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Caso Master: investigação revela uso de empresas para financiar ações de intimidação, espionagem e ciberataques

Publicado 11/09/2026 • 10:28 | Atualizado há 52 minutos

KEY POINTS

  • Pagamento mensal de R$ 1 milhão a Felipe Mourão teria sustentado a operação, com repasses superiores a R$ 24 milhões entre 2023 e 2025.
  • O dinheiro seria dividido entre equipes de atuação presencial, hackers e pessoas ligadas à mídia, além de circular por empresas intermediárias e contratos simulados.
  • A estrutura de intimidação teria combinado ameaças, vigilância, invasões digitais, coleta de dados pessoais, acesso irregular a sistemas públicos e ações para remover conteúdos e perfis.

Uma estrutura de pagamentos mensais, empresas intermediárias e contratos sem prestação real de serviços teria financiado uma rede voltada à vigilância, intimidação e neutralização de pessoas consideradas adversárias de Daniel Vorcaro. Segundo os elementos reunidos na investigação, cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça a pedido do presidente do STF Edson Fachin, o esquema teria movimentado dezenas de milhões de reais e mantido equipes distintas para ações presenciais, invasões digitais e atuação relacionada à mídia.

No centro dessa operação estaria Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Felipe Mourão ou “Sicário”. Ele teria recebido recursos de empresas ligadas a Vorcaro e ficado responsável por distribuir o dinheiro entre os diferentes braços da estrutura.

Leia também: Caso Master: Vorcaro recebeu dados de processos sigilosos acessados em sistemas do Ministério Público Federal

Pagamento mensal de R$ 1 milhão sustentaria a operação

De acordo com a investigação, Mourão teria mantido com Vorcaro um acordo informal que previa o pagamento fixo de R$ 1 milhão por mês. Os recursos sairiam principalmente da Super Empreendimentos e Participações S.A. e seriam enviados para empresas vinculadas a Mourão, entre elas a King Participações Imobiliárias e a King Motors.

Além da remuneração mensal, teriam ocorrido pagamentos extraordinários, tratados internamente como bônus em determinadas situações.

A movimentação financeira, segundo os investigadores, não seria conduzida diretamente apenas por Vorcaro. Fabiano Campos Zettel, apontado como operador financeiro e cunhado do empresário, teria participado da aprovação de listas de pagamento, da elaboração de contratos usados para justificar repasses e da autorização das transferências.

Outra integrante do núcleo financeiro, Ana Claudia Queiroz de Paiva, seria responsável pela execução prática dos pagamentos. Mensagens analisadas na investigação indicariam que ela encaminhava comprovantes de transferências bancárias e Pix, inclusive do pagamento mensal de R$ 1 milhão destinado às empresas de Mourão.

Dinheiro era dividido entre três frentes

A investigação aponta que Mourão fazia a divisão dos recursos recebidos. O dinheiro financiaria três núcleos com funções diferentes.

Uma das equipes, chamada internamente de “A Turma”, receberia aproximadamente R$ 400 mil por mês. O grupo seria formado por seis integrantes e coordenado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. A atuação atribuída à equipe envolvia levantamento de informações, monitoramento presencial e ações de pressão contra alvos definidos pelo grupo.

Outra parcela dos recursos seria destinada aos chamados “Meninos”, núcleo encarregado de operações digitais. Cada integrante teria remuneração mensal de R$ 75 mil para executar invasões de contas, obtenção de informações privadas e outras ações cibernéticas.

Também havia, segundo a investigação, uma parcela reservada a profissionais ligados à produção e circulação de conteúdo. O objetivo seria reduzir a repercussão de notícias consideradas prejudiciais e estimular publicações de interesse do grupo. Entre os repasses citados no material está um pagamento mensal de R$ 50 mil ao proprietário do portal Diário do Centro do Mundo, além de valores destinados a outros editores e redatores.

O restante do pagamento mensal permaneceria com Mourão, que atuaria como intermediário e gestor da operação.

Repasses teriam ultrapassado R$ 24 milhões

Os investigadores estimam que as transferências feitas a Mourão e a empresas ligadas ao grupo King tenham superado R$ 24 milhões entre outubro de 2023 e 2025.

Desse montante, aproximadamente R$ 9,6 milhões teriam sido encaminhados a Marilson Roseno da Silva para posterior divisão entre integrantes da equipe sob sua coordenação.

O material também menciona pagamentos realizados diretamente a jornalistas. Entre eles aparece um repasse de R$ 2 milhões atribuído ao repórter Diego Escostesguy. Segundo a linha investigativa, esses pagamentos estariam inseridos em uma estratégia mais ampla de influência sobre a cobertura de assuntos de interesse do grupo.

Empresas intermediárias dariam aparência regular aos pagamentos

Além dos repasses destinados à estrutura operacional, a investigação descreve o uso de empresas e pessoas interpostas para movimentar recursos relacionados a agentes públicos e outras despesas consideradas ilícitas pelos investigadores.

Uma das empresas citadas é a Varajo Consultoria Empresarial, administrada por Leonardo Palhares. Ela teria sido utilizada como intermediária em contratos de consultoria que, segundo a apuração, serviriam para justificar formalmente transferências de recursos.

A suspeita é que essas operações funcionassem como contas de passagem: o dinheiro circulava por empresas com documentação contratual antes de chegar ao destinatário final, dificultando a identificação da origem e da finalidade efetiva dos pagamentos.

Intimidação combinava presença física e coleta de informações

A estrutura financiada por esses recursos não se limitaria ao monitoramento digital. Segundo a investigação, Mourão coordenaria também ações presenciais contra ex-funcionários, jornalistas, empresários e outras pessoas vistas como possíveis fontes de informações ou adversários.

As equipes teriam recorrido a policiais, ex-agentes de segurança e pessoas associadas a grupos armados para abordar alvos pessoalmente. Em alguns episódios, a pressão teria ocorrido em locais de trabalho, residências ou outros endereços frequentados pelas pessoas monitoradas.

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Um dos casos citados envolve o ex-piloto de embarcação Luis Felipe Woyceichoski. De acordo com a investigação da PF, integrantes do grupo teriam ido até uma marina e ao condomínio onde ele morava, com ameaças dirigidas também à sua família caso informações sobre Vorcaro fossem divulgadas.

O ex-chefe de cozinha Leandro Garcia também teria sido alvo de abordagens no ambiente profissional.

Investigação aponta planos de agressão

As mensagens analisadas pelos investigadores também registravam discussões sobre ações mais graves.

Entre as hipóteses discutidas pelo grupo estariam agressões contra jornalistas, com a intenção de fazer com que os ataques parecessem crimes comuns. O material menciona, por exemplo, conversas relacionadas a uma possível agressão contra o jornalista Lauro Jardim.

Também teriam sido debatidas formas de criar situações comprometedoras para determinados alvos, inclusive por meio da simulação de flagrantes envolvendo drogas ou do uso de grupos armados para aumentar a pressão.

Em outro episódio descrito na investigação, integrantes da estrutura teriam cogitado fabricar uma ordem judicial para viabilizar a internação involuntária de Antonio Conte em uma clínica psiquiátrica.

Hackers seriam usados para acessar celulares, e-mails e nuvens

O braço digital teria função central na obtenção de informações privadas. O grupo conhecido como “Os Meninos” seria responsável por tentativas de invasão de celulares, contas de e-mail e serviços de armazenamento em nuvem, como o iCloud.

Segundo a investigação, jornalistas também teriam sido alvo de técnicas de engenharia social. Uma das estratégias consistiria no envio de links maliciosos disfarçados de convites para reuniões ou contatos relacionados a reportagens. A abertura desses links poderia permitir o comprometimento do aparelho utilizado pela vítima.

A estrutura também produziria dossiês com informações pessoais, incluindo números de documentos, telefones, endereços e dados de familiares.

Parte dos alvos teria sido submetida ainda a acompanhamento presencial contínuo, com rondas em residências e uso ostensivo de veículos ligados a agentes de segurança. Para os investigadores, a presença visível dessas equipes também teria função intimidatória.

Sistemas públicos teriam sido consultados de forma irregular

Outro ponto investigado é o possível uso indevido de sistemas restritos do Estado.

Integrantes do grupo teriam recorrido a credenciais funcionais de servidores para realizar consultas em bases de dados reservadas, entre elas sistemas utilizados pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pela área de segurança pública.

Esses acessos permitiriam obter informações sobre pessoas monitoradas e acompanhar procedimentos protegidos por sigilo, inclusive investigações relacionadas ao próprio Vorcaro.

Documentos falsos seriam usados para remover conteúdos

A estratégia de controle de informação teria incluído ainda tentativas de retirar conteúdos da internet e bloquear perfis em redes sociais.

Segundo a investigação, integrantes da estrutura teriam explorado canais mantidos por plataformas digitais para atender solicitações oficiais de autoridades. A suspeita é que ofícios falsificados e contas funcionais de servidores tenham sido usados para apresentar pedidos como se partissem de órgãos públicos.

Em algumas situações, perfis teriam sido falsamente associados a crimes graves para aumentar a chance de remoção imediata pelas plataformas e facilitar a obtenção de dados cadastrais de seus responsáveis.

Também teriam sido empregados ataques de sobrecarga de tráfego e sistemas automatizados contra páginas e portais que publicavam informações consideradas prejudiciais aos interesses do grupo.

Fluxo financeiro conectaria diferentes métodos de pressão

Para os investigadores, o elemento que liga as diferentes frentes é a estrutura financeira. Os pagamentos mensais permitiriam manter simultaneamente equipes de campo, operadores digitais e pessoas encarregadas de atuar sobre a circulação de informações.

Nesse modelo, empresas formalmente desvinculadas das ações operacionais funcionariam como origem ou destino dos recursos, enquanto intermediários cuidariam da distribuição interna do dinheiro.

A apuração busca determinar o grau de participação de cada citado, a finalidade concreta dos pagamentos e quais das ações discutidas em mensagens chegaram efetivamente a ser executadas. As acusações descritas dependem de comprovação no curso das investigações e dos procedimentos judiciais correspondentes.

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