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Alta cúpula do Master tratava advogada como “sócia de Gilmar”

Publicado 19/09/2026 • 14:23 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Dalide Corrêa recebeu R$ 33 milhões do Banco Master e era chamada internamente de “sócia” de Gilmar Mendes.
  • Mensagens citam uma suposta ligação do grupo da advogada com o BTG Pactual, de André Esteves.
  • Gilmar e Dalide negam qualquer sociedade; ela também afirma não manter relação com o BTG.

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que integrantes da cúpula do Banco Master cobravam prioridade para pagamentos destinados à advogada Dalide Corrêa, ex-diretora de um instituto fundado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes.

Dalide recebeu R$ 33 milhões do Master e atuava em processos envolvendo precatórios, ativos que ocupavam uma posição central no modelo de negócios do banco. Em conversas internas, executivos se referiam à advogada como “sócia de Gilmar” e citavam uma suposta ligação do grupo dela com o BTG Pactual.

As mensagens, divulgadas pelo jornal O Globo, ampliam as suspeitas sobre as relações mantidas pelo Master em Brasília durante o avanço das investigações daquele que é tratado como o maior crime financeiro do país. As revelações também aumentam a pressão sobre o Supremo, que atravessa uma crise interna provocada pelos desdobramentos do caso.

Gilmar Mendes e Dalide Corrêa negam que tenham mantido qualquer sociedade. A advogada também afirma não ter relação com o BTG.

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Mensagens também citam André Esteves e o BTG Pactual

Além da referência a Gilmar Mendes, as conversas apreendidas pela Polícia Federal citam o BTG Pactual e André Esteves. Em uma mensagem enviada a Daniel Vorcaro, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, afirmou que Leandro, sócio de Dalide Corrêa, seria “muito complicado” e que eles “operam com o BTG”.

“Aquele pagamento é para Dalide! Aqueles precatórios! Ela é sócia do GM STF! O Leandro, sócio dela, é muito complicado e eles operam com o BTG. Autoriza esse”, escreveu Rennó. A sigla “GM” seria uma referência a Gilmar Mendes.

A possível ligação ganhou peso dentro do Master porque Vorcaro considerava André Esteves seu principal rival no mercado financeiro. Segundo O Globo, tanto a suposta proximidade com Gilmar quanto a menção ao BTG foram usadas internamente como argumentos para acelerar a liberação dos pagamentos à advogada.

O material divulgado, porém, não comprova uma relação de Dalide com André Esteves nem com o BTG Pactual. A advogada negou manter vínculo com o banco. Também não há, no conteúdo apresentado, manifestação atribuída a Esteves ou indicação de que ele tenha participado dos pagamentos feitos pelo Master.

Fatura de R$ 15 milhões teve pedido de urgência

As cobranças pela liberação de recursos já apareciam em mensagens anteriores. Em agosto de 2024, Rennó pediu a Vorcaro autorização urgente para o pagamento de uma fatura de R$ 15 milhões destinada a Dalide.

“Quando possível, dê ok com certa urgência ao Félix! Turma na outra ponta cobrando forte”, escreveu o diretor jurídico, em referência a Alberto Félix, então superintendente-executivo de tesouraria do Master.

Vorcaro perguntou do que se tratava. Rennó respondeu que o valor era para Dalide e afirmou que o grupo havia obtido uma vitória importante no caso da Usina Catende, em Pernambuco.

A disputa envolvia precatórios do setor sucroalcooleiro. Precatórios são dívidas do poder público já reconhecidas definitivamente pela Justiça, mas que podem levar anos para ser pagas.

Precatórios sustentavam parte do Master

Esses papéis ocupavam uma posição importante no modelo de negócios do Master. Em 2024, precatórios e outros direitos de crédito representavam 47% da carteira do banco.

A instituição comprava esses ativos com desconto e registrava valores maiores no balanço, considerando os pagamentos futuros como garantidos. Segundo as investigações, parte dos papéis também era vendida a fundos ligados à Reag por valores superfaturados como forma de retirar dinheiro do banco.

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Dalide atuava em processos ligados a empresas que haviam vendido créditos ao Master. De acordo com o escritório da advogada, o trabalho ficou restrito a ações que tramitavam na primeira e na segunda instâncias da Justiça.

Uma auditoria interna do Banco de Brasília (BRB), realizada durante a tentativa de compra do Master, identificou o pagamento de R$ 33 milhões ao escritório da advogada. Mensagens encontradas pela Polícia Federal também mostram um executivo do banco descrevendo Dalide como “canal direto com o STF”.

Dalide dirigiu instituto fundado por Gilmar

Dalide foi diretora-geral do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), faculdade fundada por Gilmar Mendes e atualmente comandada por um dos filhos do ministro.

Ela deixou a instituição em 2016. O gabinete de Gilmar e a advogada afirmam que Dalide nunca foi sócia do IDP e ocupou apenas um cargo administrativo durante cerca de nove anos.

O ministro classificou como “falsa” a afirmação registrada nas conversas dos executivos do Master. Também declarou nunca ter mantido sociedade com a advogada e disse desconhecer a atuação dela em processos de precatórios do setor sucroalcooleiro.

O escritório de Dalide afirmou que atuou em processos originalmente conduzidos para empresas que venderam créditos ao Banco Master e foram posteriormente substituídas pelo banco nas ações. Segundo a defesa, o trabalho ocorreu apenas na primeira e na segunda instâncias e correspondeu ao exercício regular da advocacia, com decisões favoráveis e desfavoráveis.

Leia também: Vorcaro disse que Gilmar estava ‘contra ele’ antes de encontro com o ministro no STF

Vorcaro se reuniu com Gilmar no Supremo

Em abril de 2024, Gilmar Mendes recebeu Vorcaro e advogados do Master em seu gabinete no Supremo. O encontro tratou de um processo envolvendo um precatório da Destilaria Alcídia.

Segundo o gabinete do ministro, Dalide não participou da reunião. Gilmar também afirma que votou contra os interesses do Master nesse e em outros processos relacionados ao setor sucroalcooleiro.

O magistrado citou decisões envolvendo a Destilaria Alcídia, a Raízen, a Jalles Machado e uma cobrança superior a R$ 5 bilhões. De acordo com o gabinete, em nenhum desses casos o voto de Gilmar favoreceu os interesses do Master.

Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que Vorcaro havia sido aconselhado pelo empresário e ex-senador Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar, a se aproximar do magistrado.

Feitosa, que chamava Vorcaro de “irmão”, teria afirmado que o contato seria “importante para o futuro” e se apresentado como uma ponte entre o dono do Master e o ministro. O empresário mantinha um contrato de consultoria com uma empresa do ecossistema do banco.

Dalide afirmou não manter contato com Chiquinho Feitosa há vários anos.

As mensagens colocam no centro da investigação a maneira como integrantes da cúpula do Master usavam referências ao Supremo e a um dos maiores bancos privados do país para justificar pagamentos milionários.

As alegações registradas nas conversas, no entanto, são contestadas pelos citados e não comprovam que Gilmar Mendes, André Esteves ou o BTG Pactual tenham participado das operações.

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