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Indústria elogia corte da Selic, mas critica juros restritivos que travam crédito e investimentos

Publicado 05/08/2026 • 21:15 | Atualizado há 24 minutos

KEY POINTS

  • Entidades empresariais consideraram positiva a nova redução dos juros, mas afirmaram que 14% ao ano ainda é um nível restritivo para empresas e famílias.
  • CNI calcula que a Selic está 3,6 pontos percentuais acima da taxa indicada pela Regra de Taylor, enquanto Fiesp alerta para os efeitos dos juros sobre crédito e dívida pública.
  • Fiemg, Firjan e Fecomércio MG defendem continuidade do ciclo de cortes, associada a maior previsibilidade fiscal e melhora do ambiente de negócios.

Foto: Arquivo Nacional

A redução da Selic para 14% ao ano foi recebida de forma positiva por entidades empresariais nesta quarta-feira (5), mas a avaliação predominante é de que o nível dos juros continua alto o suficiente para limitar investimentos, encarecer o crédito e pressionar empresas e consumidores.

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14%, no quarto corte consecutivo da mesma magnitude. A decisão foi unânime.

Apesar da continuidade da flexibilização, o Banco Central reforçou no comunicado que seguirá agindo com cautela diante da desancoragem das expectativas de inflação, das incertezas fiscais e dos riscos associados ao petróleo, ao cenário internacional e a fatores climáticos.

CNI vê corte como acertado, mas critica nível dos juros

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou a decisão como acertada, mas afirmou que a Selic continua em um patamar que agrava as dificuldades enfrentadas pelo setor produtivo.

“Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Segundo a entidade, o crédito caro compromete investimentos das empresas e também pesa sobre a renda das famílias, em um momento de endividamento elevado.

A CNI calcula que a Selic está 3,6 pontos percentuais acima do nível indicado pela Regra de Taylor, metodologia usada pela entidade para estimar uma taxa compatível com o controle da inflação sem um aperto excessivo da atividade. Pela conta da confederação, essa taxa estaria em torno de 10,4%.

A entidade também observa que a inflação corrente vem perdendo força. O IPCA-15 acumulou alta de 4,52% em 12 meses até julho, abaixo dos 4,8% observados anteriormente.

Leia também: Copom reduz taxa de juros para 14% ao ano; redução de 0,25 p.p. da Selic é a quarta seguida do BC

Empresas ainda sentem pressão financeira, diz CNI

A confederação também chamou atenção para os efeitos dos juros sobre o caixa das empresas.

Pesquisa citada pela entidade aponta que 53% das companhias esperam aumento da necessidade de financiamento para contas a pagar nos próximos três meses. Outros 47% projetam maior pressão sobre contas a receber e 42% sobre estoques.

Entre as empresas que precisarão de mais capital, mais de 55% esperam encarecimento do crédito e cerca de 39% projetam aumento do endividamento bancário.

A CNI afirma ainda que 58% das empresas consultadas preveem redução das margens líquidas.

Fiesp alerta para impacto sobre crédito e dívida pública

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) avaliou que a manutenção dos juros em nível elevado continua produzindo efeitos sobre empresas, famílias e contas públicas.

A entidade ressaltou que a Selic representa apenas a taxa básica, enquanto o crédito efetivamente contratado por empresas e consumidores é muito mais caro.

Segundo a Fiesp, taxas para pessoas jurídicas podem chegar a 30% ao ano, enquanto o crédito para pessoas físicas supera 60% em algumas modalidades.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, também associou o nível dos juros ao quadro fiscal.

“Soma-se aos juros altos a gastança desmedida do governo. A consequência é dívida pública atingindo 82% do PIB e ultrapassando a marca dos R$ 10,8 trilhões”, afirmou.

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Segundo Skaf, o custo dessa dívida, fortemente influenciado pela Selic, gera encargos superiores a R$ 1 trilhão por ano e aumenta a pressão sobre as contas públicas.

Fiemg pede maior coordenação entre política fiscal e monetária

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também considerou o corte positivo, mas insuficiente para neutralizar os efeitos acumulados dos juros elevados sobre produção, investimento e emprego.

Para a entidade, um ciclo mais consistente de redução da Selic depende também de uma melhora do ambiente fiscal.

“A estabilidade de preços é indispensável para o crescimento sustentável da economia. O processo precisa ocorrer com menor custo para a produção, os investimentos e o emprego”, afirmou João Gabriel Pio, economista-chefe da Fiemg.

A federação avalia que políticas fiscais expansionistas e programas de crédito subsidiado podem reduzir a eficácia da política monetária quando não são acompanhados de medidas voltadas ao equilíbrio das contas públicas.

Leia também: Inflação e câmbio favorecem corte da Selic, mas trajetória dependerá do fiscal

Firjan aponta impacto sobre modernização da indústria

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também recebeu positivamente a redução, mas ressaltou que o custo do capital permanece elevado.

Segundo a entidade, juros altos postergam investimentos, dificultam a modernização das empresas e reduzem a capacidade do setor produtivo de ganhar competitividade.

A Firjan citou como exemplo o desempenho da indústria de transformação, que cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre, segundo dados do IBGE mencionados pela entidade.

Para a federação, novos cortes precisam vir acompanhados de avanços no equilíbrio fiscal, redução dos prêmios de risco e continuidade das iniciativas para diminuir o chamado Custo Brasil.

Comércio também queria redução maior

A Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG) avaliou que havia espaço para uma redução mais intensa da Selic.

Segundo a entidade, juros elevados afetam tanto o lado empresarial quanto o consumo.

Empresas encontram maior dificuldade para financiar estoques, capital de giro e folha de pagamento, enquanto consumidores tendem a adiar compras, viagens e gastos com serviços.

Na avaliação da federação, essa combinação aumenta as despesas financeiras das empresas ao mesmo tempo em que pode reduzir as receitas.

Próximos cortes são incertos

O Banco Central evitou indicar no comunicado desta quarta-feira qual será o próximo passo.

O Copom afirmou que a magnitude total do ciclo dependerá da evolução dos dados e destacou que os riscos para a inflação continuam acima do normal, com maior peso para possíveis surpresas de alta.

Entre os fatores monitorados estão a inflação de serviços, as expectativas acima da meta, a política fiscal, o comportamento do câmbio, a alta do petróleo e os efeitos climáticos sobre alimentos e energia.

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