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Juros e Selic

Crédito para empresas encarece mesmo com Selic em queda e recuperação judicial atinge recorde de 6.341 companhias no Brasil

Publicado 25/09/2026 • 09:45 | Atualizado há 49 minutos

KEY POINTS

  • Monitor RGF-BizDoc registra 6.341 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre, alta de quase 58% desde 2023.
  • Juro médio do crédito livre para empresas passou de 23,5% para 25,4% ao ano entre dezembro e julho, apesar dos cortes da Selic.
  • Médias empresas somam quase metade dos casos, e comércio, indústria e agro lideram o total de recuperações judiciais.
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Setor industrial sente efeito da Selic de 15% e registra queda em julho.

O crédito para empresas ficou mais caro no Brasil mesmo com a Selic em queda, e o número de companhias em recuperação judicial chegou ao recorde de 6.341 no segundo trimestre de 2026. O dado é do Monitor RGF-BizDoc de Recuperação Judicial, que acompanha cerca de 2,76 milhões de empresas no país.

No início de 2023, o levantamento registrava 4.014 empresas em recuperação judicial. Desde então, o total subiu quase 58%, e só em relação ao fim de 2025 a alta foi de 6,2%. Ainda assim, o índice do Monitor aponta cerca de 2,3 empresas em recuperação para cada mil companhias acompanhadas.

Enquanto isso, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a Selic pela quinta vez seguida na quarta-feira (16), para 13,75% ao ano, depois de um pico de 15%. O custo do dinheiro para as empresas, porém, andou no sentido oposto.

Os dados do Banco Central mostram que a taxa média de juros do crédito livre para pessoa jurídica passou de 23,5% ao ano em dezembro de 2025 para 25,4% em julho de 2026. No mesmo intervalo, a inadimplência das empresas nessa modalidade subiu de 3,5% para 4,2%.

Leia também: Desemprego no varejo aumenta: entenda o impacto do e-commerce e dos juros

Selic em queda demora a chegar ao caixa das empresas

Para Luís Gustavo de Paiva Leão, advogado especialista em recuperação judicial e extrajudicial e em reestruturação de dívida bancária, sócio do escritório PL Advogados, o que encarece o crédito de uma empresa de médio porte é o spread bancário. Na avaliação do advogado, o spread reflete o risco, e o risco aumentou com a alta da inadimplência e a desaceleração da economia.

De fato, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,9% no primeiro semestre de 2026, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Banco que vê inadimplência subindo não repassa corte de juro básico, ele reduz limite, encurta prazo e pede mais garantia”, afirma Leão.

Além disso, o advogado lembra que o juro real, na casa de 9% ao ano, ainda torna proibitivo financiar estoque e bens de capital. Pela análise dele, a dívida que leva uma empresa à recuperação judicial hoje foi contratada no pico do ciclo de juros e vem sendo rolada desde então a um custo maior do que o previsto.

“Corte de juro chega ao caixa da empresa dois a três trimestres depois, e chega primeiro para quem tem garantia”, diz o sócio do PL Advogados.

Médias empresas somam quase metade dos casos

Entre as 6.341 companhias em recuperação judicial, 3.106 são de médio porte, o equivalente a 49% do total, segundo o Monitor. Na leitura de Leão, essas empresas ocupam a pior posição na estrutura de crédito do país.

Por um lado, micro e pequenas empresas contam com um rito próprio na Lei 11.101/2005. Os artigos 70 a 72 permitem a apresentação de um plano especial, com parcelamento em até 36 meses e dispensa, em regra, da assembleia de credores. Já o artigo 24 limita a remuneração do administrador judicial nesses casos a 2% do valor pago aos credores.

Por outro, as grandes companhias costumam negociar suas dívidas fora do Judiciário, com bancos e detentores de títulos. O relatório da RGF-BizDoc registra que Raízen, GPA e Oncoclínicas reorganizaram juntas cerca de R$ 75 bilhões pela via extrajudicial, valor que não aparece nas estatísticas de recuperação judicial.

Para a média empresa, segundo o advogado, sobra o crédito bancário, com exigência de garantia real e cessão fiduciária de recebíveis. Nessa relação atua a chamada trava bancária, em que o banco retém na origem o recebível dado em garantia. “Corta o oxigênio de quem vende parcelado e paga fornecedor à vista”, afirma Leão.

Em ritmo de crescimento, porém, a base da pirâmide avançou mais. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo de 2026, o número de microempresas em recuperação judicial subiu 133%, o de pequenas, 69%, e o de médias, 31%.

Comércio, indústria e agro lideram recuperações

O comércio concentra o maior número de casos, com 1.649 empresas e alta de 22% em doze meses, conforme os dados citados pelo advogado. Para Leão, o setor vive uma crise de margem e de consumo, com perda de poder de compra das famílias e um modelo em que o varejo financia o cliente no parcelamento e paga o fornecedor à vista.

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A Casas Bahia é o maior caso do setor. Em agosto, a varejista pediu recuperação judicial depois de registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre.

Já a agropecuária soma 1.263 empresas e produtores em recuperação judicial, com alta de 66% em doze meses. O índice do setor é de 1,8 caso por mil empresas ativas, e a concentração aparece em usinas de açúcar, com 52,6 casos por mil, e frigoríficos, com 17,3 por mil.

Na análise de Leão, o campo enfrenta queda de preços, efeitos do clima, necessidade de capital de giro e crédito rural mais caro. Dois terços dos casos do setor são de micro e pequeno porte, reflexo da Lei 14.112/2020, que passou a admitir o produtor rural pessoa física na recuperação judicial.

Na indústria, o total chega a 1.455 empresas, com alta de 9% em doze meses. Mesmo com o avanço menor, o setor preocupa o advogado, porque o número de falências equivale a pouco mais da metade das recuperações em andamento. “É sinal de que se pulou a etapa intermediária”, afirma.

Nos serviços, o transporte de cargas responde por três em cada quatro recuperações do setor. A saúde, por sua vez, recuou de 128 para 123 empresas no segundo trimestre.

Estoque de processos explica parte do recorde

As 6.341 empresas formam um estoque de processos em andamento, que inclui companhias que entraram na Justiça em anos anteriores, explica Leão. Pelo artigo 61 da Lei 11.101/2005, a empresa pode permanecer sob fiscalização judicial por até dois anos depois de concedida a recuperação, o que mantém no total empresas que pediram recuperação em 2023.

Com isso, o recorde pode resultar tanto de novas entradas quanto de processos que não se encerram. O advogado lembra que o fluxo mensal de pedidos medido pela Serasa Experian teve recuos pontuais ao longo de 2026, enquanto o estoque seguiu em alta.

Parte do avanço, na avaliação dele, também reflete o acesso maior ao instrumento. A Lei 14.112/2020 abriu a recuperação judicial ao produtor rural pessoa física, criou a conciliação e a mediação prévias e facilitou o financiamento da empresa em crise.

Por outro lado, a saída das grandes companhias para a via extrajudicial faz o indicador subestimar o estresse no topo do mercado. Para o advogado, isso dá a impressão de que o problema está mais concentrado nas empresas menores do que de fato está.

Selic e juro longo definem próximos meses

Para os próximos meses, Leão considera mais provável que o estoque de empresas em recuperação judicial siga em alta, em ritmo menor. O fluxo de pedidos novos tende a perder força antes, enquanto o estoque só deve ceder quando os processos abertos entre 2023 e 2025 começarem a se encerrar.

Um agravamento, segundo ele, depende de três gatilhos. São eles a interrupção do ciclo de cortes da Selic, a alta da inadimplência empresarial acima de 4,5% e a falta de recomposição do crédito rural antes do plantio.

Caso isso ocorra, o advogado recomenda acompanhar as convolações de recuperações em falência, previstas no artigo 73 da lei. Os planos aprovados em 2023 e 2024 entram agora na fase de cumprimento, e plano descumprido pode levar à falência.

Uma melhora, na avaliação de Leão, exige que a queda da Selic chegue ao custo do crédito para pessoa jurídica, o que deve aparecer nos dados a partir do primeiro semestre de 2027. Mesmo assim, o estoque de empresas em recuperação judicial deve cair com cerca de um ano de defasagem em relação ao fluxo de pedidos.

O advogado aponta ainda a incerteza fiscal em ano eleitoral, que mantém pressionados os juros longos. São essas taxas que definem o custo de financiar máquinas, estoques e expansão, e, enquanto elas não cederem, a média empresa seguirá rolando dívida cara, na avaliação de Leão.

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