Christopher Garman avalia que o Supremo vive uma “crise institucional inédita” e não vê solução rápida para o conflito interno
Diretor da Eurasia Group considera alto o potencial de novos vazamentos de investigações durante a campanha eleitoral
Para ele, novas denúncias não necessariamente derrubam candidatos, mas podem ampliar o pessimismo do eleitor.
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) deve continuar nas próximas semanas e novos vazamentos de investigações podem aumentar a pressão sobre a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, avaliou Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da Eurasia Group.
Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Garman classificou o cenário aberto pelos desdobramentos do caso Master como uma “crise institucional inédita” e disse não enxergar uma solução rápida para o conflito dentro da Corte.
“Nós estamos numa guerra aberta dentro do Supremo Tribunal Federal, uma crise institucional inédita nos tribunais”, afirmou.
Segundo ele, mesmo movimentos do presidente do STF, Edson Fachin, para reduzir o protagonismo dos ministros envolvidos nas disputas dificilmente encerrarão a crise no curto prazo.
“Não estamos enxergando na Eurasia uma resolução para essa crise institucional tão cedo”, disse.
Fachin pode assumir mais protagonismo no STF
Garman avaliou que Fachin tende a centralizar parte das decisões relacionadas às disputas recentes como forma de reduzir a temperatura dentro do tribunal.
O presidente do Supremo deu prazo para manifestações de Alexandre de Moraes, André Mendonça, Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal sobre as controvérsias envolvendo as investigações.
“O que parece é que o presidente do Supremo vai ter que assumir parte dessas responsabilidades para si mesmo e tirar um pouco o protagonismo dos dois ministros que estão num embate enorme”, afirmou.
Segundo Garman, Fachin pode tentar proteger institucionalmente a Corte assumindo maior controle sobre os procedimentos.
“Talvez ele venha assumir mais para ele. Acho que o ministro Fachin está caminhando para assumir um protagonismo maior”, disse.
Eurasia vê risco elevado de novos vazamentos no STF
Mesmo com uma tentativa de centralização no Supremo, Garman considera elevado o risco de novas informações de investigações chegarem ao público antes das eleições.
“O potencial de mais vazamentos é alto”, afirmou.
Segundo ele, existem diferentes investigações em andamento e múltiplas possíveis fontes de divulgação de informações.
“Tem investigações não só sobre o Dark Horse, tem investigações do lado do Banco Master, tem investigações que estão ocorrendo no Rio de Janeiro também. Então, tem múltiplas fontes que podem ter vazamento de denúncias antes das eleições”, disse.
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Garman afirmou ser impossível antecipar de onde viriam essas informações, mas relacionou o risco ao grau de politização do ambiente institucional.
“O que nós estamos enxergando é um certo mar de lama de denúncias que estão saindo. Na medida que um lado vaza algo, o outro lado vaza outra coisa”, afirmou.
Impacto eleitoral pode ser menor que em crises anteriores
Apesar da gravidade institucional, Garman não espera que cada nova denúncia produza necessariamente uma mudança abrupta na intenção de voto.
Segundo ele, existe hoje uma desconfiança generalizada do eleitor em relação à política e às instituições.
“Paradoxalmente, a repercussão eleitoral é menor do que aparenta à primeira vista”, afirmou.
Na avaliação do diretor da Eurasia, parcela relevante do eleitorado já tem uma percepção negativa dos principais candidatos quando o assunto é corrupção, o que reduz o poder desse tema de diferenciar Lula e Flávio Bolsonaro.
“Novas denúncias não têm um impacto tão enorme quanto no passado, quando o tema de corrupção não é um diferenciador dos dois candidatos”, disse.
Pessimismo pode dificultar campanhas
O efeito mais importante, segundo Garman, pode surgir de forma indireta.
Uma sequência de escândalos e denúncias durante a campanha tende a reforçar uma percepção negativa sobre o ambiente político e institucional, o que normalmente cria dificuldades adicionais para quem ocupa o governo.
“Se você tem várias denúncias ainda continuando nessas próximas semanas, qual a repercussão? Reforça o grau de pessimismo do eleitor como um todo”, afirmou.
Para Garman, esse ambiente dificulta a estratégia de Lula de destacar realizações do governo e apresentar uma perspectiva positiva para um novo mandato.
“Essa mensagem é difícil de vender quando você tem uma matéria de corrupção, um escândalo tão enorme, nessa crise inédita do Supremo”, disse.
Ele ponderou que o episódio, isoladamente, não deve ser suficiente para definir a eleição.
“Não é algo que derruba nenhum candidato, mas cria um pessimismo que dificulta a vida, particularmente da campanha do PT e do presidente Lula”, afirmou.
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