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“Eu não apostaria numa retomada chegando aos 200 mil”, diz economista sobre Bolsa dependendo do fiscal e dólar mirando o piso de R$ 6
Publicado 03/07/2026 • 21:40 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 03/07/2026 • 21:40 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
A falta de uma trajetória clara de controle da dívida pública pode elevar o patamar do dólar no Brasil nos próximos anos, afirmou Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais.
Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Lucena disse que a cotação atual, na faixa de R$ 5,20 a R$ 5,30, pode deixar de ser referência caso a dívida continue subindo e a confiança dos investidores se deteriore.
“Se não houver uma trajetória clara de controle da dívida pública, o dólar vai continuar disparando”, afirmou. “Se essa dívida subir mais 5, 6, 7 pontos nos próximos dois, três anos, o piso não vai ser mais R$ 5,20. A gente vai estar falando de piso de R$ 6, R$ 6,10.”
Segundo o economista, a pressão sobre o câmbio não deve ser vista apenas como exercício de futurologia, mas como reflexo direto do risco percebido pelos investidores.
“É questão de risco. O risco dos investidores receberem seus retornos no Brasil vai ser maior”, disse.
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Lucena afirmou que o mercado financeiro brasileiro deve enfrentar um segundo semestre de elevada volatilidade. Segundo ele, três fatores devem pesar sobre os ativos: a eleição presidencial, a trajetória dos juros nos Estados Unidos e a situação fiscal brasileira.
O economista disse que investidores devem acompanhar as pesquisas eleitorais em busca de sinais sobre continuidade da atual política fiscal ou possibilidade de reformas estruturais no próximo governo.
“Vamos ter um momento focado muito grande na eleição presidencial”, afirmou. “Por um lado, a gente vai ter um governo que pode ter continuidade e maior pressão sobre o fiscal; por outro, a possibilidade de um governo que vai fazer algum tipo de reforma estrutural.”
Além da eleição, Lucena citou a possibilidade de alta de juros nos Estados Unidos como fator de pressão. Se os juros americanos subirem, disse, o Brasil pode enfrentar saída de dólares, com impacto sobre câmbio, bolsa e expectativas.
Para o economista, a bolsa brasileira dificilmente terá uma recuperação forte sem melhora fiscal.
“Eu não apostaria numa retomada chegando aos 200 mil pontos”, disse. “Se a gente não resolver o problema fiscal do Brasil, a gente não tem como ter um crescimento sustentável da bolsa brasileira.”
Lucena afirmou que títulos públicos com retornos elevados também competem com a renda variável e reduzem o apetite por ações.
“A concorrência com os títulos públicos gera um crowding out muito grande”, afirmou.
Ao comentar a queda da produção industrial em maio, Lucena disse que a economia brasileira já está em desaceleração há algum tempo.
Segundo ele, a atividade tem sido sustentada por gastos públicos, programas de crédito e estímulos ao consumo, mas esse modelo começa a encontrar limite no endividamento das famílias.
“A economia brasileira está anestesiada”, afirmou. “O crescimento está vindo de gastos do governo espalhados em vários setores da economia, com sistemas assistenciais e incentivos.”
Para Lucena, sem esse impulso fiscal, a economia já estaria em ambiente mais contracionista.
O economista disse que o consumo bateu em um teto porque as famílias estão mais endividadas. Ele citou programas de crédito e consignado como parte do estímulo que impulsionou a demanda, mas afirmou que a conta começou a aparecer nos dados da indústria.
“Essa conta chegou e chegou batendo na indústria”, disse.
Segundo ele, o Brasil tem crescido mais pelo consumo do que pelo investimento. O problema, afirmou, é que o investimento não acompanha a necessidade da economia.
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Siga o Times | CNBC“A formação bruta de capital fixo é inferior à necessidade da economia brasileira”, afirmou. “Como a necessidade de investimento no Brasil se baseia fundamentalmente na confiança no crescimento do país, esse investimento não está chegando porque as contas públicas estão desordenadas.”
Lucena afirmou que o Brasil corre o risco de repetir parte do quadro observado em 2015, com atividade fraca, inflação pressionada e deterioração fiscal.
“Do ponto de vista prático, a gente está repetindo, infelizmente, o cardápio que viu em 2015”, disse.
Ele afirmou que o Banco Central tem sido competente para evitar a perda de expectativas, mas alertou que qualquer mudança brusca na política monetária poderia ser negativa para a economia.
“Qualquer tipo de cavalo de pau no setor monetário seria extremamente trágico para a economia brasileira”, afirmou.
Segundo Lucena, o país não deve quebrar, mas pode perder capacidade de crescimento se não enfrentar o problema fiscal.
“O Brasil não vai quebrar, mas a possibilidade de crescimento vai ficar cada vez menor”, disse.
Lucena afirmou que o Banco Central enxerga sinais de paralisação em vários setores da economia, o que pode abrir espaço para uma ou duas quedas adicionais da taxa básica de juros.
Ainda assim, ele disse que o ciclo de cortes deve ser limitado porque as expectativas de inflação continuam pressionadas.
“A gente espera ainda um ciclo de diminuição de taxa de juros, uma ou duas reuniões, mas isso vai parar”, afirmou. “Vai parar porque a inflação vai continuar crescendo.”
Para o economista, o desafio do Banco Central é lidar com uma combinação difícil: atividade mais fraca e expectativa de inflação ainda em alta.
“O Brasil está entrando numa situação inversa: a atividade econômica está diminuindo, mas há expectativa futura de aumento da inflação”, disse.
Lucena afirmou que o BC tenta conter a economia com juros elevados, enquanto Executivo, Legislativo e Judiciário mantêm pressão de gastos.
“O Banco Central segura a economia com aumento de taxa de juros, mas o governo, e eu falo Executivo, Legislativo e Judiciário, todos estão pisando no acelerador com seus gastos públicos”, afirmou.
Leia também: Bolsas da Ásia fecham em alta após desempenho misto em Nova York
Na avaliação de Lucena, o ponto central para câmbio, bolsa e juros é a dinâmica da dívida pública. Segundo ele, a entrada de dólares no país depende da confiança dos investidores de que conseguirão receber seus retornos.
“Dólar cada vez mais alto significa um país cada vez mais difícil de pagar seus investidores e seus bondholders”, afirmou.
Para o economista, sem ajuste fiscal, o país tende a conviver com crescimento baixo, inflação resistente, juros elevados e maior pressão cambial.
“Ou a gente toma uma atitude clara e séria, ou vai ficar discutindo probabilidades de não resolver isso, que seria crescimento baixo e inflação alta”, disse.
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