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Tarifas do Trump

Tarifas de Trump: decisão da Suprema Corte pode mexer com dólar, juros e Brasil; saiba mais

Publicado 20/02/2026 • 10:30 | Atualizado há 5 meses

KEY POINTS

  • Suprema Corte começa nesta sexta-feira (20) a decidir sobre legalidade das tarifas de Trump
  • Julgamento pode impactar dólar, juros e mercados emergentes
  • Brasil pode ganhar ou perder competitividade conforme decisão

As tarifas impostas por Donald Trump aos produtos importados, que pareciam superadas, voltaram a ganhar destaque nesta sexta-feira (20), quando a Suprema Corte dos Estados Unidos decide sobre a legalidade do pacote comercial anunciado em abril de 2025.

O julgamento pode redefinir os limites do poder presidencial na política comercial americana e provocar efeitos imediatos no dólar, nos juros dos EUA, no comércio global e nas economias emergentes, incluindo o Brasil.

Em discussão está o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), de 1977. Trump invocou a norma para aplicar sobretaxas de até 50% sem autorização do Congresso. Pela Constituição americana, cabe ao Legislativo instituir impostos e tarifas.

Treze decisões em instâncias inferiores rejeitaram os argumentos do governo. Agora, a palavra final será da Suprema Corte.

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Tarifas e o teste institucional nos EUA

O julgamento ultrapassa a esfera comercial. A disputa envolve o limite do Executivo para agir unilateralmente em comércio exterior e a interpretação do conceito de “emergência econômica”.

Segundo a economista Mariana Almeida, o ponto de maior cuidado está na ampliação desse conceito. “Trump trouxe um conceito de emergência econômica bastante alargado, misturando defesa militar e economia, falando em soberania. Se ele vence, essa interpretação fica legitimada e a instabilidade que já vivemos passa a ser a regra formalizada pela lei americana”, afirma.

Para ela, a decisão terá peso institucional. “Há um debate sobre democracia e sobre o papel esperado na relação entre Executivo e Legislativo. Isso vai gerar discussão independentemente do resultado”, diz.

Caso a Suprema Corte valide as tarifas, consolida-se a leitura de que o presidente pode recorrer a instrumentos emergenciais para impor barreiras amplas sem consulta ao Congresso. Se considerar ilegais as sobretaxas, abre-se um impasse jurídico e fiscal, envolvendo ao menos US$ 90 bilhões já arrecadados.

Tarifas, dólar e juros

O mercado financeiro acompanha o julgamento com atenção. Se as tarifas forem mantidas, o cenário de inflação mais resistente nos EUA tende a persistir. Produtos importados mais caros pressionam os preços domésticos.

Nesse ambiente, o Federal Reserve pode manter juros elevados por mais tempo. Juros altos aumentam a atratividade dos títulos americanos e fortalecem o dólar ao atrair capital estrangeiro.

Para Mariana Almeida, a vitória de Trump consolida o ambiente atual. “Se ele ganha, o cenário que temos hoje segue. As tarifas continuam valendo, o risco de novas medidas permanece, e essa lógica de decisão concentrada no Executivo fica legitimada”, afirma.

Um dólar mais forte pressiona moedas emergentes e pode manter o real depreciado. Por outro lado, se a Suprema Corte derrubar as tarifas, o impacto pode ser duplo: econômico e institucional.

Sem a pressão inflacionária das sobretaxas, o Fed teria maior margem para flexibilizar a política monetária no médio prazo. Isso reduziria a atratividade do dólar e poderia estimular fluxo de recursos para mercados emergentes.

Mas o efeito não seria linear. “Se ele perde, há uma discussão sobre devolução de valores. Cada empresa teria que pedir caso a caso. Isso pode abrir uma bagunça do ponto de vista fiscal nos Estados Unidos”, avalia Mariana.

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Segundo ela, haveria também impacto de credibilidade. “A perda de credibilidade já está colocada pelas incertezas. Uma derrota pode acelerar isso e gerar questionamentos sobre gestão fiscal”, diz.

O que muda para o Brasil

O Brasil foi atingido em diferentes fases do pacote de tarifas. Em abril de 2025, os EUA aplicaram taxa adicional de 10% sobre produtos brasileiros. Em julho, a alíquota subiu para até 50%, com lista de exceções. Em novembro, parte das sobretaxas foi retirada após negociações bilaterais.

Hoje, exportações brasileiras se dividem entre produtos isentos e mercadorias ainda sujeitas a tarifas elevadas.

Se Trump vencer, exportadores brasileiros continuam enfrentando custos mais altos e ambiente comercial volátil. “Significa que aquele tarifácio considerado arbitrário segue. E permanece o risco de novas medidas”, diz Mariana.

Se perder, abre-se espaço para revisão do cenário. “As perdas podem ser retomadas. Os padrões conhecidos antes do governo Trump tendem a se reestabelecer. Mas isso não elimina a incerteza sobre como ele vai reagir”, afirma.

Ela ressalta que a reação política do presidente pode gerar nova rodada de tensão. “Ganhando ou perdendo, há uma camada adicional de instabilidade. Se ele ganha, legitima o que fez. Se perde, dificilmente aceita passivamente”, diz.

Nova lógica global

Para Mariana Almeida, o julgamento ocorre em um ambiente já alterado. “O Donald Trump já é um fenômeno que mudou a economia e a política internacionais. A arbitrariedade na gestão dos preços relativos e a redução do multilateralismo já estão postas”, afirma.

A decisão da Suprema Corte pode consolidar ou tensionar ainda mais esse movimento. No caso de derrota, o governo pode buscar outras bases legais para sustentar barreiras comerciais, como segurança nacional ou alegações de práticas desleais.

Isso significa que o julgamento não encerra o ciclo de incertezas. “Qualquer resultado vai mobilizar o mercado e a atividade econômica internacional. Mexe com expectativas e cria tensão adicional”, diz Mariana.

Brasil deve acelerar acordos?

Diante do cenário, surge a pergunta: o Brasil deveria acelerar acordos comerciais ou estratégias de diversificação?

Para Mariana Almeida, a resposta já está em curso. “Desde o ano passado há um sinal claro de instabilidade vindo dos Estados Unidos. Isso exige diversificação e preparação para vários cenários. Quanto mais exposto ao mercado americano, maior o risco”, afirma.

Ela avalia que o país precisa operar com lógica de gestão de risco permanente. “É preciso esperar o inesperado. Decisões podem vir para o bem ou para o mal. O ambiente mudou”, diz.

Independentemente do resultado desta sexta-feira, o julgamento das tarifas ultrapassa a disputa comercial. Trata-se de um teste sobre o equilíbrio institucional nos EUA e sobre o rumo da política econômica global — com reflexos diretos no dólar, nos juros e nas exportações brasileiras.

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