segundo a empresa, a IA “se tornará tão fundamental para economias e sociedades quanto a eletricidade”. “Infraestruturas com esse nível de importância precisam suportar períodos difíceis sem perder sua forma”, acrescentou a G42.

O CEO da HUMAIN, Tareq Amin, afirmou à CNBC que a ambição da companhia “nunca se limitou à construção de data centers”.

“Estamos construindo toda a cadeia de IA — da infraestrutura crítica e capacidade computacional aos modelos, plataformas e aplicações de inteligência artificial”, disse.

Amin acrescentou que “a escala da Arábia Saudita é uma vantagem estratégica”, destacando a “grande extensão territorial”, os “abundantes recursos energéticos”, os “corredores de conectividade de classe mundial” e a capacidade de construir infraestrutura resiliente de IA em larga escala e no longo prazo.

“A futura economia da IA exigirá que os países pensem além de instalações isoladas e avancem para ecossistemas integrados de infraestrutura, projetados para confiabilidade, escalabilidade e alcance global”, afirmou.

Mark Richards, da BCLP, disse à CNBC que o escritório continua recebendo consultas para grandes projetos de data centers no Oriente Médio. Já Wojtaszek, da Pure DC, afirmou que a companhia segue “otimista” com a região e continua avançando em discussões de planejamento e investimentos para projetos nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita.

Mas o conflito “destruiu a ilusão de estabilidade de longo prazo no Golfo”, alterando o valor estratégico de investir na região, afirmou Aalok Mehta, diretor do think tank Center for Strategic and International Studies, à CNBC.

Segundo ele, futuros data centers provavelmente serão mais caros e levarão mais tempo para entrar em operação devido aos custos com reforço estrutural das instalações, tecnologias anti-drones, seguros mais caros e possíveis problemas prolongados nas cadeias de suprimento.

“A região demonstrou sua capacidade de mudar e se adaptar”, afirmou Tara Davies, co-chefe para Europa, Oriente Médio e África da gestora de private equity KKR, à CNBC em Abu Dhabi, no início deste mês.

“A IA está mudando todos os meses neste momento”, acrescentou. “Apesar da volatilidade de curto prazo na região e das incertezas imediatas, este é um jogo que dura décadas.”

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