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De 2023 à operação contra o Master: como evoluiu a relação entre Vorcaro e Moraes
Publicado 02/09/2026 • 11:00 | Atualizado há 23 minutos
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Publicado 02/09/2026 • 11:00 | Atualizado há 23 minutos
KEY POINTS
Márcio Gustavo Vasconcelos/Wikimedia Commons (CC0) e Andressa Anholete/STF.
Em dezembro de 2023, Daniel Vorcaro ainda dependia de Fábio Faria para chegar a Alexandre de Moraes. Era o ex-ministro quem intermediava os encontros, passava endereços e, poucos dias depois, compartilhava com o banqueiro o número associado ao ministro do Supremo.
A aproximação avançou rápido. Em janeiro de 2024, o Banco Master negociava um contrato milionário com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Vieram novos encontros, jantares, eventos jurídicos em Londres e uma proximidade que continuou aparecendo, de diferentes formas, ao longo de 2024 e 2025.
Quase dois anos depois, o cenário era outro. O Master enfrentava pressão crescente de investigadores e do Banco Central, e as mensagens enviadas por Vorcaro ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA” já não tratavam apenas de encontros ou atualizações. O banqueiro passou a falar de informações que dizia receber de dentro do BC, citar policiais e procuradores e pedir ajuda para tentar evitar ou atrasar medidas contra o banco.
É essa evolução da relação que aparece nos documentos reunidos pela Polícia Federal. A cronologia vai dos primeiros contatos registrados no fim de 2023 aos dias que antecederam a primeira fase ostensiva da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025.
Na reta final, Vorcaro chegou a pedir interlocução ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Também perguntou se as medidas poderiam ser “bloqueadas” e se uma ação poderia ser adiada.
A reconstrução consta da Informação de Polícia Judiciária IPJ-A nº 3298613/2026, relatório concluído por agentes e delegados federais em 27 de agosto e encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.

A sequência documental começa em 21 de dezembro de 2023. Naquele dia, Fábio Faria pediu a Daniel Vorcaro os dados do carro que seria usado para chegar a uma reunião. O banqueiro consultou o motorista e repassou as informações para a entrada pela garagem.
Horas depois, Faria voltou a procurar Vorcaro para contar como havia sido o encontro com Alexandre de Moraes. Segundo o relato do ex-ministro, Moraes telefonou depois da conversa, elogiou a reunião e demonstrou interesse em manter os contatos.
A troca entre Faria e Vorcaro está registrada nos documentos. O que Moraes teria dito, porém, aparece apenas no relato feito por Faria ao banqueiro.
Em 26 de dezembro, Faria encaminhou a Vorcaro um telefone associado a Moraes. O número foi salvo no aparelho do banqueiro e, depois, apareceria entre os registros analisados pela PF como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”.
No dia 30, as mensagens já apontavam para um novo encontro. Faria e Vorcaro organizaram uma reunião no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão, e as conversas trocadas naquele dia entre o banqueiro e funcionários do local registram a presença de Moraes.
Esse primeiro ciclo de aproximação durou poucos dias. Em janeiro, a relação passaria a aparecer também nos negócios do Banco Master.
A negociação com o Barci de Moraes Sociedade de Advogados consta nos registros em 11 de janeiro de 2024.
Naquele dia, uma minuta do contrato em Word foi modificada às 16h30. Segundo a análise pericial, o arquivo tinha como autor o usuário “Guilherme Benazzi” e registrava “Ministro Alexandre de Moraes” no campo de última modificação.
Às 16h49, Viviane Barci de Moraes enviou a minuta a Vorcaro pelo WhatsApp.
Quatro dias depois, Vorcaro devolveu a Viviane uma versão revisada por seu advogado, Leonardo Palhares. Fábio Faria ainda aparecia nas tratativas: naquela tarde, perguntou ao banqueiro se ele já havia respondido a “Vivi” e conversou com ele sobre a duração do acordo.
Às 23h04, uma nova versão do arquivo voltou a registrar “Ministro Alexandre de Moraes” como usuário responsável pela última modificação.
Em 17 de janeiro, Viviane encaminhou a versão final. O contrato previa honorários de R$ 3 milhões líquidos por mês, equivalentes a R$ 3,646 milhões brutos. Em 36 meses, o valor bruto previsto chegava a aproximadamente R$ 131,3 milhões.
O acordo foi assinado digitalmente em 23 de janeiro. Em 8 de fevereiro, os registros mostram uma transferência de R$ 3,422 milhões do Banco Master para o Barci de Moraes.
Leia também: Registros indicam que Moraes editou contrato de R$ 131 milhões com Master
Depois da assinatura do contrato, Moraes continuou a aparecer nas conversas entre Vorcaro e Fábio Faria. Em março de 2024, Faria encaminhou ao banqueiro uma troca de mensagens na qual um contato atribuído ao ministro o convidava a tomar whisky. Os dois chegaram a reorganizar seus compromissos para acomodar o encontro.
Naquele mesmo período, a relação começava a aparecer também em torno de um fórum jurídico que seria realizado em Londres.
Em 28 de março, um interlocutor identificado como “Marcio Conjur” encaminhou a Vorcaro convites enviados por Moraes a integrantes do Judiciário. As mensagens indicavam ConJur, Correio Braziliense e Banco Master como organizadores do evento.
Ao receber o material, Vorcaro sugeriu que o nome do banco não aparecesse como realizador nos convites.
As conversas sobre Londres se estenderam pelas semanas seguintes e passaram a incluir outros nomes. No início de abril, Vorcaro escreveu a “Marcio Conjur” que o “ministro fez convite ao Andrei PF”, em referência ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O fórum ocorreu no fim daquele mês. Nos registros do período, Vorcaro aparece discutindo convidados, programação e uma homenagem a Moraes.
Em 2025, os documentos mostram que a relação continuava aparecendo em duas frentes: nos encontros relatados por Vorcaro e nos compromissos comerciais do Master com o escritório de Viviane.
Em março, o banqueiro escreveu à então namorada, Martha Graeff, que estava com Moraes. Pouco depois, disse a Paulo Sérgio, então diretor de Fiscalização do Banco Central, que também estava com o ministro.
Relatos semelhantes aparecem nos meses seguintes. Em abril, Vorcaro disse que encontraria Moraes perto de sua casa. Em maio, escreveu a Martha que estavam em sua residência “Ciro e Alexandre”. Em agosto, afirmou que não poderia viajar porque estava com “Alexandre”.
Essas mensagens registram o que Vorcaro dizia aos interlocutores e ajudam a mostrar a frequência com que Moraes passou a aparecer em sua rotina. Sozinhas, porém, não confirmam, de forma independente, que todos os encontros ocorreram exatamente como relatado pelo banqueiro.
Paralelamente, as obrigações financeiras com o Barci de Moraes continuavam. Em maio, mensagens entre Vorcaro e seu advogado, Leonardo Palhares, mostram discussões sobre uma dação em pagamento de R$ 40 milhões, relacionada a honorários, envolvendo um jato Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1.
Dois meses depois, ao ser informado de que o Master tinha R$ 40 milhões em contas a pagar e poderia desembolsar R$ 15 milhões, Vorcaro determinou que o escritório fosse incluído nos pagamentos. O relatório registra uma liquidação de R$ 3,422 milhões ao Barci de Moraes naquela data.
Até então, portanto, os documentos mostravam uma combinação de encontros, eventos e negócios. A partir do fim de outubro, outro assunto começaria a ocupar as conversas: a pressão sobre o Banco Master.
Em 28 de outubro de 2025, Vorcaro escreveu uma nota no iPhone, fez uma captura de tela e enviou a imagem em visualização única ao contato “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”.
Dizia que iria a Brasília e perguntava se poderia passar na casa do interlocutor para “dar uma atualizada”.
Dois dias depois, a atualização ganhou mais conteúdo.
Vorcaro afirmou que havia colocado R$ 800 milhões no banco e esperava outros R$ 400 milhões. Em seguida, disse ter recebido, “informalmente e em confidência”, informações de pessoas de dentro do Banco Central de que Gabriel Galípolo e outros diretores estavam sob pressão da Polícia Federal e do Ministério Público.
Foi nesse contexto que apareceu um dos primeiros pedidos diretos envolvendo a cúpula das instituições:
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem.”
A PF identifica “Andrei” e “Paulo” como referências a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.
Vorcaro também enviou nomes que, segundo os investigadores, correspondiam a policiais e procuradores envolvidos em apurações relacionadas ao Master. Em outra mensagem, afirmou que as informações vinham de funcionários do Banco Central que eram seus amigos e disse não querer identificá-los diante de Galípolo.
A partir daí, as mensagens deixariam de ser apenas atualizações sobre a situação do banco. Nos dias seguintes, Vorcaro começaria a perguntar diretamente o que poderia ser feito para evitar medidas contra o Master.
Em 4 de novembro, as perguntas ficaram mais urgentes.
Às 17h41, Vorcaro quis saber se algum pedido contra o banco já havia sido deferido e perguntou se existia “algo que dê para bloquear”.
Minutos depois, afirmou que uma medida poderia comprometer seus negócios e perguntou se seria possível descobrir a origem da investigação para tentar falar com Paulo Gonet.
À noite, a preocupação se voltou para o tipo de medida que poderia estar sendo preparada. Vorcaro perguntou se algo classificado como “médio a grave” poderia significar uma busca ou quebra de sigilo.
Pouco depois das 20h45, escreveu:
“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade.”
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Na mesma mensagem, afirmou que uma medida drástica poderia quebrar o banco “de modo irreversível”.
Os registros mostram os pedidos feitos por Vorcaro. Nesse conjunto de comunicações, não foi identificada uma resposta de Moraes.
No dia seguinte, a incerteza sobre a investigação começou a se misturar às decisões da própria defesa.
Na manhã de 5 de novembro, Vorcaro disse estar “um pouco perdido” porque não sabia qual inquérito estava em andamento. Contou que seus advogados haviam falado com Paulo Gonet e mencionou outras investigações que, segundo ele, deveriam estar “controladas”.
À tarde, relatou que um de seus advogados avaliava apresentar uma petição para informar que a defesa estava à disposição e tentar descobrir quais investigações existiam.
Antes de seguir adiante, submeteu a ideia ao interlocutor:
“Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo.”
O registro mostra Vorcaro buscando a opinião de Moraes sobre aquela estratégia específica. Não permite concluir que o ministro dirigisse sua defesa nem que tenha respondido à consulta.
Nos dias seguintes, o banqueiro continuou buscando informações, mas também passou a insistir em um encontro pessoal. Tentou marcar uma reunião em Brasília nos dias 10 e 11.
Em 12 de novembro, escreveu que iria à capital “somente” para ver Moraes e atualizá-lo porque havia “muita coisa acontecendo”. Depois, perguntou se seria melhor encontrá-lo em sua casa ou na residência do ministro.
Na noite de 13 de novembro, Vorcaro confirmou por mensagem um encontro para o dia seguinte, às 14h, em sua casa.
Na manhã de 14 de novembro, voltou ao assunto. Disse que chegaria às 14h30 e repetiu que o compromisso estava marcado em sua residência.
Horas depois, às 18h19, enviou uma longa mensagem de agradecimento. Nela, afirmou que sua família, funcionários, parceiros e amigos tinham uma “dívida de vida” com Moraes e sua família.
A PF trata a mensagem como posterior a uma reunião presencial realizada naquela tarde.
A sequência é relevante porque, a partir do dia seguinte, os pedidos do banqueiro se tornam ainda mais específicos.
Em 15 de novembro, Vorcaro voltou a falar sobre a possibilidade de uma operação.
Perguntou se o responsável pelas medidas seria “aquele mesmo juiz Ricardo”, identificado pela PF como referência ao juiz federal Ricardo Augusto Soares Leite, e se Galípolo sabia do que estava acontecendo.
Em seguida, quis saber se havia algo que pudesse ser feito e se deveria estar “fora” na segunda-feira. Também perguntou se seria possível reverter a situação com “Paulo ou Andrei”.
Naquela noite e ao longo do dia 16, Vorcaro continuou tentando organizar um encontro e fez perguntas cada vez mais específicas: se “com Andrei dá pra segurar”, se Galípolo estaria pressionando por uma intervenção e se havia risco de uma ação iminente.
No dia 16, informou que estava em voo para Brasília. Às 16h57, fez o pedido mais direto da sequência:
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra.”
Na mesma mensagem, pediu que Moraes chamasse o diretor-geral da PF e tentasse “sensibilizar” a situação.
Pouco depois, às 18h20, perguntou se havia alguma chance de uma ação ocorrer na manhã seguinte.
Os documentos comprovam que Vorcaro fez esses pedidos. Não mostram que Moraes tenha conseguido ou tentado adiar qualquer medida da Polícia Federal.
Na véspera da fase ostensiva da Compliance Zero, surge um elemento diferente na reconstrução pericial: os registros passam a mostrar comunicações nos dois sentidos.
Às 7h19, Vorcaro informou que tentava antecipar a entrada de investidores e anunciar parte de uma operação financeira. Disse também que informações sobre o caso começavam a vazar e mencionou a possibilidade de usar a repercussão como “gancho” para ingressar no processo.
Pouco menos de uma hora depois, às 8h16, o aparelho de Vorcaro recebeu uma mídia de visualização única enviada pelo terminal salvo como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”.
O conteúdo não foi recuperado pela perícia.
À tarde, Vorcaro voltou a escrever. Disse ter feito uma “correria” para tentar salvar a situação e que anunciaria parte da transação. Às 17h26, perguntou:
“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Ao longo daquele dia, a perícia identificou ao todo quatro mídias de visualização única enviadas pelo terminal atribuído ao contato de Moraes para o aparelho de Vorcaro — às 8h16, 17h31, 20h21 e 20h23. Nenhum dos conteúdos foi recuperado.
Às 20h48, Vorcaro ainda enviou uma última mensagem sobre sua negociação com investidores.
No dia seguinte, foi deflagrada a fase ostensiva da Operação Compliance Zero. O telefone do banqueiro foi apreendido e submetido à extração forense. É justamente essa análise que permitiu reconstruir parte das comunicações que haviam sido enviadas em modo temporário.
Quando o celular de Vorcaro foi apreendido, boa parte das mensagens que aparecem nessa cronologia já não estava disponível nas conversas do WhatsApp.
Isso acontecia porque, em diversos episódios, o banqueiro usava um caminho específico para se comunicar. Segundo a perícia, ele escrevia primeiro no aplicativo Notas do iPhone, fazia uma captura de tela e, em seguida, enviava a imagem pelo WhatsApp no modo de visualização única.
Mesmo depois de a mensagem desaparecer da conversa, esse percurso deixava rastros no aparelho. A PF cruzou os horários de edição das notas, de criação das capturas de tela, os arquivos temporários gerados pelo sistema e os registros de tráfego do WhatsApp para reconstruir parte da sequência.

Os registros analisados pela Polícia Federal documentam contatos entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes desde dezembro de 2023, além de encontros relatados em mensagens, eventos dos quais os dois participaram e relações comerciais entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes.
Também mostram que, entre outubro e novembro de 2025, Vorcaro enviou ao contato atribuído a Moraes informações sobre a situação do Master, citou dados que dizia ter obtido de pessoas do Banco Central e pediu ajuda em questões relacionadas às investigações.
Entre os pedidos estão tentativas de obter informações sobre medidas em preparação, questionamentos sobre a possibilidade de “bloquear” ações e solicitações de interlocução com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Os documentos não comprovam que Moraes tenha atendido a esses pedidos ou atuado junto à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República ou ao Banco Central para impedir ou adiar medidas contra o Master.
As referências feitas por Vorcaro a Gonet, Rodrigues, Gabriel Galípolo e funcionários do Banco Central também não demonstram, por si só, participação dessas autoridades em irregularidades. Os registros documentam o conteúdo das mensagens do banqueiro e, em alguns casos, também relatos de terceiros.
A PF analisa parte desse material na apuração de uma possível rede de influência e de acesso a informações. Essa é uma linha investigativa, e não uma conclusão judicial, sobre a atuação dos citados.
Após a primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, o material apreendido passou por análise pericial. Com a identificação, nos autos, de pessoas com foro por prerrogativa de função, parte da investigação foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal.
A Compliance Zero passou por novas fases em 2026. Em 19 de junho, no âmbito das PETs 16.662 e 15.556, o ministro André Mendonça determinou que a Polícia Federal apresentasse informações atualizadas sobre as pessoas apontadas na investigação como integrantes de uma possível rede de influência e monitoramento.
Em 27 de agosto, agentes e delegados federais concluíram a Informação de Polícia Judiciária IPJ-A nº 3298613/2026 e encaminharam o documento ao STF. O relatório reúne a análise de dispositivos eletrônicos e de mensagens apreendidas durante a investigação e reconstrói parte dos contatos de Vorcaro entre dezembro de 2023 e novembro de 2025.
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