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Oficial alerta para nível “crítico” no estoque de mísseis Patriot dos EUA na Europa

Publicado 27/08/2026 • 19:12 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Os EUA enfrentam escassez de interceptores Patriot na Europa, com capacidade “muito limitada” para lidar com um eventual ataque prolongado de mísseis balísticos russos.
  • Cerca de 1.500 dos 2.330 mísseis Patriot americanos, ou 65% do estoque, foram utilizados no conflito com o Irã, segundo o CSIS.
  • Cerca de 600 mísseis devem ser produzidos neste ano, enquanto a meta é chegar a 2 mil Patriots por ano até 2030. A primeira fábrica europeia deverá ser inaugurada na Alemanha em setembro.

Imagem: GETTY IMAGES

As Forças Armadas dos Estados Unidos enfrentam uma escassez considerada “mais do que crítica” de interceptores avançados de mísseis na Europa, situação atribuída em grande parte à guerra do presidente Donald Trump contra o Irã. A avaliação foi feita por um oficial de defesa americano na Europa e por um representante da Otan ouvidos pela Associated Press (AP).

A principal preocupação está relacionada aos interceptores Patriot, capazes de destruir mísseis balísticos russos de alta velocidade, segundo o oficial americano. O representante da Otan confirmou que os estoques de Patriots das forças dos Estados Unidos e da aliança na Europa estão baixos. Os dois falaram sob condição de anonimato por se tratar de questões militares sensíveis.

“Em uma eventual ofensiva russa com mísseis balísticos contra um alvo como um quartel-general militar ou uma usina de energia, a Otan poderia enfrentar uma situação semelhante à vivida pela Ucrânia, que sofre com a escassez de mísseis Patriot. Nesse cenário, a aliança poderia ser obrigada a levar golpe após golpe”, afirmou o oficial de defesa americano.

Segundo ele, as forças americanas na Europa “definitivamente” não possuem Patriots suficientes para impedir um ataque prolongado com mísseis balísticos. A capacidade de defesa contra um único ataque desse tipo, ou contra um míssil russo que saísse de sua trajetória, também seria “muito limitada”.

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A situação expõe os efeitos da decisão de Trump de iniciar uma guerra contra o Irã, conflito que completa seis meses nesta sexta-feira, 28. Parte dos estoques americanos de mísseis que estavam na Europa foi transferida para o Oriente Médio, onde os Estados Unidos e seus aliados do Golfo utilizaram um número significativo de interceptores, incluindo Patriots, para conter drones e mísseis iranianos. Alguns desses ataques deixaram militares americanos mortos e feridos.

Embora não exista expectativa de um ataque iminente de mísseis balísticos russos contra países da Otan, o diretor da CIA, John Ratcliffe, esteve em Moscou nesta semana para alertar a Rússia contra uma eventual ofensiva, informou o The Wall Street Journal.

Questionado nesta quinta-feira, 27, por jornalistas sobre se Ratcliffe havia transmitido essa mensagem diretamente ao presidente russo, Vladimir Putin, Trump respondeu de forma evasiva.

“Não quero comentar sobre isso, mas eles não vão atacar”, disse o presidente.

Autoridades europeias e da Otan avaliam que a Rússia poderá estar em condições de atacar países da aliança até 2030. A expectativa é que, até lá, os estoques de mísseis Patriot tenham se recuperado. Enquanto isso, a guerra da Rússia contra a Ucrânia pode limitar a capacidade de Moscou de conduzir uma ofensiva com mísseis contra a Europa, uma vez que seria difícil para o país sustentar uma guerra aérea em duas frentes.

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O coronel do Exército americano Martin O’Donnell, porta-voz militar sênior da Otan, contestou a avaliação de que a quantidade de mísseis Patriot disponível na Europa esteja abaixo de um nível crítico. Segundo ele, a Otan é capaz de “bloquear golpes” e possui munição de defesa aérea suficiente tanto para sua própria proteção quanto para fornecer armamentos à Ucrânia.

O principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, também rejeitou as alegações de escassez. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, ele afirmou que as informações sobre falta de munição nos Estados Unidos “são falsas”.

“Temos tudo o que é necessário para atacar no momento e no local escolhidos pelo presidente”, disse Parnell.

De acordo com o porta-voz, operações bem-sucedidas já foram realizadas em diferentes comandos militares, enquanto os Estados Unidos mantêm um arsenal amplo e pronto para defender sua população e seus interesses.

Apesar das garantias americanas, autoridades ucranianas continuam pressionando por mais mísseis Patriot para enfrentar os ataques russos. Transferências anteriores realizadas pelos Estados Unidos para a Ucrânia já haviam reduzido parte dos estoques americanos desses interceptores.

Kiev afirma que os Patriots, fabricados nos Estados Unidos, são os únicos sistemas capazes de interceptar os avançados mísseis balísticos russos, que vêm atravessando as defesas ucranianas com frequência cada vez maior.

Ao longo dos quatro anos e meio de guerra, os Estados Unidos forneceram centenas de mísseis Patriot à Ucrânia. Para Ed Arnold, pesquisador sênior do Royal United Services Institute, em Londres, porém, a guerra contra o Irã foi o ponto de inflexão para a redução dos estoques.

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Segundo Arnold, o fornecimento de interceptores à Ucrânia foi planejado e dimensionado de maneira razoável. Já o consumo de mísseis no Oriente Médio ocorreu de forma inesperada e acelerada, revelando limitações na cadeia de suprimentos. As forças americanas na Europa também enfrentam uma escassez considerada crítica de mísseis do Sistema de Mísseis Táticos do Exército (Atacms, na sigla em inglês), utilizados contra alvos situados atrás das linhas inimigas, segundo os dois oficiais.

O quadro geral de munições na Europa, porém, é menos grave do que o observado nas defesas aéreas. Algumas forças europeias possuem seus próprios mísseis de ataque, como o Taurus e o Storm Shadow, ambos de longo alcance, lançados do ar e capazes de destruir bunkers.

Europa tem poucas alternativas

A falta de interceptores Patriot na Europa reduziria as opções disponíveis para enfrentar os mísseis balísticos russos mais avançados. Esses armamentos podem ser empregados em conjunto com grandes enxames de drones baratos, capazes de sobrecarregar os sistemas de defesa, segundo especialistas.

A Ucrânia e alguns países aliados já utilizam sistemas capazes de destruir drones mais lentos sem precisar recorrer a mísseis de alto custo. Os mísseis balísticos, entretanto, apresentam um desafio maior. Eles voam em alta velocidade e podem atingir alvos a mais de cinco vezes a velocidade do som, deixando pouco tempo para uma interceptação.

O sistema Patriot rastreia o míssil, calcula sua trajetória e dispara o interceptor em questão de minutos. Cada bateria, contudo, possui uma área limitada de proteção, como uma pequena base militar, por exemplo, e não é capaz de proteger uma cidade inteira.

Uma alternativa seria o sistema de defesa aérea SAMP/T NG, desenvolvido conjuntamente por França e Itália. Paris prometeu acelerar a entrega da versão modernizada do equipamento à Ucrânia. Segundo o fabricante, o sistema tem maior capacidade para interceptar mísseis balísticos.

A nova versão, porém, ainda não foi testada em combate, enquanto o modelo atual do SAMP/T possui alcance inferior ao Patriot. Estados Unidos e países europeus também contam com navios de guerra que podem funcionar como plataformas móveis de defesa aérea. Essas embarcações, entretanto, podem estar longe demais de determinado alvo para protegê-lo e também estão expostas ao risco de serem afundadas.

Guerra com o Irã consumiu grande parte dos Patriots

A Ucrânia começou a receber mísseis Patriot dos arsenais americanos e europeus após a invasão russa de 2022.

Durante o governo de Joe Biden, os Estados Unidos forneceram cerca de 600 interceptores, segundo Mark Cancian, coronel aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais e consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington.

O maior consumo, entretanto, ocorreu durante o conflito com o Irã. De acordo com o CSIS, 65% dos mísseis Patriot americanos foram utilizados na guerra, o equivalente a aproximadamente 1.500 de um estoque de 2.330 interceptores. Cerca de 600 mísseis, incluindo aqueles destinados à Europa, devem ser produzidos neste ano. A meta é alcançar a produção de 2 mil Patriots por ano até 2030, segundo Cancian.

A Otan afirma que a primeira fábrica de produção de mísseis Patriot na Europa deverá ser inaugurada na Alemanha em setembro. As primeiras entregas podem começar no início do próximo ano, com prioridade para países que já fizeram encomendas, entre eles Alemanha, Holanda, Romênia e Espanha, segundo o oficial de defesa americano.

Até que isso aconteça, alguns países, como a Alemanha, compraram sistemas Patriot de alto custo, mas se encontram na situação “ridícula” de não possuir munição suficiente para utilizá-los, afirmou Arnold.

O Ministério da Defesa da Alemanha informou que não comenta sobre seus estoques de armas.

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