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Retaliação aos EUA pode abrir nova escalada tarifária contra o Brasil

Publicado 14/08/2026 • 22:40 | Atualizado há 42 minutos

KEY POINTS

  • Vitelio Brustolin afirma que eventual aplicação de medidas de reciprocidade pelo Brasil ainda depende de consultas e não deve ocorrer no curto prazo.
  • Professor alerta que uma retaliação pode provocar novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros, em uma escalada semelhante à observada com outros parceiros dos EUA.
  • Na avaliação dele, negociar redução de tarifas pode aumentar a competição e beneficiar consumidores brasileiros.

Uma eventual retaliação brasileira ao tarifaço dos Estados Unidos pode desencadear uma nova rodada de medidas contra produtos do país e ampliar a pressão sobre a indústria nacional. A avaliação é de Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais e pesquisador de Harvard.

Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Brustolin afirmou que o acionamento da Lei de Reciprocidade representa apenas uma primeira etapa e que qualquer contramedida ainda dependerá de consultas aos setores envolvidos.

“A princípio, essa é uma primeira fase. Essa lei, se realmente for aplicada alguma medida recíproca, alguma retaliação, isso só vai acontecer no ano que vem”, afirmou.

Segundo ele, o próprio governo tem apresentado o mecanismo também como uma forma de abrir ou reabrir espaço para o diálogo com Washington.

Retaliação pode gerar nova resposta dos EUA

Brustolin defendeu que o Brasil considere os riscos de uma escalada comercial antes de aplicar tarifas em resposta aos Estados Unidos.

O professor citou experiências de outros países que retaliaram medidas americanas e afirmou que o Brasil pode enfrentar novas barreiras caso siga pelo mesmo caminho.

“Se nós retaliarmos, nós podemos entrar no cenário do Canadá e termos mais tarifas contra as nossas indústrias, o que certamente não é bom para elas”, disse.

Na avaliação dele, a posição do setor produtivo brasileiro também deveria pesar na decisão. Brustolin citou manifestações contrárias à reciprocidade por parte de entidades da indústria e afirmou que o empresariado prefere uma saída negociada.

“A indústria brasileira está dizendo para o governo: ‘É melhor nós negociarmos’”, afirmou.

Segundo o professor, essa posição mostra que setores beneficiados historicamente por mecanismos de proteção tarifária ainda assim enxergam risco em uma escalada com os Estados Unidos.

Brasil tem tarifas mais altas, afirma professor

Brustolin afirmou que o Brasil mantém níveis de proteção comercial superiores aos dos Estados Unidos e que a negociação atual poderia ser usada para discutir uma redução de barreiras.

Segundo os dados da Organização Mundial do Comércio citados por ele durante a entrevista, a tarifa de nação mais favorecida aplicada pelo Brasil seria de 12%, contra 3,4% nos Estados Unidos.

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Na média ponderada pelo comércio, Brustolin citou 9,2% para o Brasil e 2,1% para os Estados Unidos. Também afirmou que 18% dos produtos brasileiros estariam livres de tarifas, ante 47% no mercado americano.

“O Brasil é, sim, um país protecionista, não há dúvida sobre isso. E o Brasil poderia aproveitar essa negociação para reduzir as tarifas”, disse.

Os números foram apresentados pelo professor durante a entrevista.

Redução tarifária aumentaria competição

Para Brustolin, uma negociação que envolvesse redução de tarifas brasileiras poderia aumentar a pressão competitiva sobre a indústria nacional, mas também forçaria ganhos de eficiência.

“Se nós reduzirmos as nossas tarifas, as nossas indústrias serão obrigadas a ser mais competitivas no mercado internacional, porque senão elas não vão conseguir manter ou ganhar espaço contra outras indústrias de outros países”, afirmou.

Ele ponderou que a indústria brasileira não teria condições de competir diretamente em todos os segmentos com produtos americanos, mas afirmou que uma abertura negociada não precisaria necessariamente atingir todos os parceiros comerciais da mesma maneira.

O professor citou acordos comerciais dos Estados Unidos com diferentes países para sustentar que tarifas podem ser negociadas bilateralmente.

“Não há nenhuma norma da Organização Mundial do Comércio que nos obrigue a manter o mesmo nível tarifário para todos os países”, afirmou.

Consumidor também entra na conta

Brustolin argumentou que tarifas de importação não afetam apenas empresas, mas também consumidores que acabam arcando com parte do aumento de custos.

“Se algo no tarifaço do Trump foi aprendido nos Estados Unidos, é que quem paga as tarifas são os consumidores”, afirmou.

Para ele, esse efeito também deve ser levado em consideração pelo governo brasileiro na avaliação das possíveis contramedidas.

“De qualquer forma, nós precisamos de mais eficiência e, de qualquer forma, uma redução tarifária beneficiaria os consumidores do Brasil”, disse.

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