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Trump passa a vender acesso antecipado a posts no Truth Social; especialistas veem riscos para investidores e mercados

Publicado 03/08/2026 • 09:15 | Atualizado há 60 minutos

KEY POINTS

  • O Truth Social passou a monetizar as postagens realizadas pelo perfil oficial do presidente dos Estados Unidos.
  • Assinantes do serviço terão acesso às postagens de Trump em tempo real, antes da distribuição convencional aos demais usuários.
  • Serviço custa mais de US$ 100 mil por mês; primeiros assinantes já iniciaram processo de cadastro.

A Trump Media & Technology Group (TMTG), empresa responsável pelo Truth Social, lançou um serviço de assinatura voltado a bancos, fundos e empresas de trading que oferece acesso mais rápido às publicações de contas influentes da plataforma — em especial o perfil oficial do presidente americano Donald Trump.

Batizada de Truth API, a ferramenta, lançada no último sábado (01), permitirá que clientes pagantes acompanhem as postagens em tempo real, antes da distribuição convencional aos demais usuários. Para especialistas ouvidos com exclusividade pelo Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, a iniciativa pode ampliar a desigualdade no acesso à informação e provocar debates sobre transparência e regulação dos mercados.

Segundo o Washington Times, o serviço custa mais de US$ 100 mil por mês. A empresa informou que os primeiros interessados já iniciaram o processo de cadastro.

Embora o presidente Trump não seja citado no comunicado oficial, o presidente dos Estados Unidos é o principal usuário da plataforma, onde costuma anunciar decisões sobre política econômica, tarifas, conflitos internacionais e outros temas com potencial de repercussão nos mercados.

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Debate sobre regulação

O lançamento ocorre dias após os senadores democratas Adam Schiff e Elizabeth Warren solicitarem que a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) investigue se o novo serviço pode violar normas do mercado financeiro.

Para Wiliander Salomão, pós-doutor em Direito Internacional e vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB-MG, a legislação americana ainda não oferece uma resposta clara para esse tipo de serviço.

“Não há uma lei que se aplique diretamente a esse caso. Os posts são públicos e, mesmo que sejam vendidos com alguns milissegundos de vantagem, não são tecnicamente informação não pública no sentido tradicional da legislação sobre valores mobiliários”, afirma.

Segundo ele, ainda assim o modelo deve gerar discussões sobre incompatibilidade de funções e eventual atuação da SEC. “Pode haver enquadramento por conflito de interesse ou sob teorias de manipulação de mercado, mas essa também é uma zona cinzenta que carece de regulação”, diz.

Venda de velocidade preocupa especialistas

Na avaliação de Salomão, o diferencial da Truth API não está no conteúdo, mas no tempo de acesso às informações.

“A diferença central é que esse serviço vende velocidade de acesso. Esses milissegundos podem se traduzir diretamente em lucro de arbitragem para quem paga”, explica. “O produto deixa de ser apenas conteúdo político e passa a funcionar como uma infraestrutura de mercado.”

O especialista afirma que a principal preocupação é a criação de uma vantagem para investidores com maior capacidade financeira. “Se o post trata de uma decisão de política pública, tarifas ou conflitos armados e afeta preços de ativos, o acesso pago cria uma assimetria de informação estruturada e comercializada”, afirma.

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Embora ressalte que o caso não configure, em princípio, insider trading, Salomão observa que o debate surgiu justamente pela semelhança dos efeitos.

“Não é insider trading no sentido legal clássico, mas o efeito prático é funcionalmente semelhante, porque há uma vantagem informacional paga antes do restante do mercado.”

🔍 Insider trading é a negociação de ações ou valores mobiliários baseada em informações privilegiadas que ainda não são públicas, com o objetivo de obter lucro ou vantagem indevida. Essa prática compromete a justiça do mercado financeiro e é tratada como crime em muitos países, incluindo o Brasil.

Impacto pode ir além dos mercados

Para o especialista em finanças e negócios internacionais Benny Fard, o lançamento representa uma mudança na forma como autoridades podem utilizar as redes sociais.

“A novidade está na monetização do próprio acesso antecipado às manifestações de um líder político. A comunicação deixa de ser simultaneamente pública para criar um canal de acesso privilegiado destinado a quem pode pagar”, afirma.

Segundo ele, o modelo pode gerar preocupação entre governos e organismos internacionais. “Um modelo que concede vantagem temporal a determinados agentes econômicos pode ser visto como incompatível com princípios de transparência, igualdade de acesso à informação e integridade dos mercados.”

Fard também avalia que a iniciativa pode afetar a percepção sobre a transparência do governo americano caso decisões relevantes passem a ser divulgadas pela plataforma.

“Pode surgir a percepção de que existe acesso privilegiado à informação, o que gera questionamentos sobre transparência, imparcialidade e igualdade de tratamento.”

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Outros líderes podem se inspirar em Trump

Na avaliação de Benny Fard, caso o modelo se mostre economicamente viável, outros líderes poderão seguir caminho semelhante. “Se esse modelo demonstrar viabilidade econômica e política, outros líderes mundiais poderão ser incentivados a explorar mecanismos semelhantes”, afirma.

Ele acrescenta que esse movimento pode estimular discussões internacionais sobre regras para a divulgação de informações oficiais.

“O grande desafio será preservar os princípios da transparência, da igualdade de acesso à informação e da confiança nas instituições democráticas, evitando que informações de interesse coletivo sejam tratadas como um produto disponível apenas para quem pode pagar.”

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