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Reportagem do Wall Street Journal mostra como PCC virou potência global na venda de drogas

Publicado 21/04/2026 • 18:00 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Wall Street Journal define PCC como maior grupo criminoso das Américas, com operações em quase 30 países e 40 mil membros. E citou o controle de rotas de cocaína da Amazônia ao Porto de Santos, com parcerias com a 'Ndrangheta italiana e a Yakuza japonesa.
  • A reportagem conversou com o promotor responsável pela persecução do PCC em São Paulo há duas décadas:  "Eu acredito ser hoje a organização criminosa que cresce mais rápido em todo mundo", disse Lincoln Gakiya.
  • O WSJ afirmou que promotores e policiais brasileiros pediram ao presidente Donald Trump que classifique o PCC como Organização Terrorista Estrangeira, colocando-o ao lado de mais de uma dezena de outras redes criminosas latino-americanas já rotuladas dessa forma. A reportagem, no entanto, não citou os nomes desses promotores e dos policiais.
chamada da matéria do PCC no wall street journal

reprodução WSJ

Wall Street Journal define PCC como maior grupo criminoso das Américas, com operações em quase 30 países e 40 mil membros

O Primeiro Comando da Capital chegou longe desde os dias em que seus fundadores pediam sabão e papel higiênico nas celas da penitenciária de Taubaté, em São Paulo. Uma extensa reportagem publicada pelo The Wall Street Journal, um dos jornais mais influentes do mundo, retrata o PCC hoje como o maior grupo criminoso das Américas, com presença em quase 30 países em todos os continentes, exceto a Antártida, e uma estrutura que combina escala, eficiência e alcance global.

O texto, assinado pela jornalista Samantha Pearson, descreve uma organização com cerca de 40 mil membros entre grades e ruas, capaz de operar como uma multinacional do crime, com divisão norte-americana, rede de lavagem sofisticada e alianças com algumas das máfias mais temidas do planeta.

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Exportação de cocaína é o principal negócio

A base de tudo é a cocaína. O WSJ deixa claro que o tráfico da droga permanece o principal negócio do PCC, e que é justamente essa dependência da matéria-prima produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia que explica a expansão do grupo pelo território brasileiro.

Para reduzir o custo da cadeia, o PCC avançou sobre comunidades ribeirinhas na Amazônia, ocupando vilas onde não há médico nem policial, mas já existem traficantes recrutando jovens pelo futebol e impondo uma justiça paralela brutal. A estratégia permite acesso direto às rotas fluviais que conectam o Brasil aos países produtores, cortando os intermediários que antes controlavam o fluxo.

Amazônia funciona como corredor do tráfico

A presença do PCC no Norte do Brasil se expande pelo Nordeste e pelo coração da floresta amazônica. Lideranças do grupo chegaram a se disfarçar de pastores evangélicos para ganhar a confiança de comunidades isoladas e recrutar novos integrantes.

O jornal detalha que toneladas de cocaína são movimentadas mensalmente pela região, transportadas por caminhões, balsas, aviões de pequeno porte e helicópteros até o litoral, de onde seguem em contêineres para pontos de trânsito na África Ocidental e, de lá, para mercados em expansão na Europa.

Porto de Santos na rota europeia

O Porto de Santos, o maior da América Latina, é descrito pelo Wall Street Journal como o principal ponto de saída da droga para o continente europeu. Mergulhadores e soldadores foram presos nos últimos anos por esconder cocaína nos cascos de navios com destino à Europa e à África, em câmaras submersas construídas à noite.

Antuérpia, Roterdã e Hamburgo figuram entre os principais destinos, onde a chegada da droga alimentou guerras entre facções locais e resultou em ataques a granadas, tiroteios e sequestros documentados pela polícia portuária, afirmou o Journal.

Alianças com máfias globais

A sofisticação do PCC vai além da logística, o grupo firmou parcerias com a ‘Ndrangheta italiana, a Yakuza japonesa e gangues albanesas e sérvias na África Ocidental. O promotor Lincoln Gakiya, responsável pela persecução do PCC em São Paulo há duas décadas, chamou essas articulações de “convergência criminal.”

“Eu acredito ser hoje a organização crimonsa que cresce mais rápido em todo mundo”, disse Gakiya ao WSJ.

Essa estrutura horizontal, sem hierarquia rígida, dificulta o desmantelamento da organização. O histórico líder Marcola está preso desde 1999, mas o grupo prospera sem depender de um único nome.

Lavagem que vai de igrejas a fintechs

O dinheiro do crime percorre caminhos variados, com operações de lavagem por meio de postos de gasolina, fundos imobiliários, fintechs, motéis, concessionárias e construtoras. Em 2023, promotores no Rio Grande do Norte investigaram uma célula do PCC acusada de montar ao menos sete igrejas para lavar dinheiro do tráfico, prática que as autoridades já chamam de narcopentecostalismo.

Em fevereiro deste ano, uma operação em São Paulo desmontou uma rede ligada a um grupo de origem chinesa que, segundo investigadores, lavou mais de 200 milhões de dólares com a venda de eletrônicos em associação com afiliados do PCC.

Financiamento de campanhas políticas

O alcance do grupo também chega à política e a jornalista relata a prisão, em fevereiro, do operador de uma fintech milionária que as autoridades acreditam ter financiado campanhas eleitorais nas eleições municipais de 2024 para garantir contratos de coleta de lixo, concessões de transporte e fornecimento de combustível.

O então chefe de inteligência da polícia militar de São Paulo, coronel Pedro Lopes, disse ao WSJ que a infiltração do PCC na política do estado mais rico do Brasil surpreendeu até os investigadores mais experientes.

Presença em cinco estados americanos

Desde 2024, quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos congelou os ativos americanos de Diego Gonçalves do Carmo, acusado de lavar mais de 1 bilhão de reais para o PCC, investigadores identificaram afiliados do grupo em cinco estados americanos: Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee.

Em Massachusetts, o Ministério Público Federal anunciou indiciamentos contra 18 brasileiros apontados como ligados ao PCC pelo tráfico de armas, incluindo fuzis e espingardas, além de fentanil.

Pedido de classificação como organização terrorista

O WSJ afirmou que promotores e policiais brasileiros pediram ao presidente Donald Trump que classifique o PCC como Organização Terrorista Estrangeira, colocando-o ao lado de mais de uma dezena de outras redes criminosas latino-americanas já rotuladas dessa forma. A reportagem, no entanto, não citou os nomes desses promotores e dos policiais.

O movimento ganha peso em um contexto em que Washington ampliou agressivamente essa lista desde o início do segundo mandato de Trump. Em fevereiro de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio designou oito organizações com raízes na América Latina como Organizações Terroristas Estrangeiras, incluindo o Cartel de Sinaloa, o Cartel Jalisco Nueva Generación e o MS-13. Desde o início de 2025, o governo Trump adicionou 26 novos grupos à lista de organizações terroristas estrangeiras – o maior aumento em um único ano desde que a lista foi criada, em 1997. O PCC, até agora, segue fora dela.

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