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O que explica a inflação no Japão, que voltou a superar a meta e pressiona o Banco Central

Publicado 28/10/2026 • 16:33 | Atualizado há 10 minutos

KEY POINTS

  • O núcleo da inflação japonesa chegou a 2,1% em setembro, acima da meta de 2%. O índice que exclui alimentos frescos e energia acelerou de 1,9% para 2,4%, sinal de que a pressão não vem só do petróleo.
  • A alta junta um choque externo, com energia cara por causa da guerra no Oriente Médio e importações encarecidas pelo iene fraco, e um fator interno: o repasse dos salários num mercado de trabalho apertado.
  • O Banco do Japão elevou os juros para 1,25% em setembro, o maior nível em 31 anos, mas o governo pediu cautela nas próximas altas.
cédula de iene yene japonês Japão moeda japonesa

Midjourney

Durante quase três décadas, o problema do Japão foi a falta de inflação. Preços parados ou em queda travavam o consumo, e o Banco do Japão (BoJ) manteve os juros perto de zero, ou abaixo disso, para tentar reanimar a economia. Agora, a preocupação é a oposta. Em setembro, o núcleo da inflação, que exclui alimentos frescos, subiu 2,1% em 12 meses e voltou a superar a meta de 2% do banco central, algo que não acontecia havia nove meses.

O número em si é modesto para os padrões internacionais. O que chama a atenção dos economistas é a origem da alta. Ela junta um choque vindo de fora, que tende a passar, e uma pressão interna, que pode ser mais duradoura.

O choque externo: energia e câmbio

A primeira explicação está no petróleo. O Japão importa quase toda a energia que consome, e a guerra no Oriente Médio encareceu o petróleo e o gás. O efeito não fica restrito à gasolina: chega aos alimentos processados, que dependem de energia para serem produzidos e transportados.

O câmbio amplia o problema. Com o iene fraco, cada barril de petróleo e cada produto importado custam mais na moeda japonesa. Em julho, o governo chegou a ser apontado como responsável por uma compra de ienes no mercado de Nova York, num sinal de preocupação com o impacto da moeda fraca sobre as famílias.

Os subsídios do governo para combustíveis e contas de luz aliviaram parte do impacto, mas não impediram a alta. A forte demanda ligada à inteligência artificial também pressiona os preços.

A pressão interna: salários e aluguel

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Se a inflação viesse só da energia, o banco central poderia tratá-la como passageira. Mas outros indicadores apontam para algo mais amplo. O índice que exclui alimentos frescos e energia, usado pelo BoJ para medir a pressão da demanda interna, subiu 2,4% em setembro, contra 1,9% em agosto.

Por trás desse movimento está o mercado de trabalho. Com falta de mão de obra, os salários sobem, e as empresas repassam o custo aos preços. A inflação de serviços, mais ligada à mão de obra, passou de 1,2% para 1,5%. Os aluguéis subiram no maior ritmo em quase 25 anos, segundo Abhijit Surya, da consultoria Capital Economics.

É justamente esse tipo de inflação que o BoJ buscou por anos, com salários e preços subindo juntos. A diferença é que agora ela chega somada ao choque de energia e câmbio.

O dilema do Banco do Japão

O Banco Central já reagiu. Em setembro, elevou os juros para 1,25% ao ano, o maior nível em 31 anos. Em julho, o presidente do BoJ, Kazuo Ueda, havia avisado que adiar as medidas necessárias, num momento em que há risco de a inflação ultrapassar a meta, “poderia concretizar esse risco e prejudicar a economia”.

Mas o caminho não é consenso. O resumo da reunião de setembro mostrou que parte dos diretores defendia acelerar as altas, enquanto um representante do governo pediu cautela. Juros mais altos ajudam a valorizar o iene e conter os preços, mas encarecem o crédito numa economia que cresce pouco.

O mercado espera que o BoJ mantenha os juros na reunião desta quinta-feira, mas revise para cima as projeções de inflação. “Com a inflação subjacente de volta acima da meta de 2% do Banco do Japão, os argumentos para mais aperto continuam sólidos”, disse Surya. Para ele e para Masato Koike, economista sênior do Sompo Institute Plus, ouvido pela Reuters, a próxima alta deve vir em dezembro.

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