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Juros e dívida das famílias tiram força do PIB, enquanto emprego afasta cenário de crise
Publicado 25/08/2026 • 16:08 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 25/08/2026 • 16:08 | Atualizado há 1 hora
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A combinação de juros ainda restritivos, endividamento elevado das famílias e desaceleração dos serviços ajuda a explicar por que a economia brasileira deve perder força, apesar de o mercado de trabalho continuar sustentando a atividade, segundo Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos. Para ele, o emprego é justamente o fator que diferencia o atual momento de uma crise econômica.
Em entrevista nesta terça-feira (25) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Trotta analisou a redução da projeção do mercado para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2026, de 1,98% para 1,95%, além dos fatores que podem determinar o desempenho da economia e dos ativos brasileiros nos próximos meses.
Trotta apontou que a desaceleração ocorre após um período marcado por bom desempenho da bolsa e fortalecimento do real diante do dólar, mas em um ambiente no qual persistem obstáculos importantes para a atividade. “A gente tem alguns pontos, e eu separei aqui basicamente o que freia o nosso crescimento e o que também pode impulsionar”, afirmou.
Entre os fatores de pressão, o sócio da Valor Investimentos destacou juros restritivos, endividamento das famílias, queda das exportações, tarifas americanas e petróleo mais caro em razão da guerra. “A gente tem famílias com endividamento recorde, de 82%, exportações caindo, tarifas americanas, petróleo caro pela guerra. Esse é um ponto do que freia justamente esse crescimento”, explicou.
O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos também tem papel importante nesse cenário. Segundo Trotta, ele ajuda a sustentar o real ao atrair recursos estrangeiros, mas cria dificuldades para uma redução mais acelerada da Selic. “O real forte existe porque o Brasil hoje paga 10 pontos a mais no juro quando comparado aos Estados Unidos”, disse.
Uma redução muito rápida dos juros brasileiros poderia desmontar esse fluxo de recursos, pressionar novamente o dólar e, consequentemente, a inflação. “Se o Banco Central resolve cortar isso muito rápido, esse carry trade, esse movimento que acontece do dólar vir ao nosso mercado doméstico, é desmontado. E, com o dólar voltando, a inflação vem junto”, ressaltou.
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Apesar da perda de ritmo da atividade, Trotta destacou que o mercado de trabalho continua funcionando como um importante suporte para a economia brasileira. O desemprego em 5,4%, segundo ele, ajuda a impedir que a desaceleração se transforme em uma deterioração mais profunda.
“A gente hoje também vê o desemprego em 5,4%, é o menor da história, com mais de 100 milhões de ocupados. É o que separa, de certa forma, essa desaceleração do PIB de uma crise”, avaliou.
O problema, segundo Trotta, está principalmente no enfraquecimento do consumo e dos serviços, considerados motores importantes da atividade doméstica. “Quando a gente olha o principal motor de um crescimento do nosso país, que é basicamente o consumo das famílias, atividade de serviços, ela vem em desaceleração desde aquele movimento em que o juro ficou muito alto”, pontuou.
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Siga o Times | CNBCO crescimento mais forte registrado no primeiro trimestre, acrescentou, esteve associado a fatores específicos, incluindo o desempenho do agronegócio. “A gente teve um primeiro trimestre esse ano que foi de alto crescimento, só que basicamente foi por conta de alguns fatores específicos. O próprio agro ajudou bastante com o recorde da soja”, explicou. Para ele, quando o foco volta aos serviços, “a gente vem em uma desaceleração há um certo tempo”.
Mesmo diante da perspectiva de menor crescimento, juros elevados e inflação ainda resistente, o Brasil continua atraindo investidores internacionais. Trotta relaciona parte desse movimento à composição da bolsa brasileira e ao peso das commodities no mercado doméstico.
“Nosso país é um país forte em commodity. A nossa bolsa representa isso. Petrobras e Vale são as maiores empresas do índice, basicamente”, afirmou. Segundo ele, a valorização do petróleo desde o início da guerra contribuiu para impulsionar o desempenho do mercado acionário brasileiro.
A distância geográfica do Brasil em relação às principais tensões também ajudou a direcionar recursos para o país. “O Brasil, por essa distância geográfica em relação a todas as tensões geopolíticas, acabou recebendo um fluxo financeiro muito alto”, explicou Trotta.
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O movimento também refletiu uma estratégia de investidores estrangeiros de buscar mercados emergentes. “Já foi uma estratégia do investidor estrangeiro levar esse recurso a um mercado emergente. O Brasil, por essa distância geográfica, recebeu isso com carinho, de certa forma, e a bolsa respondeu”, disse. A Petrobras, acrescentou, teve papel relevante nesse processo diante da alta do petróleo.
Para o fim de 2026 e o início de 2027, Trotta identifica duas variáveis capazes de acelerar ou limitar o desempenho dos ativos e da economia brasileira: a trajetória dos juros americanos e, principalmente, a condução das contas públicas após as eleições.
“São duas chaves que podem acelerar, de certa forma, essa performance ou travar”, afirmou. No cenário internacional, uma eventual redução dos juros americanos poderia aliviar as condições domésticas. “Um juro caindo nos Estados Unidos poderia resolver, de certa forma, a nossa situação local. Isso poderia abrir espaço para uma redução de Selic, bolsa voltar a andar”, avaliou.
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Trotta, porém, considera que a questão fiscal brasileira terá efeitos mais duradouros. “Quando a gente olha um período mais longo, o que a gente espera de um cenário mais permanente, o nosso fiscal resolve muito mais”, destacou.
Nesse contexto, uma sinalização de maior controle dos gastos após as eleições poderia melhorar as perspectivas para 2027, mesmo diante dos possíveis efeitos do El Niño sobre o agronegócio. “Um provável eleito dessa eleição vir com uma austeridade fiscal e já divulgar isso em novembro pode melhorar muito a nossa condição de crescimento para o próximo ano”, afirmou.
Segundo Trotta, o cenário pode ser favorecido por uma eventual queda dos juros nos Estados Unidos, mas uma melhora estrutural dependerá das decisões tomadas internamente. “Algo mais estrutural é justamente a gente ter uma austeridade fiscal e, após a eleição, que sabemos que é um momento de maior gasto, ter uma definição para um plano de metas para o nosso fiscal do próximo ano”, concluiu.
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