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Minerais críticos e prazo de 30 dias para tarifaço: Lula tenta destravar agenda econômica com Trump

Publicado 07/05/2026 • 21:58 | Atualizado há 51 minutos

KEY POINTS

  • Ex-secretário da Câmara de Comércio Exterior, Roberto Giannetti avalia que o prazo anunciado após a reunião deve ser usado para evitar uma decisão adversa dos EUA.
  • Dario Durigan afirma que o déficit comercial do Brasil com os Estados Unidos reforça o argumento brasileiro contra novas barreiras.
  • Para ministro Alexandre Silveira,  estratégia para minerais críticos passa por desenvolver a cadeia no Brasil, da separação ao refino.

Foto: Palácio do Planalto

O prazo de 30 dias citado pelo presidente Lula após a reunião com Donald Trump não deve ser visto apenas como uma trégua diplomática, mas como uma janela para tentar evitar uma decisão comercial adversa ao Brasil. A avaliação é de Roberto Giannetti, economista e ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

“Eu acho que é um prazo para fazer um acordo, porque não adianta 30 dias de trégua. Daqui a pouco vem uma decisão negativa e adversa ao Brasil e a gente vai ficar com tarifas que podem perdurar muito tempo”, afirmou Giannetti.

Na coletiva após o encontro na Casa Branca, em Washington, Lula disse estar “muito otimista” sobre a negociação e afirmou que propôs que as equipes técnicas dos dois países busquem uma solução para as divergências.

“Como a gente não podia ficar debatendo o dia inteiro sobre isso, eu propus: vamos dar 30 dias para esses companheiros resolverem o problema e lá voltamos a conversar”, disse Lula.

A partir de agora, a disputa deixa o campo do gesto político e passa para uma negociação entre equipes dos dois países, que terão como tarefa transformar o bom clima da reunião em uma saída concreta para o impasse sobre barreiras comerciais.

Leia também: Mercado mantém cautela com impacto de reunião Lula-Trump: “A conversa não fez preço”, avalia diretor de investimentos

Seção 301 também é política, diz Giannetti

Para Giannetti, o Brasil chega à mesa com argumentos consistentes. O economista afirma que não vê, hoje, um caso explícito de prática desleal de comércio por parte do país.

“O Brasil tem sido extremamente disciplinado, obediente às regras do comércio internacional. Nós não praticamos quase nenhum subsídio em exportação. A exportação hoje é uma exportação absolutamente competitiva. O que é competitivo vende, o que não é não vende”, disse.

Ainda assim, ele alerta que a Seção 301 não deve ser tratada como um procedimento puramente técnico.

“A 301 nem sempre é técnica, ela é também política, porque você pode criar argumentos, até usar informações de mercado que não são corretas, equivocadas”, afirmou.

Na avaliação do economista, os próximos 30 dias precisam ser usados com eficiência para tentar construir uma solução antes de uma eventual decisão do USTR, o escritório do representante comercial dos Estados Unidos. O risco, segundo ele, é o Brasil ser atingido por tarifas que podem se prolongar mesmo que, depois, consiga demonstrar que a decisão foi baseada em premissas equivocadas.

A Seção 301 é um instrumento da legislação comercial americana que permite aos Estados Unidos investigar práticas de outros países consideradas prejudiciais a empresas americanas. No caso brasileiro, a apuração envolve temas como tarifas, comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual e outras regras de acesso ao mercado.

Déficit comercial vira argumento brasileiro

À frente da Fazenda, o ministro Dario Durigan levou à reunião uma avaliação positiva da economia brasileira e reforçou o argumento de que a relação comercial entre os dois países não justifica uma escalada tarifária contra o Brasil.

Durigan disse que apresentou aos americanos um cenário de estabilidade, com inflação sob controle, crescimento acima do esperado e melhora da renda.

“Disse a eles que a economia do Brasil está vivendo um bom momento, momento de estabilidade, com inflação sob controle, com crescimento acima do esperado, inclusive pelas previsões do FMI e das demais agências internacionais”, afirmou.

Na frente externa, o ministro disse que os números do comércio bilateral reforçam o pleito brasileiro. Segundo ele, pelos dados do MDIC, o Brasil teve déficit próximo a US$ 20 bilhões com os Estados Unidos em 2025. Pelas estatísticas americanas, esse déficit se aproxima de US$ 30 bilhões.

“O número deles inclusive dá mais razão ao nosso pleito”, disse Durigan.

Giannetti concorda que o dado enfraquece a justificativa para novas tarifas, embora não encerre a discussão.

“Isso não demonstra que você esteja praticando todos os atos dentro da regra de comércio exterior, dentro da regra da OMC, mas mostra que tem um déficit do Brasil com os Estados Unidos, que eles têm uma vantagem comercial”, afirmou.

O economista diz que novas restrições americanas sobre bens brasileiros poderiam ampliar ainda mais esse déficit. Ele lembra ainda que a relação econômica entre os dois países não se resume ao comércio de bens, já que os Estados Unidos têm forte vantagem em serviços, como software, patentes, royalties, serviços jurídicos e turismo.

“Eles falam em bens, mas não falam em serviços, porque em serviços o superávit deles é muito maior que US$ 30 bilhões”, afirmou.

Para Giannetti, o Brasil deve conduzir a negociação sem ameaça, mas com firmeza.

“É um jogo que a gente tem que saber jogar com sabedoria, sem ameaça, mas também com firmeza. Se a gente sofrer uma atitude desleal dos Estados Unidos, vamos responder da mesma forma”, disse.

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Minerais críticos entram como ativo estratégico

Se tarifas são o risco imediato, minerais críticos e terras raras aparecem como a agenda de médio e longo prazo da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse que Lula tratou no encontro o subsolo brasileiro e os materiais estratégicos como “grande patrimônio do país” e defendeu que o novo marco regulatório dá segurança para atrair investimentos estrangeiros.

Segundo Silveira, a estratégia brasileira é avançar além da extração, com desenvolvimento da cadeia industrial no país, da separação ao refino.

“O presidente deixou clara a importância desses minerais para a gente desenvolver a nossa indústria, a industrialização, desde a separação até o refino”, afirmou.

O ministro disse ainda que o Brasil tem segurança jurídica, potencial mineral e condições competitivas para atrair capital estrangeiro, inclusive americano.

Na coletiva, Lula seguiu na mesma linha. O presidente disse que o Brasil está aberto a parcerias com empresas americanas e de outros países, mas não quer repetir o modelo histórico de exportar matéria-prima sem desenvolver a cadeia produtiva internamente.

“O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas”, disse Lula. “Nós queremos que o Brasil seja o grande ganhador dessa riqueza que a natureza nos deu.”

Giannetti avalia que o Brasil tem condições de capturar mais valor nessa cadeia. Ele afirma que a lista de minerais críticos vai além das terras raras e inclui itens como nióbio, estanho, tungstênio, cobre, níquel, potássio e fosfato.

“Nós temos condição de agregar, sim, valor à nossa exportação”, disse.

Segundo o economista, avançar no refino e na industrialização pode multiplicar o valor econômico desses minerais.

“Isso aumenta o valor agregado em 20, 30 vezes o valor do minério em bruto e gera milhares de empregos, dá independência também do ponto de vista tecnológico”, afirmou.

Para Giannetti, esses recursos tendem a ganhar peso crescente nas próximas décadas, impulsionados pela transição energética e por setores estratégicos, como defesa, indústria aeroespacial e petróleo.

“Daqui a 10, 20, 30 anos, nós vamos estar vendendo dezenas de bilhões de dólares. Vai ser tão importante quanto o petróleo esses minerais críticos que são hoje escassos”, disse.

Data centers e soberania regulatória

A agenda econômica também passou por data centers, plataformas digitais e soberania regulatória. Lula afirmou que empresas interessadas em instalar data centers no Brasil terão que produzir a própria energia.

“Alguém quer fazer data center no Brasil, tem que produzir sua própria energia, porque nós não vamos gastar dinheiro para criar data center para mandar dado para outros países”, disse. “Nós queremos dados para nós.”

A fala reforça a ideia de que o Brasil quer atrair investimento estrangeiro, mas pretende estabelecer contrapartidas para que projetos em áreas estratégicas deixem valor no país.

A mesma lógica apareceu quando Lula tratou de plataformas digitais. Segundo o presidente, empresas estrangeiras são bem-vindas no Brasil, desde que respeitem a regulamentação brasileira.

“O que nós queremos é o seguinte: entra qualquer plataforma de qualquer país do mundo no Brasil sob a regulamentação soberana do Brasil”, afirmou.

Questionado sobre o Pix, Lula disse que Trump não tratou do tema na reunião. O assunto é sensível porque comércio digital e meios de pagamento estão entre os pontos acompanhados na investigação americana da Seção 301.

“Ele não tocou no assunto do Pix, então também não toquei, porque eu espero que um dia ele ainda vá fazer um Pix”, disse.

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Encontro foi positivo, mas teste virá agora

Para Giannetti, a reunião teve sinais positivos para o Brasil. Ele afirma que o tom de Lula na coletiva indicou satisfação com o encontro.

“Vejo que houve uma preparação muito boa. Levaram os temas escritos em inglês para deixar uma posição do Brasil muito bem explícita e definida no papel, para não ter dúvida depois”, afirmou.

O economista também interpretou o almoço com a equipe brasileira como um gesto positivo de Trump.

“Ele convidou a equipe brasileira para almoçar, que eu acho que nem estava no protocolo. Então, isso tudo são sinais muito positivos”, disse.

Na avaliação de Giannetti, o Brasil saiu do encontro com ganho de imagem internacional. Mas o teste concreto virá agora, na negociação técnica.

“O Brasil ganhou um ponto hoje a nível internacional de ter uma reunião tão produtiva, tão construtiva com o presidente Trump, que é uma pessoa difícil”, concluiu.

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