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Tarifas americanas expõem uso do comércio internacional como arma geopolítica
Publicado 04/06/2026 • 15:03 | Atualizado há 4 meses
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Publicado 04/06/2026 • 15:03 | Atualizado há 4 meses
KEY POINTS
A proposta americana de sobretaxar produtos brasileiros em 25% ainda percorre etapas burocráticas antes de entrar em vigor. Mesmo assim, já produz efeitos concretos sobre contratos, embarques e decisões de investimento. Para Larry Carvalho, advogado especialista em logística, direito marítimo e comércio exterior, o episódio revela algo maior do que uma disputa bilateral.
Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC nesta quinta-feira (4), Carvalho avaliou que Estados Unidos e China vêm transformando o comércio internacional e o transporte marítimo em instrumentos diretos de política externa. “Os países cada vez mais têm utilizado o transporte marítimo e o comércio internacional como quase que armas da sua geopolítica”, afirmou o advogado.
O movimento, segundo ele, não é novo. Nos últimos cinco anos, sanções, tarifas e bloqueios de rotas foram usados sistematicamente por grandes potências para impor jurisdição sobre outros países. O Brasil agora está mais diretamente no centro dessa dinâmica.
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O peso do setor na equação geopolítica não é pequeno. Carvalho lembra que o transporte marítimo responde por 90% do comércio global, o que o torna o principal campo de disputa quando grandes economias decidem usar o fluxo de mercadorias como pressão política.
A capacidade de reorganização desse mercado, porém, é igualmente expressiva. O advogado cita como exemplo o momento em que os EUA impuseram tarifas sobre produtos chineses: cargas que seguiam para os Estados Unidos mudaram de rota e foram absorvidas pelo mercado brasileiro. “Você vê que o transporte marítimo e as rotas estão sempre se reorganizando e se readequando”, disse Carvalho.
Esse mesmo mecanismo deve operar agora em sentido inverso, com exportadores brasileiros buscando novos destinos caso as sobretaxas americanas sejam confirmadas.
Um dos pontos mais destacados por Carvalho é que o dano começa antes da medida ser oficializada. Importadores americanos já calculam o risco de produtos adquiridos hoje chegarem aos portos dos EUA já sujeitos à sobretaxa, dado o prazo de 15 a 20 dias de travessia marítima.
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Siga o Times | CNBC“O que eu comprar hoje, talvez daqui a um mês, um mês e meio, esteja sujeito a tarifas”, resumiu o advogado, reproduzindo o raciocínio que já leva compradores americanos a suspender negociações ou renegociar preços. “Negócios em andamento são suspensos. Muita coisa começa a travar já na expectativa.”
O efeito prático é um slowdown nas negociações comerciais e aumento de custos que se transfere ao preço final dos produtos, mesmo sem qualquer tarifa formalmente aplicada.
Entre os setores mais expostos, Carvalho destaca aço e siderurgia como os de maior impacto potencial. No agronegócio, a situação é mais seletiva: frutas e água de coco, com peso relevante para exportadores do Nordeste, estão na lista americana, mas o advogado avalia que o golpe mais duro recairia sobre produtos com maior valor agregado.
O Brasil ainda tem margem para negociar. Segundo Carvalho, o processo prevê pelo menos um mês e meio de tratativas, durante o qual o país pode apresentar defesa contra a acusação americana de práticas desleais de comércio. Esse prazo é também a janela para tentar evitar que as tarifas cheguem a vigorar.
Para os exportadores que precisam diversificar destinos, Carvalho aponta o acordo entre o Mercosul e a União Europeia como o trunfo mais imediato do Brasil. O mercado europeu oferece competitividade superior ao asiático para produtos brasileiros com maior valor agregado, e o acordo recém-vigente abre condições que não existiam antes.
“O grande trunfo para o Brasil hoje é o mercado europeu, sem dúvida alguma”, afirmou o advogado, sem descartar a China como destino complementar, embora com ressalvas sobre a competitividade dos produtos brasileiros naquele mercado.
A leitura de Carvalho é de que o comércio global já não opera apenas pela lógica de custo e eficiência. Quem exporta precisa agora mapear rotas políticas tanto quanto rotas marítimas.
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