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Democracias perdem poder econômico e atingem pior nível em 50 anos
Publicado 27/03/2026 • 16:00 | Atualizado há 4 meses
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Publicado 27/03/2026 • 16:00 | Atualizado há 4 meses
KEY POINTS
Segundo o Relatório da Democracia 2025, pela primeira vez em mais de duas décadas o mundo tem mais governos autocráticos do que democráticos.
Pela primeira vez em mais de duas décadas, o mundo tem mais governos autocráticos do que democráticos. O dado, extraído do Relatório da Democracia 2025, do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia, além de estatistico, tem peso econômico.
Em termos de poder econômico, as democracias vivem o momento mais fraco em mais de 50 anos, e 72% da população mundial já vive sob regimes autocráticos, o maior índice desde 1978.
O estudo, que mede anualmente a qualidade das democracias ao redor do mundo, aponta que os países maiores, mais populosos e economicamente mais poderosos são os principais responsáveis por esse avanço. Muitos deles exercem influência direta sobre países vizinhos, organizações internacionais, cooperações multilaterais, comércio e investimentos.
Rússia e China são os exemplos mais evidentes: grandes potências que protagonizam a economia internacional sob governos classificados como autocráticos.
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O economista e professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, José Niemeyer, explica como esse modelo funciona na prática. “O Estado chinês acaba determinando os rumos da economia privada chinesa, e também das relações econômicas da China com outras empresas e agentes econômicos internacionais, geralmente no campo privado”, afirma.
Para Niemeyer, a estrutura estatal chinesa favorece empresas públicas e estatais na disputa com concorrentes privadas e internacionais. “Tem toda essa estrutura de um Estado apoiando essas empresas, então você acaba tendo uma baixa institucionalidade com relação ao mundo dos negócios.”
O conflito no Oriente Médio, desencadeado pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, reforça o argumento do estudo. O mundo observa o peso econômico de mais um governo autocrático. Antes disso, a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo norte-americano já havia balançado o mercado petrolífero em janeiro. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo, a crise de combustíveis se tornou global.
No livro “Como as Democracias Morrem”, Daniel Ziblatt e Steven Levitsky já alertavam que o enfraquecimento das instituições democráticas abre espaço para o aumento da incerteza. O Relatório V-Dem aponta como causas do declínio a disseminação de discursos de ódio, a polarização e a desinformação.
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Siga o Times | CNBCO economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena vai na mesma direção. “Na prática, a globalização como um todo, as fake news e os fatores da internet pioram, de maneira generalizada, o índice de democracias do mundo”, avalia.
O paradoxo incomoda os especialistas. Democracias deveriam, em tese, oferecer mais liberdade econômica. “O que a gente sempre estudou na academia é que, quanto mais democracia, mais liberdade você teria para os negócios, para os agentes econômicos, com alguma participação do Estado, mas com o mercado também participando”, explica Niemeyer. Para ele, sociedades menos desiguais produziriam um efeito econômico mais positivo, com políticas públicas eficientes e presença estatal que não descambe para o autoritarismo.
No estudo, o Brasil aparece classificado como “democracia eleitoral”: tem eleições livres, voto universal, competição entre partidos e liberdade de expressão. Estão no mesmo grupo Polônia, México, Argentina e, num dos dados mais impactantes do relatório, os Estados Unidos, que até então mantinham o status de democracia liberal.
Igor Lucena avalia que a democracia brasileira está consolidada, mas aponta uma tensão interna. “O que torna, ao meu ver, extremamente complexo no Brasil, é o fato dos nossos três poderes não estarem em seus devidos lugares”, diz. Apesar de a separação dos poderes estar prevista na Constituição de 1988, o debate sobre a atuação do Judiciário, em especial do STF, em áreas do Executivo e do Legislativo, segue aberto.
Niemeyer, por sua vez, vê oportunidade. “O Brasil é um país longe do centro de estrutura, uma democracia de massas, com muitos recursos e setores muito poderosos como o agronegócio e o setor de serviços”, aponta. “Tem que estar aberto a receber investimento direto e continuar exportando e importando, formando parcerias com países de todo o sistema internacional”, reforça.
O professor também destaca a corrupção como um dos maiores obstáculos ao pleno desenvolvimento democrático do país. Para ele, quando o Judiciário age com integridade, a sociedade encontra mais liberdade para se beneficiar do progresso econômico. “É importante que a democracia permaneça como uma estrutura perene no Brasil. Temos que aprimorar as estruturas do sistema político para que a democracia funcione de forma conjunta com o progresso econômico.”
O Instituto V-Dem, por meio de sua iniciativa “Em Defesa da Democracia”, aponta que o fortalecimento de instituições, a proteção de liberdades civis e o engajamento da sociedade são os caminhos para frear o avanço da autocratização.
Os especialistas avaliam que o autoritarismo, ao menos por ora, ainda não compromete de forma aguda o sistema econômico global. Para Igor Lucena, dentro de um sistema capitalista, a estabilidade vale mais do que o modelo político que a sustenta. “Independentemente de ser uma estabilidade democrática ou autocrática. Com a estabilidade, o planeta cresce. A instabilidade gera falta de investimento, falta de crescimento.”
Niemeyer pondera que a ineficiência e a baixa transparência dos regimes autocráticos tendem a fragilizar suas economias no longo prazo. E defende sua aposta. “É melhor que, nos quase 200 países que formam o sistema internacional, você tenha sistemas onde prevalece a democracia, com o mercado e também com o Estado atuante naquilo que é importante para ajudar a redistribuir e render riqueza para populações em específico.”
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