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Super El Niño “Godzilla” ameaça safra, inflação e próximos passos da Selic

Publicado 03/07/2026 • 21:49 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Fenômeno climático já entrou no radar de investidores e pode afetar commodities agrícolas, alimentos e câmbio.
  • Analistas veem risco do mercado ainda subestimar uma eventual quebra na safra brasileira de grãos.
  • Warren estima impacto de 0,16 ponto percentual no IPCA de 2026, com pressão maior sobre alimentos in natura e proteínas.

Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística

El Niño

O avanço do chamado Super El Niño ou El Niño Godzilla passou a ser tratado pelo mercado como um risco para commodities, inflação, câmbio e juros no Brasil.

O fenômeno já está em curso e deve ganhar força até o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27, segundo a NOAA, agência de clima e oceanos dos Estados Unidos. O órgão aponta probabilidade de 63% de um El Niño muito forte entre novembro e janeiro.

O termo “Super El Niño” não é uma classificação técnica oficial, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial. Ainda assim, a expressão passou a aparecer em relatórios e análises de mercado para descrever a possibilidade de um evento de intensidade elevada.

Como o país é um dos maiores produtores e exportadores de grãos do mundo, uma mudança relevante no regime de chuvas pode afetar a produção de soja e milho, pressionar preços de alimentos e mexer com empresas ligadas ao agronegócio.

O efeito também pode chegar ao câmbio e às decisões do Banco Central, especialmente se uma eventual frustração de safra tornar a inflação de alimentos mais persistente.

Leia também: El Niño mantém mercado de cacau em alerta mesmo com previsão de superávit

Mercado já olha para o risco, mas pode subestimar impacto

Para Beny Fard, sócio da B8 Partners e especialista em investimentos e negócios internacionais, o mercado já começou a incorporar o risco climático, mas ainda de forma parcial.

Segundo ele, o principal ponto de atenção está no cenário-base das casas de análise, que ainda considera uma safra forte em 2026/27.

“O risco real pode estar justamente nesse ponto cego”, afirma Fard.

Na avaliação dele, uma frustração de cerca de 6% no volume projetado de soja seria suficiente para retirar aproximadamente 11 milhões de toneladas do mercado global. Esse movimento reduziria a relação entre estoque e consumo de 28% para 25% e poderia pressionar os preços na Bolsa de Chicago.

O segundo semestre de 2026 pode se tornar um período de risco assimétrico para ativos ligados a commodities agrícolas. Se a safra vier dentro do esperado, o mercado apenas confirmaria parte do cenário já precificado. Se houver uma quebra mais relevante, a reação nos preços pode ser mais forte.

Soja, milho e alimentos ficam no centro da atenção

O canal mais direto de transmissão é o das commodities. Uma oferta menor de soja e milho no Brasil pode elevar os preços internacionais, afetar empresas do agronegócio e pressionar custos ao longo da cadeia de alimentos.

O impacto pode aparecer também em logística, armazenagem, proteínas, crédito rural e nos custos de produção de setores dependentes de ração animal.

Para Fard, os produtos mais sensíveis seriam milho, hortaliças, frutas, leite e trigo. Nas proteínas, o efeito seria indireto, por meio do encarecimento da ração.

Esse tipo de choque costuma chegar ao consumidor com defasagem. Primeiro, a pressão tende a aparecer em alimentos in natura. Depois, pode alcançar proteínas, que têm ciclos de produção mais longos.

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Warren vê impacto de 0,16 ponto no IPCA de 2026

Estudo especial da Warren Investimentos, assinado por Andréa Angelo, estrategista de inflação, estima que o El Niño pode acrescentar 0,16 ponto percentual ao IPCA de 2026 e 0,05 ponto ao índice de 2027.

O impacto acumulado atingiria o pico em junho de 2027 e só se dissiparia completamente em junho de 2028, segundo a Warren.

A pressão tende a se concentrar primeiro em alimentos in natura, com efeito já no mês seguinte ao início do fenômeno. Nas proteínas, o repasse seria mais lento e poderia começar cerca de seis meses depois.

Considerando apenas alimentação no domicílio, o impacto estimado pela Warren é de 1,06 ponto percentual em 2026 e 0,36 ponto em 2027.

Risco climático pode limitar espaço para corte de juros

O possível efeito sobre alimentos importa para o Banco Central porque a inflação de comida pesa diretamente no bolso das famílias e pode contaminar expectativas.

A Selic está em 14,25% ao ano, após o Banco Central reduzir a taxa básica em 0,25 ponto percentual na reunião de junho. O Copom deixou os próximos passos em aberto, em um cenário de inflação ainda pressionada e incertezas sobre o ritmo de afrouxamento monetário.

Para Fard, uma surpresa climática negativa no segundo semestre de 2026 poderia aumentar a persistência da inflação e reduzir o espaço para novos cortes de juros.

Nesse cenário, o El Niño entraria na conta do mercado não apenas como um risco para commodities agrícolas, mas também como um fator capaz de influenciar expectativas para inflação e política monetária.

Leia também: ONU alerta para fortalecimento do El Niño e aumento do risco de eventos climáticos extremos

Câmbio também pode sentir o efeito

O câmbio é outro canal de transmissão. Segundo Fard, o impacto sobre o real pode ocorrer em duas direções.

De um lado, uma safra menor reduziria o volume físico de exportações brasileiras, o que diminuiria a entrada de dólares no país. Esse efeito tenderia a pressionar o real.

De outro, se a quebra de oferta elevar os preços internacionais das commodities, parte da perda em volume poderia ser compensada por preços mais altos.

O resultado líquido dependerá do tamanho da frustração da safra. Em um cenário mais adverso, o Brasil poderia enfrentar uma combinação desconfortável: menor fluxo de dólares via exportações agrícolas, pressão sobre o câmbio e alta dos alimentos ao mesmo tempo.

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