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Venezuela defende soberania sobre petróleo após acordo que amplia presença dos EUA

Publicado 30/08/2026 • 08:30 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Trump disse que o acordo dará aos americanos controle majoritário sobre 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas.
  • Entendimento prevê investimentos privados para recuperar a produção, mas a falta de detalhes tem provocado dúvidas sobre seus efeitos econômicos e políticos.
  • O plano pode mobilizar US$ 100 bilhões em capital privado para a indústria de petróleo.

Foto por MANDEL NGAN / AFP

Presidente dos EUA, Donald Trump, e a presidente interina da Venezuela, Delcy Eloína Rodríguez Gómez

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou neste sábado que o país continuará sendo proprietário de seus recursos petrolíferos após um acordo que amplia a participação dos Estados Unidos no setor. O entendimento prevê investimentos privados para recuperar a produção, mas a falta de detalhes tem provocado dúvidas sobre seus efeitos econômicos e políticos.

Segundo o governo venezuelano, o plano pode mobilizar US$ 100 bilhões em capital privado para a indústria de petróleo. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o acordo dará aos americanos controle majoritário sobre 65 bilhões de barris das reservas comprovadas venezuelanas.

Diante dos questionamentos sobre o alcance da participação americana, Rodríguez declarou que a propriedade dos recursos naturais continuará nas mãos da Venezuela. Segundo ela, o objetivo é transformar reservas ainda não exploradas em receitas capazes de contribuir para a economia e para políticas sociais.

Leia também: EUA negociam com Venezuela para ampliar participação no setor de petróleo

Acordo avança em meio à pressão de Washington

A negociação ocorre após uma mudança significativa no cenário político venezuelano. Nicolás Maduro foi retirado do poder e capturado por forças americanas em janeiro, e Rodríguez, que ocupava a Vice-Presidência, assumiu interinamente o comando do país sob forte pressão do governo Trump.

Desde então, Caracas promoveu mudanças nas regras dos setores de petróleo e mineração para ampliar a entrada de capital privado e estrangeiro. Washington, por sua vez, reduziu parte das sanções aplicadas anteriormente à indústria petrolífera venezuelana.

O partido governista manifestou apoio às novas medidas econômicas e argumentou que elas devem preservar os interesses nacionais e ajudar o país a superar os efeitos das sanções internacionais. O governo venezuelano atribui há anos às restrições impostas pelos Estados Unidos parte importante da crise econômica enfrentada pelo país.

Produção cresce, mas recuperação deve levar anos

Entre janeiro e julho, a produção venezuelana de petróleo aumentou 29,8% e chegou a 1,2 milhão de barris por dia. O volume, porém, permanece distante dos cerca de 3 milhões de barris diários registrados há 25 anos.

O novo acordo pretende aproximar novamente a produção desse patamar. Especialistas avaliam, contudo, que os resultados não serão imediatos. O engenheiro Oswaldo Felizzola, professor do Instituto de Estudos Superiores de Administração (IESA), estima que um avanço mais expressivo deve aparecer apenas dentro de três ou quatro anos.

Na avaliação de Felizzola, a presença dos Estados Unidos como garantidor dos investimentos pode facilitar a chegada de recursos externos depois de mais de uma década de baixa entrada de capital. A estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), segundo o especialista, não dispõe sozinha dos recursos financeiros necessários para desenvolver os campos previstos no projeto.

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Impacto sobre a população ainda é incerto

A possível recuperação da indústria ocorre em um país que ainda enfrenta as consequências de uma prolongada crise econômica. Entre 2014 e 2021, a economia venezuelana encolheu cerca de 80%, período marcado pelo aumento da pobreza e pela deterioração da renda.

Atualmente, o salário mínimo mensal equivale a aproximadamente US$ 0,16, ao qual podem ser acrescentados subsídios governamentais de até US$ 240. O valor permanece abaixo dos cerca de US$ 730 estimados para cobrir despesas básicas de alimentação de uma família de cinco pessoas.

Esse cenário ajuda a explicar a cautela de parte da população diante do anúncio. Nas redes sociais, venezuelanos, inclusive apoiadores do governo, questionaram quem será o principal beneficiário do acordo e quais serão suas consequências para a autonomia do país.

O funcionário público Carlos Baco, de 74 anos, afirmou que ainda não percebeu melhora em sua situação financeira apesar do recente aumento da produção de petróleo. Segundo ele, a alta dos alimentos, dos bens de consumo e do dólar continua pressionando o orçamento doméstico.

Leia também: EUA preveem quase US$ 100 bilhões em investimentos privados na Venezuela após acordo de petróleo

Governo projeta receitas bilionárias

Rodríguez estima que o acordo poderá gerar mais de US$ 204 bilhões em receitas tributárias, mas o governo ainda não apresentou informações detalhadas sobre o cálculo, os prazos ou as condições para alcançar esse montante.

Para o analista Elias Ferrer, do centro de estudos Orinoco, a entrada de investimentos pode ampliar a exploração de reservas que atualmente não geram royalties nem outras receitas. Ele pondera, porém, que os resultados dependerão da execução do projeto.

A ex-vice-ministra venezuelana de Energia Dolores Dobarro também avalia que o acordo pode contribuir para a retomada do setor petrolífero caso seja implementado conforme o previsto.

Apesar das projeções apresentadas por Caracas e Washington, permanecem em aberto questões sobre a divisão das receitas, as condições da participação americana e o impacto efetivo do aumento da produção sobre a economia venezuelana. A ausência desses detalhes mantém o acordo sob escrutínio enquanto o governo busca convencer a população de que o controle dos recursos naturais permanecerá com o país.

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