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Meloni atinge marco político na Itália; ex-líderes cobram reformas econômicas

Publicado 05/09/2026 • 09:08 | Atualizado há 56 minutos

KEY POINTS

  • O governo da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, tornou-se na sexta-feira o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
  • O período de estabilidade política foi bem recebido pelo mercado de títulos, enquanto o déficit público caiu de forma significativa.
  • Ex-líderes italianos disseram à CNBC, no entanto, que o país ainda precisa de reformas para fortalecer uma economia estagnada.
Giorgia Meloni

Reuters

A presidente do conselho de ministros da Itália, Giorgia Meloni

A maior estabilidade política sob o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni aumentou a atratividade da Itália aos olhos dos investidores internacionais, mas ex-líderes do país afirmam que ainda há mais a ser feito.

Em entrevista à CNBC na sexta-feira, dois ex-primeiros-ministros italianos disseram que são necessárias reformas para impulsionar a economia do país, que enfrenta dificuldades para crescer.

Na noite de sexta-feira, o governo de coalizão de Meloni, que tomou posse em outubro de 2022, realizou um evento na cidade portuária de Bari para marcar o momento em que se tornou o governo italiano mais longevo desde a Segunda Guerra Mundial.

“Nestes anos, trabalhamos para aumentar o emprego, reduzir o desemprego, apoiar famílias e empresas, reforçar a segurança, administrar as contas públicas com seriedade e devolver à Itália peso e credibilidade no cenário internacional”, afirmou Meloni em comunicado na sexta-feira.

Economia italiana desacelera

O marco é particularmente relevante em um país historicamente associado à instabilidade política — problema que se intensificou durante a crise da dívida soberana da zona do euro, entre 2010 e 2012. A Itália teve 68 governos em 80 anos.

“Trocas frequentes de governo estão se tornando normais em outros países, enquanto a estabilidade está se tornando normal na Itália. Impressionante”, disse à CNBC Paolo Gentiloni, que foi primeiro-ministro italiano entre dezembro de 2016 e junho de 2018.

“Ao mesmo tempo, o histórico [de Meloni] é positivo por uma certa cautela nas contas públicas, que reduziu nosso spread. Mas é só isso, e longevidade não é suficiente para um governo.”

Gentiloni afirmou que a Itália registrou uma “recuperação muito boa” após a pandemia, mas que o ritmo perdeu força nos últimos dois ou três anos.

A economia italiana cresceu 0,5% em 2025, abaixo da média de 1,5% da zona do euro e entre os menores avanços do bloco. A taxa de emprego do país continua sólida, mas o desemprego entre os jovens ficou em 18,9% em julho, acima da média de 14,9% da zona do euro.

“Isso, claro, é um fracasso”, afirmou Gentiloni. “Nos últimos dois ou três anos, vimos o poder de compra das famílias cair, e esse é um motivo para o governo não estar tão satisfeito quanto parece.”

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‘O poder modera posições extremas’

Mario Monti, primeiro-ministro da Itália entre 2011 e 2013, disse à CNBC que Meloni conseguiu permanecer no cargo por ser uma “política muito habilidosa” — e também porque “não fez muita coisa”.

“Ela evitou cuidadosamente confrontos com setores da sociedade que poderiam ter levado à modernização da economia, com mais concorrência e competitividade, mas que teriam lhe custado apoio político”, afirmou Monti, atual presidente do Instituto Javotte Bocconi.

A Itália precisa de reformas estruturais, incluindo maior combate à sonegação de impostos, aplicação integral das leis de concorrência e disposição para “injetar mais dinamismo” na economia por meio de “um pouco mais de destruição criativa”, afirmou Monti.

O governo de Meloni é acompanhado de perto na França e na Alemanha, países onde partidos de extrema direita vêm ganhando espaço político.

“É verdade que o poder modera posições extremas”, disse Monti, ao comentar a avaliação de que Meloni se mostrou mais pragmática no governo do que sua plataforma populista de direita durante a campanha sugeria.

“É por isso que ninguém agora (…) defenderia a saída da União Europeia ou do euro. Mas, se não houver disposição para enfrentar algum confronto político, isso traz, sim, mais estabilidade, porém também falta de crescimento e deterioração da sociedade, a ponto de até os mais jovens e qualificados do país quererem ir embora”, afirmou Monti.

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Enrico Letta, que liderou um governo de coalizão na Itália entre 2013 e 2014, afirmou que o desempenho econômico “não tão bom” e as tensões nas relações entre países europeus têm prejudicado a percepção sobre a Itália, apesar da estabilidade política interna.

“A estabilidade é um valor, mas o que realmente importa é a estabilidade das relações entre os países europeus. Não fiquei satisfeito com todo esse verão de conflitos sobre imigração, Schengen e outras questões”, disse à CNBC Letta, reitor da IE School of Politics, Economics and Global Affairs.

Segundo Letta, os países europeus precisam priorizar a cooperação em temas como imigração, guerras comerciais, segurança e inflação, além de concluir a aguardada União de Poupança e Investimentos da União Europeia e estabelecer um marco regulatório único, caso o bloco queira atrair mais investimentos internacionais.

Reversão do déficit

Meloni assumiu o governo de uma Itália politicamente dividida e com sérios problemas fiscais.

Na época, havia fortes preocupações com o déficit público do país, que correspondia a 7,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Quando o déficit aumentou para 7,4% do PIB em 2023, a Itália foi submetida ao procedimento de déficit excessivo da União Europeia, que estabelece como referência um limite de 3% do PIB para o déficit público.

Desde então, o déficit caiu significativamente e fechou 2025 em 3,1% do PIB. A Comissão Europeia espera que o indicador recue para 2,9% neste ano, impulsionado pelo aumento do emprego e dos salários, que têm elevado a arrecadação do governo.

Com a queda do déficit, também recuaram os rendimentos dos títulos públicos italianos. O spread entre os títulos da Itália e da Alemanha diminuiu fortemente desde o fim de 2022, indicando que os investidores agora exigem um prêmio de risco menor para manter papéis italianos em vez dos alemães. No mesmo período, o spread entre os títulos da França e da Alemanha aumentou significativamente.

Ainda assim, Roma — assim como vários outros países do G7 — continua enfrentando um problema expressivo de endividamento. A relação entre dívida e PIB da Itália voltou a subir em 2024, segundo dados da União Europeia, principalmente por causa de uma política adotada durante a pandemia que concedia créditos tributários para reformas residenciais. Em 2025, a dívida equivalia a 137,1% do PIB e deve subir para 138,5% neste ano.

Impulso aos títulos

Embora os custos de financiamento do governo italiano tenham sido afetados pelas vendas globais de títulos após choques geopolíticos, como a guerra entre Estados Unidos e Irã, e pelos temores dos investidores com a inflação, os rendimentos continuam significativamente abaixo dos níveis observados antes de Meloni assumir o cargo. Os rendimentos dos títulos se movimentam em sentido contrário aos preços.

“A surpresa do governo de Giorgia Meloni foi que ela, em grande medida, governou como uma pragmática fiscal, e não como uma populista”, disse Lauren Hyslop, gestora de investimentos da Mattioli Woods, à CNBC por e-mail na sexta-feira.

“Os mercados recompensaram essa postura com spreads menores entre os títulos, elevações nas notas de crédito e custos de financiamento mais baixos. A Itália, sem dúvida, recuperou credibilidade entre os investidores.”

“A Itália costumava carregar quase automaticamente um prêmio pela instabilidade política. Isso diminuiu consideravelmente”, concordou Ken Egan, diretor sênior de ratings soberanos da agência KBRA, citando a longevidade do governo, uma trajetória fiscal mais previsível e a continuidade das reformas.

Segundo Egan, os títulos italianos de médio e longo prazo têm apresentado desempenho relativamente melhor do que os de outras economias desenvolvidas durante a onda global de vendas. O rendimento do título italiano de dez anos subiu 62 pontos-base neste ano, mas seu retorno total em dez anos — considerando tanto as variações de preço quanto a renda com juros — é o melhor entre os pares europeus, afirmou.

Jason Borbora-Sheen, cogestor de estratégias de renda da Ninety One, disse à CNBC na sexta-feira que, embora haja “algo na estabilidade e na continuidade da liderança política” na Itália, existe também um componente de retroalimentação na melhora do quadro fiscal do país.

“Quanto mais estável o país, menor ou mais controlado é o peso da dívida, maior a probabilidade de a população estar satisfeita com quem está no governo, e vice-versa”, afirmou.

Apesar disso, Borbora-Sheen disse que sua equipe não vê uma tese de investimento especialmente atraente para os títulos públicos italianos.

“A história dos fundamentos tem sido muito positiva, mas acreditamos que o mercado já reconhece isso”, disse.

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