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Setor privado tenta evitar escalada tarifária de 25% imposta pelos EUA

Publicado 06/07/2026 • 10:12 | Atualizado há 17 minutos

KEY POINTS

  • Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que, caso as novas alíquotas do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) entrem em vigor, um terço das exportações brasileira serão afetadas.
  • Entidades e associações setoriais argumentam que questões tarifárias podem ser resolvidas com um diálogo bilateral.
  • Audiência pública começa nesta segunda-feira e vai contar com participação de empresários e políticos.
Tarifaço

Unsplash.

Começa nesta segunda-feira (6) a audiência pública sobre a proposta do governo de Donald Trump de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre a exportação de produtos brasileiros para os Estados Unidos. O setor produtivo nacional acompanha de perto o avanço das medidas protecionistas de Washington.

O debate gira em torno do pacote anunciado em 2 de junho, que atinge setores estratégicos como a indústria de máquinas, calçados e o complexo sucroenergético. Um dia após o anúncio inicial, o governo americano propôs uma taxa adicional de 12,5%, sob a alegação de uso de mão de obra escrava e descumprimento de acordos de desmatamento por parte do Brasil.

Projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que, caso as novas alíquotas do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) entrem em vigor, 31,6% das exportações brasileiras para o país serão tributadas em 37,5%, um salto de 27,5 pontos percentuais em relação à tarifa atual de 10%.

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A reação dos setores afetados

A audiência contará com representantes de entidades de classe, como a CNI, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de lideranças dos setores de arroz, calçados, etanol, açúcar, mel, ferro-gusa e café.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) contesta os argumentos do USTR. A entidade destaca que os EUA importaram US$ 3,2 bilhões em maquinário brasileiro em 2025, registrando um superávit comercial de US$ 1,2 bilhão nessa relação. A Abimaq ressalta ainda que máquinas e componentes são bens de capital customizados, integrados a cadeias de suprimentos complexas americanas (como indústria, agricultura e energia) e difíceis de serem substituídos no curto prazo.

No setor sucroenergético, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) será representada pelo ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral. A defesa sustentará que o relatório do USTR apresenta falhas técnicas e utiliza dados de desmatamento desatualizados.

A Unica pontua que a queda no envio de etanol americano ao Brasil se deve a fatores de mercado — como a expansão do etanol de milho brasileiro, câmbio e logística —, e não a políticas tarifárias. A entidade reforça que a sobretaxa ao etanol importado aplicada pelo Brasil não é direcionada aos EUA, e lembra que Washington já adota uma forte política protecionista para sua indústria local.

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A Abicalçados, representada pela gerente de Relacionamento e Negócios, Letícia Sperb Masselli, destacará a interdependência dos mercados. O Brasil é o quinto maior produtor de calçados do mundo e o maior fora da Ásia, utilizando insumos americanos em sua produção. A entidade argumenta que o “tarifaço” não expandirá a produção doméstica nos EUA devido à alta dependência de mão de obra do setor; ao contrário, elevará custos para pequenos varejistas e empurrará a demanda de volta para a Ásia, frustrando os planos de Washington de regionalizar suas cadeias de suprimentos.

Já o setor de arroz, defendido pela diretora executiva da Abiarroz, Andressa Silva, argumenta que o produto brasileiro não compete com a commodity de massa no mercado americano. O arroz nacional atende a nichos gastronômicos específicos e comunidades de imigrantes concentradas em estados populosos como Flórida, Nova York e Nova Jersey.

O Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (SINDIFER) também se posicionou contra a taxação de 25%, afirmando que o ferro-gusa brasileiro não possui qualquer relação com os temas investigados pelo USTR, tais como comércio digital, Pix, tarifas preferenciais ou anticorrupção.

Quanto à acusação de desmatamento ilegal, o sindicato esclarece que o ferro-gusa de seus membros utiliza carvão vegetal proveniente de florestas plantadas, exigindo uma avaliação ambiental que seja feita por fornecedor e produto específico, e não de forma generalizada.

A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) apresentará a defesa do setor destacando o papel das florestas plantadas brasileiras como principal fonte de suprimento para a indústria madeireira, o manejo florestal sustentável, as boas práticas adotadas pelo setor, os sistemas de controle e rastreabilidade da cadeia produtiva e o rigor da legislação ambiental brasileira.

Já o Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) defende a manutenção das isenções tarifárias concedidas anteriormente e pleiteia a inclusão do café solúvel a granel sem sabor na lista de produtos livres de sobretaxas, visto que os EUA carecem de produção doméstica significativa desse insumo crítico para a indústria de bebidas prontas para beber (RTD) e cold brew.

Defesa ambiental e propriedade intelectual

Na frente de propriedade intelectual, a Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI) detalhará as ações coordenadas da Estratégia Nacional de Propriedade Intelectual (ENPI) e do Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP). Como exemplo da repressão ao mercado ilegal, a entidade cita operações da Receita Federal, como a Operação Blackbeard em São Paulo — que apreendeu R$ 500 milhões em roupas e calçados — e a retenção de 300 toneladas de produtos falsificados no Porto de Santos em maio de 2026.

Por fim, a CNA rebaterá as acusações de crime ambiental. Em documento entregue ao USTR pela diretora adjunta de Relações Internacionais, Fernanda Maciel Carneiro, a confederação demonstrará que o desmatamento anual na Amazônia caiu pelo quarto ano consecutivo, recuando 56% entre 2021 (13.038 km²) e 2025 (5.796 km²), segundo dados oficiais do sistema Prodes/Inpe. A CNA enfatiza que o desmatamento ilegal é residual e concentrado em propriedades isoladas, não representando a realidade do agronegócio brasileiro, que opera majoritariamente na legalidade e sem alertas ambientais.

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