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Tarifaço: Brasil pode perder mercado nos EUA de forma permanente, diz Roberto Azevêdo

Publicado 27/07/2026 • 22:30 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Roberto Azevêdo afirma que, considerando a pauta de 2024, quase metade das exportações brasileiras aos Estados Unidos continua sujeita às tarifas.
  • Máquinas e equipamentos estão entre os produtos mais expostos à substituição por fornecedores de outros países.
  • Ex-diretor da OMC defende negociações oficiais e setoriais, apesar de considerar baixa a probabilidade de um acordo amplo no curto prazo.

As tarifas aplicadas pelos Estados Unidos podem provocar uma perda permanente de mercado para produtos brasileiros de maior valor agregado. É o que afirma Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) e presidente da 9G Consulting.

Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Azevêdo afirmou que máquinas, equipamentos e outros bens integrados às cadeias produtivas americanas estão entre os segmentos mais vulneráveis. Com as tarifas, empresas dos Estados Unidos podem substituir fornecedores brasileiros e reorganizar suas cadeias de suprimento.

“Esse comércio, se desestruturando, vai ser difícil recuperar. As empresas começam a procurar alternativas de suprimento e a diversificar suas cadeias”, afirmou.

Segundo Azevêdo, mesmo que as tarifas sejam retiradas no futuro, as relações comerciais anteriores não seriam necessariamente retomadas no mesmo volume.

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Quase metade das exportações pode estar afetada

As tarifas combinadas chegam a 37,5% sobre parte dos produtos brasileiros e atingem cerca de um terço das exportações atuais aos Estados Unidos.

Azevêdo afirmou, porém, que o impacto seria maior ao considerar como referência a pauta comercial de 2024, antes da redução das vendas provocada pelas primeiras medidas.

“Se usarmos como base o ano de 2024, o volume de comércio exterior que continua afetado por essas tarifas chega a quase 50%”, disse.

Na avaliação do ex-diretor da OMC, o principal risco não está apenas na perda imediata de receita, mas na redução da presença brasileira em cadeias industriais de maior valor agregado.

Contágio protecionista preocupa

Azevêdo afirmou que as medidas dos Estados Unidos não estão restritas à relação com o Brasil. Segundo ele, Washington adotou restrições contra mais de 80 países.

O caso brasileiro é diferente porque os Estados Unidos mantêm superávit no comércio bilateral, enquanto a maior parte dos países atingidos registra superávit nas vendas ao mercado americano.

Para o ex-diretor da OMC, o enfraquecimento das regras multilaterais aumenta o risco de outros países adotarem barreiras semelhantes.

“Não chega a ser exatamente um efeito dominó, mas há um certo contágio. A gente vê um esgarçamento das regras multilaterais”, afirmou.

Contestação na OMC teria efeito limitado

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O Brasil poderia questionar as tarifas no sistema de solução de controvérsias da OMC e teria possibilidade de vencer a primeira etapa do processo, segundo Azevêdo.

O problema seria uma eventual apelação dos Estados Unidos. Como o órgão de apelação da OMC está inoperante, o processo ficaria paralisado e sem consequência prática.

“A via multilateral pode ter um efeito simbólico, de demonstração de que a outra parte está violando as regras, mas não teria resultado prático para reverter a medida”, disse.

Azevêdo afirmou que o caminho jurídico e a negociação política não são excludentes e podem avançar simultaneamente.

Negociação setorial pode ampliar exceções

O ex-diretor da OMC defendeu que empresas brasileiras busquem clientes, associações e parceiros nos Estados Unidos interessados em preservar as importações.

A estratégia poderia mostrar à Casa Branca que a tarifa também causa prejuízos às cadeias industriais e aos consumidores americanos, abrindo espaço para a inclusão de novos produtos na lista de exceções.

Segundo Azevêdo, negociações entre empresas brasileiras e americanas já contribuíram para retirar das tarifas produtos como carnes, café, suco de laranja e itens industriais.

A decisão final, no entanto, permanece política.

“No fim das contas, tudo vai para a Casa Branca. É o presidente quem vai decidir se está de acordo ou não com o entendimento alcançado”, afirmou.

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Probabilidade de acordo é baixa, mas negociação deve continuar

Azevêdo disse não ver motivos para otimismo em relação a uma redução ampla das tarifas no curto prazo. O calendário eleitoral brasileiro também dificulta concessões unilaterais aos Estados Unidos.

Apesar disso, o ex-diretor da OMC defendeu a manutenção dos canais oficiais e privados de negociação.

“Se houver negociação, a probabilidade de êxito é baixa. Se não houver contato, a probabilidade passa a ser zero. Prefiro viver com uma probabilidade baixa do que com uma probabilidade zero”, afirmou.

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