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Fed deve manter juros estáveis, mas Warsh pode sinalizar novas altas

Publicado 27/10/2026 • 09:20 | Atualizado há 36 minutos

KEY POINTS

  • O mercado espera que o Fed mantenha a taxa básica de juros inalterada ao anunciar sua decisão nesta quarta-feira.
  • O foco estará no presidente Kevin Warsh, que prefere deixar que os mercados extraiam suas próprias conclusões dos dados, em vez de dependerem das sinalizações dos dirigentes do banco central.
  • A estratégia atual apresenta um “risco significativo de execução”, afirmou Krishna Guha, economista da Evercore ISI.
Edifício Marriner S. Eccles, sede do Federal Reserve em Washington

Federal Reserve / Wikimedia Commons (domínio público)

O Fed deve manter os juros estáveis nesta quarta-feira, mas a inflação persistente aumenta as expectativas de novas altas.

Os dirigentes do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) chegam à reunião de política monetária desta semana em meio a um debate crucial sobre o que a instituição pode, deve e efetivamente fará para enfrentar um problema de inflação que não dá sinais imediatos de desaparecer.

Quando o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), responsável por definir as taxas de juros, anunciar sua decisão nesta quarta-feira, a expectativa predominante do mercado é de manutenção dos juros básicos, após a elevação de 0,25 ponto percentual em setembro.

Os investidores, no entanto, estarão atentos a pistas sobre os próximos movimentos dos dirigentes, especialmente do presidente do Fed, Kevin Warsh.

Brett Ryan, economista-chefe para os Estados Unidos do Deutsche Bank, afirmou que acompanhará os sinais de Warsh sobre as futuras decisões de política monetária. O presidente do Fed já declarou ter forte resistência a esse tipo de sinalização, enquanto busca afastar a instituição da prática de forward guidance, ou orientação futura, adotada pela maior parte do século 21.

Warsh “provavelmente sinalizará que os dados recentes de inflação reforçam as expectativas da reunião de setembro de que novos apertos monetários serão necessários ao longo do tempo”, escreveu Ryan em uma nota a clientes. “No entanto, pular a reunião de outubro permite que os dirigentes tenham mais tempo para avaliar as tendências dos dados.”

Leia também: Federal Reserve está rapidamente ficando sem motivos para cortar as taxas de juros

Inflação ganha força

Os dados recentes de inflação trouxeram pouco alívio diante das pressões sobre os preços, que se intensificaram no início deste ano.

O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês), um dos indicadores de inflação mais acompanhados, mostrou que a taxa anual chegou a 3,7% em setembro, impulsionada principalmente pela disparada dos preços da energia. Mesmo excluindo os custos mais voláteis de combustíveis e alimentos, o núcleo do CPI apontou inflação de 2,6% – ainda bem acima da meta de 2% do Fed e em trajetória desfavorável, após avançar 0,3 ponto percentual em relação a agosto.

Ao mesmo tempo, dados econômicos recentes mostram que o mercado imobiliário enfrenta dificuldades crescentes diante das taxas de financiamento imobiliário acima de 7%.

O mercado de trabalho, por sua vez, entrou em um padrão de poucas demissões e poucas contratações. Nesse cenário, os desligamentos estão próximos dos níveis mais baixos desde o fim da década de 1960, enquanto as pessoas desempregadas enfrentam dificuldades para encontrar trabalho.

A definição da política monetária nessas condições é complicada pela intenção de Warsh de tornar o Fed mais imprevisível, evitando antecipar a direção dos juros e preferindo que os mercados tirem suas próprias conclusões a partir dos dados divulgados.

Uma pausa neste mês pode dar ao Fed mais tempo para avaliar os efeitos da alta anterior dos juros sobre a economia e as condições financeiras. Por outro lado, sinalizar uma política monetária mais restritiva pode aumentar a pressão sobre os mercados imobiliário e de trabalho.

Warsh e seus colegas precisam demonstrar que estão preparados para conter a inflação, sem assumir um compromisso prematuro sobre a magnitude ou a velocidade de eventuais novas altas dos juros.

Em essência, o Fed pode usar a taxa de juros para influenciar a inflação. É quase certo que a instituição adiará novas medidas enquanto avalia as condições atuais. Economistas e participantes do mercado, porém, divergem sobre qual deveria ser o próximo passo.

Leia também: Federal Reserve mantém expectativa de cortes de juros ainda em 2026, apesar da guerra

“Risco significativo de execução”

A possibilidade de um erro nessas circunstâncias é considerável, segundo Krishna Guha, chefe de economia e estratégia para bancos centrais da Evercore ISI.

“Deveria ser possível para Warsh – que está atento aos riscos de mercado, embora afirme não gostar de tratar os investidores com excesso de cuidado – demonstrar uma postura firme e tranquilizadora”, afirmou Guha em uma nota divulgada na segunda-feira. “Mas há um risco significativo de execução.”

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A falta de clareza do Fed sobre como avalia os riscos relacionados ao seu mandato duplo – manter a inflação baixa e promover o pleno emprego -, assim como sobre o ritmo e a intensidade do aperto monetário, representa desafios consideráveis.

Embora os dados de inflação tenham vindo elevados, a taxa de desemprego permaneceu relativamente estável.

O Fed também considera as condições financeiras ao definir sua política monetária. O índice de condições financeiras do Fed de Chicago mostrou um leve aperto desde a alta dos juros em setembro, resultado, entre outros fatores, da volatilidade do mercado acionário.

Declarações recentes de dirigentes importantes do Fed, como o vice-presidente Philip Jefferson e o presidente do Fed de Nova York, John Williams, apontam para a possibilidade de altas dos juros em reuniões alternadas. Ainda assim, não está claro até que ponto a instituição precisará avançar nesse processo.

Guha interpreta as declarações feitas por Warsh recentemente, durante reuniões do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Bangcoc, como alinhadas à “visão central” do Fomc.

Na prática, isso significa que o Fed seguiria um ritmo básico deliberado e metódico, com uma alta a cada trimestre, sem antecipar decisões e mantendo a possibilidade de ajustar o curso conforme os novos dados indiquem a necessidade de ir mais longe ou acelerar o processo.

“Se a inflação continuar decepcionando e/ou o ritmo de crescimento não desacelerar, o Fed fará novas altas de juros”, acrescentou.

Leia também: Trump nomeia Kevin Warsh como novo presidente do Federal Reserve

Incertezas à frente

As negociações de contratos futuros da taxa dos Fed Funds indicam uma probabilidade de aproximadamente 10% de que o Fomc eleve os juros nesta semana, mas apontam uma chance superior a 80% de aumento em dezembro, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group.

O mercado também considera provável uma nova alta em março de 2027. Depois disso, as chances de um último aumento antes do fim do próximo ano ficam próximas de 50%.

Há, contudo, divergências significativas entre economistas sobre a necessidade de o Fed apertar a política monetária. Economistas do Citigroup, por exemplo, acreditam que uma desaceleração da inflação nos próximos meses dará motivos para o banco central manter os juros estáveis e talvez começar a reduzi-los no próximo ano. Ainda assim, a instituição prevê uma alta em dezembro.

Mohamed El-Erian, principal consultor econômico da Allianz, afirmou esperar novos aumentos dos juros, mas considera essa estratégia um erro, pois prejudicaria setores vulneráveis, como o mercado imobiliário, e agravaria as desigualdades econômicas.

“Minha impressão é que o mercado está certo ao dizer que eles não farão nada. [Warsh] terá de apresentar essa decisão em uma linguagem bastante dura, porque os dados de [inflação] vieram todos acima do esperado”, disse El-Erian na segunda-feira, durante o programa Squawk Box, da CNBC.

“Meu problema é que essa é a medida de política econômica errada neste momento”, acrescentou.

A resposta às preocupações com a inflação e com a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano deveria ser um “ajuste fiscal, e não um aperto monetário”, afirmou.

“Mas teremos um aperto monetário, e isso criará o que chamo de problema do ‘um menos X’. O ‘X’ é a tecnologia, que não será tão afetada”, disse El-Erian. “O restante da economia será atingido: o mercado imobiliário, os financiamentos de veículos e os empréstimos ao consumidor. É isso que sofrerá o impacto.”

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