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Tarifaço: expansão do etanol de milho brasileiro pode ser a causa da pressão dos EUA sobre o setor de biocombustíveis

Publicado 18/07/2026 • 09:08 | Atualizado há 9 minutos

KEY POINTS

  • A decisão de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros é, segundo a UNEM, um retrocesso para a cooperação entre Brasil e Estados Unidos.
  • Entidade defende que sobretaxa amplia a insegurança regulatória, cria um precedente preocupante para o comércio internacional.
  • Na avaliação da UNEM, a decisão dos Estados Unidos pode estimular novas barreiras comerciais e comprometer oportunidades de cooperação tecnológica e ambiental entre os dois países.
Etanol

UNEM

A decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, incluindo o etanol, provocou reação da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), que classificou a medida como um retrocesso para a cooperação entre os dois maiores produtores mundiais de biocombustíveis.

Em nota divulgada após o anúncio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), a entidade afirmou que a sobretaxa amplia a insegurança regulatória, cria um precedente preocupante para o comércio internacional e contraria os esforços conjuntos de descarbonização da matriz energética global.

A nova tarifa entra em vigor em 22 de julho e integra a mais recente rodada de sanções comerciais adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros.

Embora a UNEM avalie que o impacto direto sobre as exportações de etanol seja limitado, já que o mercado americano deixou de ser prioritário para o combustível brasileiro, a entidade defende que a decisão pode estimular novas barreiras comerciais e comprometer oportunidades de cooperação tecnológica e ambiental entre os dois países.

Segundo a UNEM, ao lado da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), foram apresentados ao USTR argumentos técnicos e jurídicos demonstrando que o Brasil não adota práticas discriminatórias contra o etanol norte-americano.

A entidade também destacou a atuação do governo brasileiro nas negociações diplomáticas e reiterou que a tarifa brasileira de importação de etanol, atualmente em 18%, segue o princípio da Nação Mais Favorecida (MFN), previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), sendo aplicada de forma igualitária aos países que não possuem acordo comercial preferencial com o Brasil.

Leia também: Tarifaço reforça pressão por acordo sobre etanol e expõe impasse comercial entre EUA e Brasil

A justificativa americana

Na avaliação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o Brasil deixou de oferecer um tratamento tarifário considerado equilibrado ao etanol norte-americano e não manteve a reciprocidade em relação às condições concedidas pelos Estados Unidos ao produto brasileiro.

O órgão americano argumenta que, após o Brasil restabelecer sua tarifa de importação sobre o etanol, as vendas dos Estados Unidos ao mercado brasileiro caíram de forma expressiva. Em 2025, as exportações americanas de etanol para o Brasil somaram US$ 96 milhões, uma queda de 87% em relação ao pico registrado em 2018, quando atingiram US$ 761 milhões. Para o governo americano, essa redução justificaria a adoção da tarifa adicional sobre o etanol brasileiro.

A avaliação é contestada pela UNEM. Segundo a entidade, a diminuição das importações decorre de mudanças estruturais no mercado brasileiro, especialmente do crescimento acelerado da produção doméstica de etanol de milho, que elevou a oferta nacional e reduziu naturalmente a necessidade de compras externas.

Brasil vive expansão histórica do etanol de milho

O momento escolhido pelos Estados Unidos para elevar as tarifas coincide com uma das maiores fases de crescimento da indústria brasileira de biocombustíveis.

A expectativa para a safra 2026/27 é de produção próxima de 38 bilhões de litros de etanol, volume cerca de 4% superior ao ciclo anterior. Em uma década, a produção nacional deverá acumular crescimento de aproximadamente 40%.

Grande parte dessa expansão é explicada pelo avanço do etanol de milho, segmento praticamente inexistente no Brasil há menos de dez anos. Em 2017, o país possuía apenas duas usinas dedicadas ao processamento do cereal. Atualmente, já são mais de 30 unidades, concentradas principalmente na região Centro-Oeste.

Hoje, o etanol de milho responde por cerca de 20% da produção nacional e se consolidou como um dos principais vetores de crescimento do setor.

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A ampliação da capacidade industrial reduziu a dependência do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e praticamente eliminou a vantagem logística que favorecia o produto norte-americano no abastecimento das regiões Norte e Nordeste.

Na avaliação da UNEM, foi justamente esse ganho de competitividade que levou à redução das importações, e não qualquer restrição imposta ao comércio internacional.

Leia também: Nova mistura de etanol na gasolina pode criar demanda extra de quase 1 bilhão de litros

Impactos para um setor em crescimento

Mesmo sem representar hoje o principal destino das exportações brasileiras de etanol, o mercado americano permanece relevante para o setor. Em 2025, os Estados Unidos importaram 253 milhões de litros de etanol brasileiro, movimentando US$ 163 milhões e consolidando-se como o segundo maior mercado externo do combustível nacional, atrás apenas da Coreia do Sul.

Além do etanol, o açúcar também foi incluído na nova rodada tarifária. Os Estados Unidos receberam 420 mil toneladas do produto brasileiro em 2025, volume inferior às 1,12 milhão de toneladas exportadas no ano anterior.

Leia também: O aumento da concentração do etanol na gasolina afeta o funcionamento do carro?

Na avaliação da UNEM, o maior risco da decisão americana não está necessariamente na perda imediata de mercado, mas na sinalização que ela transmite para investidores e parceiros comerciais em um momento de forte expansão da indústria brasileira de biocombustíveis.

A entidade afirma que Brasil e Estados Unidos possuem interesses convergentes na ampliação do mercado global de combustíveis renováveis, especialmente para combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), combustíveis marítimos renováveis e outras iniciativas voltadas à descarbonização do transporte.

Por isso, defende que eventuais divergências comerciais sejam resolvidas por meio do diálogo institucional e da negociação bilateral.

Para a UNEM, o fortalecimento da produção brasileira decorre do aumento da eficiência, da expansão da capacidade produtiva e dos ganhos de competitividade alcançados pela indústria nacional, fatores que, segundo a entidade, não podem ser confundidos com práticas desleais de comércio.

Inpasa simboliza nova fase da indústria

A transformação do mercado brasileiro tem na Inpasa seu principal exemplo. A empresa tornou-se a maior produtora de etanol de milho do país e lidera a expansão industrial do segmento.

Em 2026, a companhia inaugurou uma nova planta em Luís Eduardo Magalhães (BA), ampliando sua atuação para além do Centro-Oeste e reforçando a interiorização dos investimentos na cadeia dos biocombustíveis.

A expansão da Inpasa acompanha um movimento mais amplo de aumento da capacidade instalada, impulsionado pela disponibilidade de milho, pelos ganhos de eficiência industrial e pela diversificação das matérias-primas utilizadas na produção de etanol.

Esse novo cenário alterou significativamente a dinâmica do mercado brasileiro. Se antes o etanol americano encontrava espaço principalmente nas regiões mais distantes das usinas sucroenergéticas, a expansão da produção nacional reduziu essa dependência e fortaleceu a autossuficiência brasileira.

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