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Milei: negociar com a China ou agradar a Trump? Entenda o dilema do presidente argentino
Publicado 04/02/2026 • 12:21 | Atualizado há 3 meses
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Publicado 04/02/2026 • 12:21 | Atualizado há 3 meses
KEY POINTS
Enquanto o presidente americano, Donald Trump, critica os aliados dos Estados Unidos por sua reaproximação com a China, seu principal parceiro ideológico na América Latina, Javier Milei, encontra-se em uma posição delicada, dados os laços comerciais e financeiros cruciais de Buenos Aires com Pequim.
Esse dilema foi mais uma vez exposto quando Milei declarou, no início de janeiro, que planeja viajar à China este ano, em um momento em que Trump pressiona para impor a supremacia dos EUA nas Américas.
Durante a campanha que o levou à presidência em 2023, Milei prometeu que não faria “negócios com a China” nem “com nenhum comunista”. No entanto, após ser eleito, adotou uma postura mais pragmática.
Essa mudança se consolidou após a renovação, em 2024 e 2025, da parcela ativa do acordo de swap cambial (troca de moedas) com a China, equivalente a US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões). A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e investe milhões em energia, lítio e infraestrutura no país.
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O comércio com Pequim está em ascensão e representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações no ano passado, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).
Desde a renovação do acordo de swap cambial em 2024, Milei tem insistido em seus planos de visitar a China. Até o momento, nem a Presidência da Argentina nem a embaixada chinesa em Buenos Aires responderam aos questionamentos da AFP sobre a possibilidade dessa viagem.
Enquanto isso, o autoproclamado anarcocapitalista mantém um alinhamento firme com os Estados Unidos sob a administração Trump, que busca distanciar a China da região.
“Esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel, que é uma posição praticamente única no mundo, obviamente entra em conflito com a promoção de relações mais estreitas com a China”, disse à AFP Patricio Giusto, diretor do Observatório Sino-Argentino.
Doutrina Donroe
Os Estados Unidos pretendem reafirmar sua hegemonia regional por meio de uma reinterpretação da Doutrina Monroe, promovida por Trump e apelidada de “Doutrina Donroe”, segundo a qual Washington pode intervir na América Latina se considerar que seus interesses estão ameaçados.
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“A Argentina é um Estado-chave no hemisfério, e não apenas no continente, nessa busca por legitimidade de liderança que Donald Trump está empreendendo”, disse à AFP Florencia Rubiolo, diretora do Insight 21, centro de análises da Universidade Siglo 21.
Nas últimas semanas, Milei elogiou os ataques militares dos Estados Unidos na Venezuela que levaram à captura de Nicolás Maduro e disse estar honrado em assinar o Conselho da Paz idealizado por Trump.
Em outubro, Milei recebeu uma linha de ajuda financeira de US$ 20 bilhões de dólares (R$ 107,6 bilhões, na cotação da época) de Washington, um forte endosso em meio a uma crise política e cambial antes das eleições legislativas, que seu partido venceu.
“Não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, disse o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, na época.
Durante o mandato de Milei, dois comandantes do Comando Sul dos EUA visitaram uma base argentina em construção em Ushuaia, a cidade mais meridional do país.
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Na semana passada, parlamentares americanos também chegaram a Ushuaia, em um momento em que a China aumenta sua presença no Polo Sul. Eles também visitaram o enorme campo de xisto de Vaca Muerta em Neuquén, a segunda maior reserva mundial de gás não convencional e a quarta maior de petróleo de xisto, acompanhados por representantes da petroleira estatal YPF.
“Milei tenta separar a relação econômica, especialmente os laços comerciais com a China, de seu completo alinhamento geopolítico com os Estados Unidos. O dilema é se essa separação pode ser sustentada ao longo do tempo, principalmente se Donald Trump começar a impor condições também ao comércio”, disse Giusto.
“Impraticável”
Milei afirmou em Davos, em janeiro, que “a China é uma grande parceira comercial” que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados” e que isso “não entra em conflito” com seu alinhamento com os Estados Unidos.
“Governo para 47,5 milhões de argentinos e tomo as decisões que melhor beneficiam os argentinos”, disse ele na ocasião. “Quero uma economia aberta”, enfatizou.
Para Giusto, a relação com a China avança devido à “pura inércia da grande complementaridade econômica” entre os dois países.
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Segundo o Indec, 70% das exportações argentinas para a China em 2025 foram compostas por soja, carne bovina e lítio. A abertura econômica do governo de Milei facilitou a entrada de produtos de consumo chineses.
Em 2025, as importações “door to door” (porta a porta), lideradas por Temu e Shein, cresceram 274,2%, de acordo com dados oficiais. Outro exemplo foi a chegada, em janeiro, de cerca de 5.000 carros elétricos da marca chinesa BYD.
“Para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável, (porque) a China é insubstituível como parceira“, observou Rubiolo.
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